Parque Urbano

O que a beleza do Cocó esconde?

02:10 · 30.09.2012
Por ser um rio urbano, que corta toda a cidade de Fortaleza, o Cocó sofre com a degradação ambiental há anos

Em um breve passeio pelo Rio Cocó, saindo da Avenida Sebastião de Abreu rumo ao Caça e Pesca, a impressão que temos é que estamos fora de Fortaleza. O manancial exibe uma beleza exuberante conhecida por poucos. Entretanto, por trás de toda essa beleza, o Cocó, considerado um dos maiores parques urbanos da América Latina, esconde muita sujeira e poluição. Conforme estimativa da gerente do parque, Henriette Pereira, existem mais de 200 esgotos clandestinos que caem dentro do Rio Cocó.

Por trás da natureza exuberante, existe muita poluição Foto: Kid Júnior

São décadas de degradação que, somadas à especulação imobiliária e ao crescimento desordenado da cidade, tornam ainda maior o desafio de sobreviver diante do descaso da população e do poder público. Apesar da equipe de reportagem ter percorrido o trecho "bonito" do rio - os principais pontos de poluição ficam antes da Avenida Sebastião de Abreu -, são muitos os sinais de desrespeito com o meio ambiente. A começar por uma espuma branca no decorrer de boa parte do rio, indicando poluição.

Em vários pontos, é possível observar áreas descampadas que servem de acesso para a população. É que, nos fins de semanas e feriados, o Rio Cocó funciona como a "praia" de moradores da comunidade do Dendê e do Caça e Pesca. À medida que nos aproximamos da foz, a cor da água muda, passando para tons esverdeados, e a vegetação de manguezal começa a se misturar com carnaúbas. De repente, somos surpreendidos por um cardume de peixes que saltam ao lado da embarcação, proporcionando um espetáculo à parte.

Chama atenção, no entanto, o grande número de sacolas plásticas presas ao mangue e às raízes das árvores ao longo de todo o percurso. Flagramos, inclusive, quatro homens com uma fogueira improvisada em plena margem do manancial, ignorando o risco de incêndio. Existe também muitas casas, grande parte de origem humilde, construídas praticamente dentro do rio.

Poluição

Toda essa beleza esconde um rio altamente poluído. Lincoln Davi Mendes, gestor ambiental da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), informa que, com exceção da nascente, a qualidade do Rio Cocó está comprometida, com diversos parâmetros - estabelecidos pela Resolução nº 357/2005, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) -, fora do padrão.

A Semace monitora a qualidade do recurso hídrico a cada três meses, em oito pontos: na nascente, no município de Pacatuba; antes do Jangurussu, na Avenida Perimetral; depois do Jangurussu; na BR-116, próximo ao Makro; no Lagamar, na Avenida Raul Barbosa; na ponte da Avenida Engenheiro Santana Júnior; no Parque do Cocó, na altura da Sebastião de Abreu; e na sua foz, no bairro Caça e Pesca.

A situação mais crítica, aponta Mendes, é na jusante do Jangurussu, por causa do chorume, e no Lagamar, onde existe, próximo à Base Aérea, uma Estação de Tratamento de Esgoto da Cagece. Quando o sistema está sobrecarregado, os extravasores são abertos e é despejado esgoto in natura no canal, que cai diretamente dentro do Rio Cocó.

Mendes comenta que, geralmente, os parâmetros que dão em desacordo são coliformes, substâncias solúveis em hexano (óleos e graxas) e fósforo. "Em alguns pontos, o índice de poluição é tão crítico que chega a influenciar na balneabilidade de áreas do litoral, com foco no Caça e Pesca e no fim da Praia do Futuro", cita.

Paulo Henrique Lustosa, presidente do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente (Conpam), órgão responsável por gerenciar o Parque do Cocó, destaca que o monitoramento feito pela Semace mostra que a situação do Rio Cocó é preocupante. "É um rio que corta toda a cidade, então, ele é calha natural para todas as galerias de água pluvial da bacia do Rio Cocó. Cada calha dessas é um foco de poluição. Existem focos de poluição ao longo de todo o rio", afirma. Entretanto, Lustosa explica que não existe uma solução única para os problemas do Cocó.

Ligações clandestinas

A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) informa que tem conhecimento de que existem ligações clandestinas de esgoto na rede de drenagem de água pluvial no decorrer do rio. O órgão acrescenta que foi assinado, em maio deste ano, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público entre Cagece, Secretaria do Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam), Semace e outras entidades para investigar as ligações clandestinas de esgoto.

Para minimizar o problema, a Companhia diz que precisa, urgentemente, executar o trecho final do Macrossistema de Esgoto da Avenida Dom Manuel. O objetivo é substituir uma tubulação antiga e desgastada por outra nova e resistente, com vida útil de aproximadamente 30 anos. "Além de ser essencial no andamento das obras do Macrossistema, o trecho impedirá futuros desabamentos na Avenida Dom Manuel e prejuízos à população", frisa, em nota, a Cagece.

Sobre um dos pontos mais críticos de poluição do Rio Cocó - o Canal do Lagamar - a Companhia informa que será construída uma nova Estação Elevatória de Esgoto no Cocó, na altura da Avenida Raul Barbosa, que servirá de reforço para a Estação Elevatória situada no Lagamar.

Em nota emitida pela assessoria de comunicação, a Semam esclarece que está coletando informações sobre o entorno do Rio Cocó referentes à rede de drenagem de águas pluviais e da rede coletora de esgoto existente na área. Garante ainda que está investigando as possíveis fontes de poluição do rio.

FIQUE POR DENTRO

Rio Cocó compreende 50 Km

A área do Parque Ecológico do Cocó compreende o trecho da BR-116 à foz do Rio Cocó, em Fortaleza, perfazendo um total de 1.155,2 hectares. Ele nasce na vertente oriental da Serra da Aratanha e, nos seus 50 Km de percurso, passa por três municípios, Pacatuba, Maracanaú e Fortaleza, para desaguar no Oceano Atlântico, nos limites das praias do Caça e Pesca e Sabiaguaba. A área do parque está inserida apenas em Fortaleza e inclui as áreas de maior fragilidade do ponto de vista ambiental. No parque existem várias unidades geoambientais, tais como planície litorânea, planície flúvio-marinha e superfície dos tabuleiros litorâneo. A planície litorânea está caracterizada por duas feições geomorfológicas distintas, mas intrinsecamente relacionadas às praias e às dunas fixas e móveis.

Unidade de Conservação não foi criada

Uma espuma branca no decorrer de boa parte do Rio Cocó é o alerta da poluição do manancial que há décadas vem sofrendo processo de degradação Foto: Kid Júnior

Apesar de ser uma das poucas áreas verdes de Fortaleza, do ponto de vista legal, o Parque do Cocó sequer existe. Jeovah Meireles, geógrafo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca que é necessário delimitar o parque de acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc) em uma área que represente o bosque de manguezal, os canais de maré e as dunas fixas desde a Praia do Futuro.

Além disso, defende a elaboração de um Plano de Manejo com ampla participação dos usuários para regular a diversidade de atividades vinculadas ao ecoturismo, educação ambiental e trilhas. "A biodiversidade existente deverá também nortear medidas adequadas para ampliar a qualidade do ecossistema e dos habitats para aves, répteis, mamíferos, peixes e uma microfauna e flora pressionadas pela especulação imobiliária e poluição de suas águas", pontua Meireles.

São muitos os benefícios que o Parque do Cocó oferece para a Capital. Dentre eles, cita o especialista, ameniza o clima de grande parte da cidade; regula as cheias, evita erosão costeira e resguarda níveis importantes de biodiversidade; componente ambiental que regula o aporte de água para o lençol freático; é fundamental para a captura de dióxido de carbono e melhoria dos índices de poluição no seu entorno. No fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, deram-se as primeiras lutas em defesa do meio ambiente em Fortaleza.

João Saraiva, economista e especialista em gestão ambiental e integrante do Movimento SOS Cocó, recorda que, de forma organizada, em associações e entidades, artistas, intelectuais, estudantes e profissionais das mais diversas áreas do conhecimento colocaram em pauta a defesa do Rio Cocó para a sociedade e autoridades municipais e estaduais. Todo esse movimento articulado com os mais variados setores da sociedade, inclusive, com os ribeirinhos, que dependiam do Rio para sobreviver, ensejou a criação, em 1989, do então Parque Ecológico do Cocó.

Paulo Henrique Lustosa, presidente do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente (Conpam), reconhece que o parque carece de um decreto de criação. Apesar disso, afirma que o Governo do Estado e a sociedade cearense o reconhecem como tal. "Buscamos aplicar no parque todas as regras que se aplicam a uma Unidade de Conservação oficialmente criada", disse.

Rio Ceará

Situação semelhante vive o Rio Ceará. O recurso hídrico sofre com excesso de esgotos, degradação das margens do rio com desmatamento e mineração clandestina, conforme denuncia o professor Jeovah Meireles.

No caso deste manancial, o especialista ressalta que o mais grave é a não delimitação da Terra Indígena e Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Ceará, que tem a conservação do manguezal vinculada diretamente à terra indígena Tapeba. "Os rios Cocó, Ceará e Pacoti representam sistemas raros para seu respectivos setores em uma metrópole como Fortaleza. Manter a representatividade dos manguezais é fundamental para, ao longo do tempo, proporcionar a diminuição dos riscos ambientais projetados pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC)", esclarece.

LUANA LIMA
REPÓRTER

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Áreas verdes amenizam o clima da cidade

As áreas verdes desempenham um papel fundamental na amenização do clima, redução das ilhas de calor, filtragem de poluentes, infiltração de água, recarga de aquíferos, controle de cheias, manutenção da biodiversidade, conforto psicológico, embelezamento e valorização dos imóveis, espaços de lazer, exercícios e contemplação da natureza. O que vai influir diretamente e indiretamente na qualidade de vida da população, pois em contato com a natureza, é possível se obter harmonia interior e um melhor nível de relacionamentos e encontros sob as sombras, o que permite maior interatividade entre os moradores e visitantes e possibilita usufruir de espaços públicos fundamentais na vivência da cidadania.

A degradação dos rios de Fortaleza se inicia com o desmatamento da vegetação ciliar, depois vem os aterros, lixo e o lançamento de esgotos. Daí também há a proliferação de árvores exóticas invasoras como o Mata-fome (Pithecellobium dulce), a Algaroba (Prosopis jufliflora), a Azeitona (Syzygium cumini), a Castanhola (Terminalia catappa) e mais recentemente o Nim (Azadirachta indica), que se alastram, não permitindo a recuperação natural pelas espécies nativas, alteram o ecossistema e suas funções ecológicas, acelerando a perda da biodiversidade original.

O poder público tem destratado as nossas áreas verdes. Há mais de 30 anos, não existe uma política clara de conservação, preservação e reflorestamento. Fortaleza é uma das piores capitais no que tange ao trato com a natureza. O Parque do Cocó não existe legalmente, por mais absurdo que possa ser.

Fortaleza não tem sequer um levantamento atualizado das áreas verdes. Estudo inédito desenvolvido por mim e pelo biólogo Marcelo Moro identificou mais de 200 espécies de árvores e arbustos grandes na capital, com mais de 70% de plantas exóticas. Em vários bairros as exóticas alcançam 80% a 90 % das espécies.

Muito precisa ser feito, estamos praticamente na estaca zero, o que é uma enorme contradição, dada a importância das questões ambientais em destaque na atualidade. Sobram discursos e faltam ações concretas e contínuas de recuperação de áreas degradadas, paisagismo com espécies nativas, controle e erradicação de invasoras e educação ambiental ampla nas escolas e nas ruas.

Antônio Sérgio Farias Castro
Engenheiro agrônomo

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