Atlas da Violência 2018

Ceará é o 3º do Nordeste e 5º do Brasil em homicídios de jovens, aponta Ipea

Mais de 2 mil jovens entre 15 e 29 anos foram mortos em 2016, de acordo com dados divulgados nesta terça-feira (5) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

11:50 · 05.06.2018 / atualizado às 11:57
Foram quase 20 mil jovens assassinados no Ceará antes de completarem 30 anos de idade, entre 2006 e 2016. Deles, 2.102 perderam a vida somente neste último ano do levantamento, número que torna o Estado o 3º do Nordeste e o 5º no Brasil que mais mata homens e mulheres de 15 a 29 anos. Os dados constam no Atlas da Violência 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgado nesta terça-feira (5).
 
De acordo com ranking do estudo, em se tratando de números absolutos de homicídios de pessoas nessa faixa etária, o Ceará fica atrás apenas dos estados da Bahia, que contabilizou 4.358 mortes em 2016; Rio de Janeiro, com 3.386; Minas Gerais, com 2.513; Pernambuco, com 2.512; e Pará, com 2.266 homicídios. A cada 100 mil habitantes, 87,7 jovens morreram no Estado, em 2016, e esta taxa é a 10ª maior do País, segundo o Atlas.
 
Apesar de a violência, em geral, não escolher gênero, o número de homens mortos no período analisado pelo estudo do Ipea aponta que a taxa de homicídios de homens jovens a cada 100 mil habitantes, em 2016, foi de 166,1, número superior ao do País, que totaliza 122,6 assassinatos.
 
Quando o assunto é a taxa geral de homicídios, o índice é menor – mas crescente, conforme mostra a linha do tempo do levantamento. Em 2006, a taxa no Estado era de 21,8 mortes a cada 100 mil habitantes, e o número de 2016 atingiu 40,6: uma variação de 86,3% de homicídios em dez anos, o 7º maior crescimento entre todos os estados brasileiros.
 
Racismo
 
Em números absolutos, 34.134 mortes violentas foram registradas em território cearense em dez anos, 3.642 delas somente em 2016 – alta de 103,2% em relação a 2006, ano em que foram contabilizadas 1.792 ocorrências. Outro dado relevante aponta para as armas de fogo como líderes absolutas entre as ferramentas utilizadas para ceifar vidas no Ceará: do total de mortes em 2016, mais de 2.900 foram por tiros.
 
Outros indicadores contabilizados pelo estudo são as taxas de homicídios de negros e não-negros, que reafirmam e comprovam um racismo que resiste em carne viva no País: em 2016, enquanto 8,3 pessoas não-negras morreram a cada 100 mil habitantes, o número de negros mortos atingiu o índice de 38,9.
 
“A conclusão é que a desigualdade racial no Brasil se expressa de modo cristalino no que se refere à violência letal e às políticas de segurança. É como se, em relação à violência letal, negros e não negros vivessem em países completamente distintos”, declara o texto.
 
Estupros
 
Se a violência expressa vitima os homens, “a mulher que se torna uma vítima fatal muitas vezes já foi vítima de uma série de outras violências de gênero, como violência psicológica, patrimonial, física ou sexual”, lista o instituto. Apesar de “a base de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade não fornecer informação sobre feminicídio”, os números emergem de forma preocupante.
 
Enquanto o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) contabilizou 121 estupros no Ceará em 2016, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou, pelo menos, 1.538 casos de violação no Estado. “Para o enfrentamento da violência contra a mulher, além de dar visibilidade aos crimes, é fundamental a manutenção, a ampliação e o aprimoramento das redes de apoio à mulher, previstos na Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), que viabilizam o atendimento e as alternativas de vidas para as mulheres”, alerta o Atlas.
 
De uma forma geral, os especialistas que elaboraram o levantamento apontam para um aspecto fundamental para a diminuição da violência generalizada no País: “a necessidade de se investir numa arquitetura institucional que capacite o Estado brasileiro e lhe garanta as ferramentas de governança para que se possa efetivamente implementar políticas que nos levem a um país com mais paz no futuro”.

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