HISTÓRIAS

Pais presentes assumem perfil afetivo na vida dos filhos

A paternidade assume outras características e deixa de ser sinônimo de segurança financeira para ser presença

Diego Moraes se reveza com a esposa nos plantões com a filha Lisiane, que está há um ano internada com suspeita de ter doença degenerativa ( Foto: José Leomar )
01:00 · 12.08.2017 por Karine Zaranza - Repórter
Lucineudo mantém a relação com o filho Messias forte, através do convívio intenso, garantido pela guarda compartilhada

A imagem da paternidade vem ganhando outros contornos a partir do momento em que, finalmente, homens e mulheres passaram a ocupar o mesmo espaço dentro da vida privada. Os novos formatos familiares e o compartilhamento de tarefas e responsabilidades em relação aos filhos dão a este novo pai o espaço e a importância devida. Para a psicóloga Vanessa Castro, ser esse pai presente é salutar não apenas para a o home, como para família e também para a sociedade.

"Sendo a família um sistema dinâmico que se transforma continuamente, hoje assistimos uma nova postura paterna, em que o pai tem assumido funções, antes só desempenhadas pela mãe. O pai tinha um papel de coadjuvante na educação dos filhos e muitas vezes estava a margem dessa relação, dificultando o vínculo e gerando problemas de relacionamento. Com essa maior participação, o grupo familiar conquista virtudes e valores essenciais. Desenvolve-se o autoconhecimento, a autoestima, a autoconfiança, os relacionamentos interpessoais, aprende-se a viver em sociedade", explica a psicóloga.

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Landim descobriu que com Mateus teria que se dedicar mais. De quebra, além de pai mais presente, ele também se tornou militante contra o preconceito

Essas transformações sociais refletem em outras esferas, como no Direito de Família, por exemplo. Desde que entrou em vigor a Lei nº 13.058, em 2014, a modalidade compartilhada da guarda de filhos passou a ser a regra. A nova lei retirou a expressão "sempre que possível", não existindo mais direito de visitas do pai ou da mãe. O legislador, assim, reforça que pais não podem ser visitantes. Precisam ser presenças.

Para o juiz Mauro Feitosa, coordenador das Varas de Família e Sucessões de Fortaleza e titular da 15ª Vara de Família, explica que não existem estatísticas fechadas, mas há uma crescente de guardas compartilhadas. "Pensar que o melhor era ficar com a mãe acabou. Não deve haver diferença em razão do gênero. Há uma imposição que o magistrado foque aos interesses da criança e do adolescente que aos pais. O Código Civil criou como regra geral que a guarda se dê de forma compartilhada e as decisões judiciais hoje caminham nesse sentido. O importante é que a criança perceba que ele continua sendo filho dos dois", justifica o magistrado.

Guarda compartilhada

Exercício de responsabilidade grande e amor extremado é o conceito de paternidade para o professor Lucineudo Machado, 31 anos. Pai de Messias, 9, ele tem a guarda compartilhada do menino desde que se separou. Como o processo foi amigável e acordado, tanto pai quanto a mãe já definiram que o melhor para a criança seria ter uma presença constante dos dois, garantido pela guarda compartilhada.

Messias se divide entre os dois lares, mas a rotina foi pensada para que ele tivesse maior conforto. Na semana, como estuda perto da casa da mães, o pequeno vive lá. No fim de semana, alternado, é o momento da casa do pai. No entanto, Lucineudo faz visitas durante a semana e mantém, diariamente, a comunicação através de ligações e mensagens. "A gente se fala todos os dias. E eu e a mãe dele também conversamos e decidimos juntos tudo sobre ele", explica.

O professor conta que percebe que aos poucos os homens vem compreendendo a responsabilidade de serem mais presentes na vida dos filhos. Ainda é preciso avanços, no entanto. "Eu tento ser um pai muito presente, o máximo possível. Não tive pai presente e a minha maior inspiração foi a falta. A ausência de pai me deixou muito claro o pai que eu queria ser", afirma Lucineudo, que confessa que a paternidade foi responsável também por uma reaproximação com seu pai. "Não é a melhor relação, mas é a que temos agora".

Cuidado

Vanessa Castro aponta que regras familiares dão segurança emocional. "Pais aprendem a ser pais com os filhos e são educados por eles durante a convivência familiar", justifica. Ter uma rotina compartilhada é fundamental. Lucineudo se divide com as agendas médicas, enquanto a ex-mulher fica com as atividades escolares. No entanto, reuniões de pais, festas escolares e compromissos relacionado ao filho tem sempre espaço na agenda. "O que gostamos de fazer é andar de bicicleta. Ele me ensinou a andar de skate. Um passeio que a gente gosta de fazer juntos é ir ao cinema e ir à casa da avó", conta.

O cuidar é uma forma poderosa de estreitar laços. E, tantas vezes delegado apenas à mulher, esse amparo pode estar no colo masculino. Para a pequena Lisiane, um ano e nove meses, o pai Diego Moraes, 31, é também um porto seguro. A bebê nasceu com grave problema de saúde. Os médicos suspeitam de Amiotrofia muscular espinhal (AME), uma doença degenerativa de origem genética. Desde que a terceira filha do casal Diego e Luciana nasceu a vida mudou.

Eles saíram de Aracati os dois filhos mais velhos, Gabriel, 13, e Ana Cibele, 8, para morar em Fortaleza e garantir a caçula a assistência médica necessária. Ele, que trabalhava como segurança, saiu do emprego para revezar com a esposa a rotina de cuidados intensivos de Lisiane. "Fico uma semana no hospital com ela e minha esposa em casa com os outros filhos. Na outra semana é ela quem vem e eu vou", explica ele que cozinha, cobra as tarefas escolares e mantém a casa arrumada.

Os pais participam de um treinamento de cuidados para levar a filha para casa. Depois de um ano internada, a menina poderá conhecer o novo lar. Para isso, Diego já aprendeu a retirá-la do berço, vai aprender a alimentá-la por sonda. "No começo foi muito difícil. Ninguém nem imaginava. Agora já estamos acostumados. É uma nova experiência e, graças a Deus vai dá tudo certo", confia ele que se diz presenteado por retirá-lo.

Exemplo

Depois de vivenciar a paternidade com Sofia, hoje com seis anos, o engenheiro José Landim, 35, descobriu com Mateus que cada filho faz um pai diferente. O menino nasceu com Síndrome de Down e fez do pai também um militante pela inclusão das pessoas com essa alteração genética. "Com a Sofia a gente já tem o padrão, os amigos sabiam, você já tem essa estrutura de babá, mãe, pai e amigos. Com o Mateus, a gente não tinha esse padrão. Tudo era novo e éramos pai e mãe trabalhando para o desenvolvimento dele. Com isso, a gente teve uma dedicação muito maior. É a dedicação que você não pode delegar", diz.

Para fazer com que o filho fosse visto não como a síndrome, mas como um menino capaz, Landim começou a se envolver com outros familiares, incentivou a criação da Associação Fortaleza Down, que surgiu com um grupo de mães, reuniu pais em torno da causa e criou um perfil no Instagram do pequeno em que ele é a estrela.

Landim conta que estar presente do filho fez com que ele mesmo quebrasse preconceitos. Com Mateus, vivenciou experiências que nunca imaginou, conheceu ainda mais pessoas e se tornou um pai melhor. Agora, ele espera o terceiro filho, que está vindo. Se ele acha que vai dá conta da prole mais fácil? " Acho nada. Já estou apavorado. Cada um é diferente".

Entrevista com Marcos Piangers

Autor de "O Papai é Pop"

O homem precisa se desconstruir para ser pai

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Para você, quando o entendimento de que a função do pai iria além de prover a casa se instaurou?

Acredito que quando descobri que seria pai fiquei feliz por considerar que estaria substituindo aquela casa vazia, em que minha mãe solteira me criou sozinha, por um casa cheia de alegrias, risadas e encantamento. O aprendizado e a desconstrução do homem acontecem todos os dias. No primeiro momento também tive a ilusão de que, com minhas filhas, precisaríamos de mais e mais dinheiro. E que, portanto, eu precisaria trabalhar mais. Mas com o tempo, fui percebendo que o mais importante é a minha presença.

Você conta que seu pai abandonou sua mãe e você. Quais as referências de paternidade você guardou para si?

As referências que criei em termos de masculinidade foram as piores possíveis. Se você parar para anotar todos os sinais sociais incentivam um homem a ficar longe de sua família. O homem ainda em 2017 é considerado apenas um pagador de contas. É um sinal muito equivocado. Dessa forma precisei me desconstruir, ouvir minhas filhas e minha esposa. No final, um homem que aproveita essa chance pra ser mais presente também aproveita a chance de ser mais feliz.

Socialmente, há uma cobrança maior que os homens sejam pais presentes/participativos?

Acredito que não. Em geral as cobranças são muito mais pesadas para as mulheres. É muito confortável ser homem. Perceba: as pessoas olham com desconfiança uma grávida na empresa, existe um constrangimento. A culpa está sempre no coração da mãe solteira, quase nunca no coração do homem que abandona.

Como você se organiza para ser esse pai presente? É difícil ou é possível?

Possível, se você organizar seu tempo e sua vida financeira. Podemos viver com muito menos do que estamos acostumados. Isso nos dá espaço pra ter mais tempo. Criei uma hierarquia, abri mão de lazer e sono, mas aproveito cada segundo com minhas filhas.

Como você se sente após a paternidade? O que aprendeu com elas?

Todos os dias acho que aprendo alguma coisa. Nossos filhos são como grilos verdes nos dando bons conselhos. É necessário estarmos atentos.

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