Desespero

Família retira idoso tetraplégico do HGF após 4 horas sem atendimento: "vai morrer em casa"

Em vídeo gravado por familaires, Raimundo Nonato de Brito, de 59 anos, pode ser visto esperando em uma maca no corredor do hospital

Após horas sem atendimento, família decidiu levar Nonato embora do HGF. Após deixá-lo em um carro, eles voltaram e protestaram na porta do hospital ( Reprodução Youtube )
16:25 · 19.03.2017 / atualizado às 16:38 por Áquila Leite
Filha de Nonato, Aline Brito diz que seu pai vivia uma vida normal, apesar de suas limitações. Entretanto, em novembro do ano passado, ele teve um problema intestinal e uma grave pneumonia, precisando ficar meses internado na UTI ( Reprodução Facebook )

Um homem tetraplégico de 59 anos, que aguardava atendimento no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), foi retirado do local por familiares após passar mais de quatro horas sem ser atendido. Raimundo Nonato de Brito chegou na emergência do hospital às 9h deste sábado (18), com dificuldade para respirar e fortes dores, e aguardou até às 13h30 em uma maca no corredor do hospital. Inconformada, sua esposa, Maria Brito, disse que levaria o marido embora para "morrer em casa".

"Ele não vai morrer neste corredor. Vai morrer em casa", disse Maria Brito, em vídeo gravado por familiares neste sábado, no HGF. Segundo a filha de Nonato, Aline Brito, o pai não teve a atenção necessária no hospital. "Chegamos por volta de 9h e, às 13h30, meu pai ainda estava em maca quase à altura do chão, suja, sem alimentação e sem água. Os exames só fizeram porque os outros familiares começaram a chegar desesperados", destacou.

Aline também destacou que, após retirarem Nonato do HGF, os familiares ainda tentaram levá-lo para a Santa Casa de Fortaleza, onde, conforme diz, ele também não recebeu o atendimento adequado. "Disseram que não têm tratamento para ele", afirmou. "Com o sofrimento torturante de vê-lo neste estado, sem atendimento, apenas com promessas, decidimos levá-lo para casa, para ter uma morte com mais dignidade. Não temos conhecimentos em enfermagem, nem condições de pagar um auxílio médico domiciliar", complementou.

Angústia prolongada

Segundo familiares, Nonato, que é ex-marinheiro da Marinha do Brasil, na Agência da Capitania dos Portos em Camocim, ficou tetraplégico após erro médico em um cirurgia de retirada de hérnia na região abdominal, em 2001. Após uma dosagem errada na anestesia, ele ficou em coma por aproximadamente três meses e, quando saiu, perdeu os movimentos do pescoço para baixo. 

Aline Brito diz que seu pai vivia uma vida normal, apesar de suas limitações. Entretanto, em novembro do ano passado, ele teve um problema intestinal e uma grave pneumonia, ingressando no HGF, onde ficou internado na UTI do dia 15 de novembro até 23 de dezembro, quando foi transferido para uma unidade semi-intensiva. Na última quinta-feira (16), ele recebeu alta.

"Enquanto esteve no hospital, meu pai foi desenganado várias vezes. Disseram que nunca mais ele iria respirar sem a ajuda de aparelhos. Ocorre que, em janeiro último, a máquina que fazia a respiração mecânica deixou de funcionar e viu-se que ele estava respirando com autonomia. Diante disso, fizeram uma traqueostomia (intervenção cirúrgica que consiste na abertura de um orifício na traqueia e na colocação de uma cânula para a passagem de ar) e deram a alta dele", explicou a filha.

Dois dias após sua alta, porém, Nonato voltou a apresentar fortes dores e falta de ar. "Nem morfina aliviava", conta a filha. "Buscamos o serviço de assistência domicilair do (Hospital Geral Dr.) Waldemar Alcântara, mas disseram que tínhamos que ligar para o Samu, pois eles não atendiam aos fins de semana e feriados. Ligamos para o Samu, que alegou que isso era competência da assistência domiciliar. Desesperados, colocamos meu pai num carro comum e o levamos ao HGF, onde aconteceu tudo isso", conclui Aline.

Solidariedade

Após divulgar o fato nas redes sociais, a família de Nonato conseguiu ajuda de algumas pessoas para que ele fosse tratado. Neste domingo (19), por exemplo, uma enfermeira voluntária ajudou a banhar e fazer os curativos do idoso, que também foi alimentado.

"Deixo aqui o meu muito obrigado à todos que se sensibilizaram, sejam doando um pouco de seu tempo, de sua disponibilidade. Continuamos precisando da ajuda de vocês. Seria ótimo se um(a) médico(a) pudesse visitá-lo", afirmou Aline Brito, em uma postagem no Facebook.

Secretaria da Saúde

Em nota, a Secretaria da Saúde (Sesa) do Estado reforçou que Nonato ficou internado durante meses no HFG, sendo transferido e posteriormente liberado para o programa de atenção domiciliar em comum acordo com a família. Sobre o caso deste sábado, a pasta informou que o paciente foi classificado com risco amarelo (médio risco) às 09h41 e atendido às 10h50, quando foram solicitados exames laboratoriais e o paciente passou a fazer uso de sonda.

Ainda de acordo com a Sesa, Raimundo Nonato foi prescrito e admitido na emergência às 11h20. Às 13h12, entretanto, foi dada baixa no sistema após solicitação dos familiares de saída do paciente. "O HGF admitiu neste sábado, pela emergência, 41 pacientes, sempre preservando os critérios de priorização de gravidade e risco", diz a nota.

Confira o comunicado da Sesa na íntegra:

O paciente Raimundo Nonato de Brito, 59 anos, foi admitido em 15 de novembro de 2016 na emergência do Hospital Geral de Fortaleza (HGF).  O paciente, que tem hipertensão e diabetes, é cardiopata. Teve também isquemia cerebral datada de 2001 que o levou à tetraplegia. Foi acompanhado por equipe multipespecializada formada por clínicos,  neurocirurgiões, cirurgiões, enfermeiros,  fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentre outros. Em 21 de dezembro de 2016, foi transferido para a Unidade de Cuidados Especiais, em cuidados paliativos, em comum acordo com a família de não realizar medidas invasivas. Em meados de fevereiro, foi iniciada a tentativa de preparo para desospitalização. Em março, equipe e familiares optaram, também em conjunto, por não realizar  procedimentos invasivos. O parecer dado então foi por  indicação exclusiva de cuidados paliativos.

Em 16 de março, Raimundo Nonato foi desospitalizado para programa de atenção domiciliar. O paciente retornou ao HGF em 18 de março às 09h21 e classificado com risco amarelo (médio risco) às 09h41. Atendido às 10h50, foram solicitados exames laboratoriais e o paciente passou a fazer uso de sonda. 

Raimundo Nonato foi prescrito e admitido na emergência às 11h20. Às 13h12, entretanto, foi dada baixa no sistema após solicitação dos familiares de saída do paciente. O HGF admitiu neste sábado, pela emergência, 41 pacientes, sempre preservando os critérios de priorização de gravidade e risco.

O Hospital Geral de Fortaleza garante o atendimento a pacientes em 63 especialidades e subespecialidades. A unidade de perfil terciário é referência nos cuidados em patologias de alta complexidade, como Acidente Vascular Cerebral (AVC) e trauma. A unidade recebe casos em que o tempo de atendimento é fundamental para salvar vidas e minimizar eventuais sequelas.

Pacientes com outro perfil podem receber alta e ser encaminhados para atendimento domiciliar, onde são acompanhados por meio de cuidados paliativos com apoio de equipe multidisciplinar. O serviço de atendimento domiciliar funciona de segunda a sexta-feira com visitas agendadas pela equipe. Trata-se de uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam doenças que ameaçam a continuidade da vida, por meio de prevenção e alívio do sofrimento, de acordo com definição da Organização Mundial de Saúde (OMS). Nos cuidados paliativos, é necessário avaliar e controlar não somente a dor, mas todos os sintomas de natureza física, social, emocional e espiritual.

Na emergência, o acolhimento do paciente é feito de acordo com classificação de risco, que organiza o fluxo de atendimento  conforme os casos de urgência e emergência, os quais são priorizados.

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