Reportagem EJA

Número de Jovens e Adultos no Ensino Fundamental fora de faixa diminui 33%

Seu Claiton vai, no dia e horário que pode, ao CEJA Gilmar Mais de Souza, no Centro de Fortaleza, com o objetivo de terminar o Ensino Fundamental, partir para o Médio e, um dia, estudar Direito
01:00 · 18.09.2017 / atualizado às 01:06

No Ceará, 2.917 pessoas se matricularam na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) para o Ensino Fundamental em 2017. Em 2016, eram 4.377 alunos, segundo o Censo Escolar da Educação Básica do Ministério da Educação. No Brasil, esse número, somando o nível municipal chega a 3,4 milhões. É Direito Constitucional. É Lei. É ensino público, gratuito e universal. O programa oferece, além de educação, um lembrete: é possível aprender, mesmo fora do tempo regulamentar.

A EJA é prevista para pessoas que, a partir dos 15 anos, não tenham concluído ainda o Ensino Fundamental, e, a partir dos 18, o Ensino Médio. A modalidade foi instituída pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), Nº 9.394, em 20 de dezembro de 1996, mas já na década de 1970, dava cor à luta por uma educação com dignidade.

O Modelo

Há pouco mais de 10 anos, eram apenas quatro escolas com esse formato em todo o Estado. "As transformações mais recentes de escolas tradicionais para Cejas (Centros onde se desenvolvem as atividades) são dessa época. O diferencial está na mesclagem entre educação a distância e semipresencial", relata a assessora técnica da EJA na Secretaria da Educação do Estado (Seduc), Liliana Farias.

O Ceará tem 32 Cejas (nove na Capital e 23 no Interior), garantidos pela Seduc. A carga horária do ano letivo presencial é de 800 horas/aula. No modelo semipresencial, por outro lado, o educando pode se matricular em qualquer período. "Não há uma turma fixa e, sim, um atendimento individual onde ele aprende de acordo com seu próprio ritmo e estudo anterior que já tenha", complementa Liliana.

Em Fortaleza, são 84 polos EJA asseguradas pela Secretaria Municipal de Educação (SME). A Regional VI é a que tem o maior índice de alunos da cidade, com 3.674 integrantes. O Bairro Mondubim tem o maior número de escolas com a modalidade: são quatro. O Diário do Nordeste entrou em contato com a SME e não obteve resposta até o fechamento da edição.

Cognição e Convivência

Dono de uma história cheia de imprevistos, Claiton Roberto abandonou os estudos aos 14 anos e hoje, aos 51, se desloca cerca de 7Km de onde reside, no Papicu, até o Ceja Gilmar Maia de Souza, no Centro. Assim como para tantas outras coisas da vida, as orientações que Claiton recebe de professores não têm hora marcada. "Às vezes venho de manhã, outras de tarde. Hoje estou aqui à noite porque estava de folga e dormi o dia todinho", se explica.

Vigia há 34 anos, Claiton procurou retornar aos estudos por vezes, como quem obedece Raul Seixas, tentando outra vez. "Quis voltar aos 21 anos, mas eu era alcoólatra, e desisti de novo. Depois, a insistência da minha filha me matriculou numa escola, que pediu um documento do último colégio. Parei no Ceja e não me deram nada, disseram que eu ia era terminar meus estudos lá mesmo", rememora. E, então, ao invés de álcool, o corpo passou a pedir sabedoria.

Outras 37 mil pessoas vivem uma realidade parecida no Ceará. Três mil somente no Ceja Gilmar Maia, o maior do Estado. A diretora Amélia Maria Moreira Rolim destaca que a relação dos educadores com os alunos é essencial no espaço. "Estamos sempre juntos nos corredores, nas horas da merenda, na biblioteca. O aluno do Ceja, quando se matricula, não busca só a cognição, mas a convivência".

No período de um mês, o aluno precisa, no mínimo, se fazer presente quatro vezes, ter três momentos com o professor e ao menos uma avaliação. Se identificada falta de assiduidade, Amélia frisa que "vai chamando, conversando, perguntando o que está acontecendo", principalmente, diz ela, se for um aluno de muito tempo.

Palavra e História

Frequência baixa não é problema para Claiton, que "está amando tudo o que vê" desde maio, no Ceja. Ele atualmente se prepara para a penúltima prova do Fundamental I, na disciplina de História. Quando der esse passo, volta ao começo da modalidade, mas com outra disciplina. "Comecei com História por causa da bíblia. A Palavra é História, porque já passou, né? Foi assim: Deus quis que eu voltasse a estudar", constrói o sonhador, que almeja estudar Direito: "por causa das leis, por causa das pessoas que se aproveitam dela".

Segundo o professor de Matemática Hélio Rodrigues, é necessário aproveitar a bagagem de cada aluno. "Existe uma troca de experiência entre nós e eles. Cada um tem um conhecimento: um é soldador, o outro é pintor. Outros trabalham embarcados e, quando em terra, vêm pra cá. Não se perde o ritmo do ano letivo porque se conclui de onde parou. Eu acho que todo ensino deveria ser assim", ressalva.

Deveria mesmo, se dependesse do Fórum de EJA do Ceará, criado em 2002. São reuniões mensais que visam a melhoria da modalidade. O Fórum reivindica ao Governo o fornecimento de políticas mais eficazes por meio da elaboração de denúncias. Participam instituições estaduais, federais e movimentos que representam a sociedade.

Interferir na vida de outras pessoas. Eis um outro desejo de Claiton. "Eu não estou aqui atrás de dinheiro não, que dinheiro eu já ganho. Eu quero é o ouro, a prata e o bronze: que é o conhecimento. Eu quero servir de exemplo pra um bocado que está desistindo por aí, achando que não consegue", desabafa.

Opinião do especialista

A EJA tem sido secundarizada

A EJA é uma educação de classe, porque os sujeitos são trabalhadores, que um dia tiveram seus processos de aprendizagem interrompidos. As populações do campo são as mais suscetíveis de uma política que está distanciada deles (1,8 milhão de alunos são da área rural). O problema é que a EJA tem sido secundarizada.

Aqui no Ceará, estão abrindo salas de EJA com adolescentes de 15 anos. Isso é impensável e perigoso. Esses jovens são jogados para a noite, e aí não querem. Porque são tidos como a turma atrasada, problemática.

A EJA deveria contar com a experiência dos alunos. Nem a criança chega como uma tábua rasa na escola, imagine o mais velho. Só que a sala de aula EJA hoje dificilmente é equipada para adultos. Vai ter ursinhos, "fa fe fi fo fu", "papai deu a maçã para Maria", coisas que não identificam aquela sala para aquela determinada faixa etária.

As instituições secundarizam essa modalidade quando não qualificam o professor, não abrem concursos e quando tratam a EJA sem a consulta dos fóruns de discussão, das associações e dos próprios sujeitos. São decisões formuladas de cima para baixo. É por isso que, tanto o Estado quanto a Universidade, estão em débito com a sociedade em relação a isso. (Colaborou João Duarte)

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