DESEJO INCONDICIONAL

Pais adotivos são elos de amor

10:30 · 18.06.2008
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Apesar dos preconceitos, casais e inclusive pessoas solteiras realizam, pela adoção, o sonho de ter um filho

Adoção é, antes de tudo, um ato de amor. De um lado, casais ou homens e mulheres solteiros que abrem suas vidas para que pessoas, até então estranhas, se tornem seus filhos. Do outro, crianças e adolescentes marcados pelo abandono e pela rejeição, que muitas vezes passam anos sem saber o que é viver em família. O encontro dessas pessoas através da adoção mostra a capacidade humana de estabelecer laços de afeto profundos, independente das ligações biológicas.

Nove meses foi o tempo necessário para que o representante comercial Chagas Araújo e a cabeleireira Marriethe Lopes pudessem realizar o sonho de ter um filho. Mas não foi um caminho fácil. Após diversas tentativas naturais, o casal soube por uma amiga de uma mulher que queria doar uma bebê recém-nascido. ‘‘Procuramos fazer tudo pela via legal, mas um processo que envolve afetos é difícil. Houve um momento em que a mãe biológica quis voltar atrás, em outro queria poder visitá-lo. Mas realmente ela não tinha condições de criar a criança’’, lembra Chagas.

Hoje, há fotos da criança espalhadas pela casa e os novos pais não escondem a alegria que a adoção trouxe para as suas vidas. ‘‘Ser mãe é o máximo, não consigo mais pensar na minha vida sem minha filha. Fico pensando nela no trabalho e, em casa, é aquela alegria ao me abraçar, me chamar de mãe’’, conta Marriethe. ‘‘Tem horas que nem me lembro que ela é adotada. Até me incomodo quando algumas pessoas ficam me lembrando isso. Nós somos os pais dela, isso é o que importa’’, acrescenta Chagas.

Não foi fácil encontrar pessoas que se dispusessem a falar sobre suas experiências com filhos adotados. Apesar de os pais e mães com quem falamos fazerem questão de frisar o amor que sentem, independente de ser adotivo ou biológico, a adoção ainda é um tabu para muita gente, inclusive para os próprios filhos adotivos.

Também houve casos de pessoas que se recusaram a conceder entrevista por terem adotado seus filhos de forma ilegal. Por falta de informação ou medo de perder a criança, algumas pessoas optam pela chamada ‘‘adoção à brasileira’’: registram o filho de uma outra pessoa como se fosse seu, sem seguir os trâmites judiciais.

Atualmente, o Juizado de Infância e Juventude de Fortaleza trabalha para acelerar os processos que colocam crianças abrigadas disponíveis para a adoção, bem como estimular a adoção pela via legal. ‘‘Temos interesse de tornar o processo mais breve, mas sem colocá-las numa situação de risco’’, afirma o juiz Suenon Bastos Mota, coordenador do Juizado.

LIÇÕES DE VIDA
Quando a adoção bate à porta

A chegada de Geórgia na vida da funcionária pública Fanca Santiago foi, literalmente, uma encomenda do destino. Na época, com dois filhos pequenos e ainda superando a perda de uma filha, Fanca havia decidido voltar a trabalhar. ‘‘Um dia me chamaram na sala da pró-reitoria dizendo que havia uma encomenda para mim. Quando fui ver, era uma cestinha azul com um bebê todo arrumadinho dentro e um bilhete pedindo para que eu o criasse’’.

Fanca ainda guarda a cesta e o bilhete, mas jamais descobriu quem a enviou e por que foi a escolhida para cuidar da criança. “Hoje, só posso pensar que foi um presente de Deus’’, revela Fanca. O marido e os filhos dela ficaram encantados com a menina. Apesar disso, Fanca ainda relutou em assumir essa responsabilidade. ‘‘Eu nunca havia pensado em adotar porque já tinha os meninos. Fiquei em dúvida por conta da responsabilidade, mas com o tempo fui me apegando e hoje ela é tudo para mim’’.

Uma vez tomada a decisão, o amor que passou a ligar Fanca àquela criança era tão forte que ela se surpreendeu ao ver seus seios pingando leite. ‘‘Tomei um susto. Fui à ginecologista e contei toda a história. Ela disse que eu havia assimilado tanto a idéia da maternidade que meu corpo se comportava como se eu realmente tivesse tido um filho’’, lembra.

Desde pequena, Geórgia se acostumou a ouvir da mãe a história de que foi um ‘‘presente do papai do céu’’ . Hoje, com 22 anos, ela se sente imensamente grata por ter crescido naquela família. ‘‘Nunca senti diferença em relação aos meus irmãos, acho inclusive que fui mais mimada. Tem várias crianças que vivem na rua ou em abrigos, por isso sou muito grata pela vida que minha família me proporcionou’’, ressalta Geórgia.

Juntas, mãe e filha viveram muitas alegrias, mas também enfrentaram tristezas, como a morte do pai adotivo de Geórgia, quando ela tinha apenas nove anos. ‘‘Foi um momento muito duro para nós, para nossa família, mas também serviu para que ficássemos ainda mais próximas. E agora que somos adultas, dialogamos de igual para igual, somos muito amigas’’, explica Geórgia.

Planos futuros

Perguntada se pretendia um dia adotar uma criança, mãe e filha respondem ao mesmo tempo que sim. ‘‘Se tiver um filho biológico, faço questão de levar minha cestinha para a maternidade. Mas também quero adotar porque quero dar essa oportunidade a alguém de ter uma família. Conheço casais que não têm filhos e relutam em adotar, não consigo entender. É bom para os dois lados’’, finaliza Geórgia, com a mãe ao lado.

À ESPERA DE UM LAR
Perfil exigido pelos pais retarda união familiar

Vidas em suspenso. Essa poderia ser a definição do cotidiano de crianças e adolescentes disponíveis para a adoção. Abandonadas ou afastadas da família biológica por conta de abusos, maus-tratos ou falta de condições, pessoas de 0 a 18 anos passam a viver em abrigos subsidiados pelo Estado.

Atualmente, existem 65 crianças e adolescentes disponíveis para a adoção em Fortaleza. Metade deles são adolescentes. Enquanto isso, há 221 cadastros (entre casais e pessoas com outros tipos de estado civil) de pessoas habilitadas para a adoção. Mas por que, então, essas crianças continuam à espera de quem as adote? O problema está no perfil pedido pelos pais na hora de adotar. A preferência dos adotantes é por crianças do sexo feminino, brancas, com menos de um ano de idade e saudáveis.

‘‘Quanto mais restritivo for esse perfil, maior será o tempo de espera dos candidatos para conseguir adotar um filho’’, aponta o juiz Suenon Bastos Mota, coordenador do Juizado da Infância e Juventude em Fortaleza. O problema se torna ainda mais grave no caso de irmãos disponíveis para a adoção, pois a lei recomenda que eles sejam adotados juntos para que os laços de afeto que já existem não sejam desfeitos. ‘‘A maioria dos candidatos só deseja adotar uma única criança. Mas tivemos um caso recente em que um casal adotou dois irmãos com mais de cinco anos, sendo que um deles era portador de HIV’’, comenta o juiz.

Outra mudança positiva é a aceitação de pessoas solteiras ou que não sejam legalmente casadas como candidatos para a adoção. Antes, havia o entendimento de que a família nuclear e tradicional era o ideal para o bem-estar da criança e do adolescente. Mas, nas últimas décadas, as mudanças no perfil da família alargaram esse conceito. Dos 221 cadastros habilitados para a adoção em Fortaleza, 50 foram pedidos por pessoas solteiras.

‘‘Nosso trabalho é tentar dar as melhores condições para essas crianças e adolescentes, mas nada substitui uma família’’, avalia Francisca Helena Rocha, assistente social do Abrigo Tia Júlia. Uma vez no abrigo, acrescenta, elas criam expectativas em relação à adoção. Mas com o passar do tempo, ao perceberem que continuam ali, sentem-se culpadas por não serem adotadas.

‘‘Sentimento de fracasso, insegurança, baixa auto-estima são comuns entre essas crianças. Porque elas já foram abandonadas pela família e não serem adotadas acaba causando uma segunda rejeição. Se perguntam por que os pais não as quiseram e depois por que outra criança é adotada, e ela, não’’.

ORIENTAÇÕES

O que é?
Adoção é um ato jurídico que cria, entre duas pessoas, uma relação análoga entre pais e filhos biológicos

Direitos e deveres A adoção é um ato irrevogável. Uma vez homologada, o adotado ganha uma nova certidão de nascimento, em que vai constar o nome dos pais adotivos

Quem pode adotar? 1- Pessoas maiores de 18 anos, independentemente do estado civil (é obrigatório que o adotante seja, no mínimo, 16 anos mais velho do que o adotado); 2- Cônjuge ou concubino que queira adotar o filho do companheiro

Quem não pode adotar? Avô não pode adotar neto, irmão e tutor

Como proceder? O candidato deve se dirigir à Vara da Infância e Juventude de sua cidade, portando carteira de identidade, comprovante de residência, atestado de idoneidade moral

KAROLINE VIANA
Especial para Cidade

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