ação solidária

Mutirão atende crianças com a síndrome da zika

847 crianças estão em atendimento nos NEPs das policlínicas, 115 delas com Síndrome da Zika Congênita

O atendimento é feito pela ONG Caviver em parceria com universidades particulares
01:00 · 24.08.2018 por Theyse Viana - Repórter
Os médicos reforçam a importância de a criança ser acompanhada por vários especialistas para que se estimule a reabilitação O atendimento é feito pela ONG Caviver em parceria com universidades ( Fotos: Natinho Rodrigues )

Há um ano e sete meses, o dia amanhece antes do sol para a dona de casa Joelma do Nascimento, 31. Pelo menos uma vez por mês, ela embarca no carro da Prefeitura de Redenção às 4h30, e percorre 55km à Capital para garantir o acompanhamento médico de Levi, cuja energia ignora quaisquer sequelas da Síndrome da Zika Congênita - dentre elas, a microcefalia. Na manhã de ontem, o pequeno integrava a lista de 176 cearenses a serem atendidos no V Mutirão Multidisciplinar para tratamento e reabilitação de crianças com a síndrome, realizado, até sábado (25), pela ONG Caviver em parceria com universidades e prefeituras.

Mais de um ano e meio após o nascimento de Levi, Joelma dribla os obstáculos, inclusive financeiros, para não descontinuar o tratamento do filho, inviabilizado no Interior. "Lá tem fisioterapeuta, mas não assistência completa. O transporte é minha maior dificuldade, mas nem que eu venha de ônibus com dinheiro emprestado, não falto. Meu medo era que ele não desenvolvesse, mas a cabeça tá crescendo, ele come bem, só toma vitaminas, não toma remédio? Deus olhou para a gente", anima-se, esperando, ainda, o dia em que Levi dará o primeiro passo.

Atrasos no desenvolvimento psicomotor, dificuldade de deglutição (disfagia), alterações oftalmológicas e ortopédicas, de acordo com o neuropediatra e Coordenador do Ambulatório de Zika Congênita do Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS), doutor André Pessoa, são algumas das consequências mais comuns a crianças afetadas pela Síndrome da Zika Congênita, causada pela contração do vírus pela mãe durante a gestação. "Cerca de 70% também têm risco aumentado de epilepsias", completa o médico.

Por ter vários sistemas do corpo afetados pela síndrome, Pessoa reforça a importância de "a criança ser acompanhada por um time de especialistas, para que se estimule a reabilitação numa fase em que o ser humano responde muito melhor". No Ceará, conforme a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), as terapias acontecem em 19 policlínicas regionais, no Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami) da Universidade de Fortaleza (Unifor) e no Núcleo de Estimulação Precoce (Nutep) da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Atualmente, aponta a Sesa, 847 crianças estão em atendimento nos Núcleos de Estimulação Precoce (NEPs) das policlínicas, 115 delas com Síndrome da Zika Congênita. No HIAS, são 150 pacientes neste perfil - e muitos ainda vêm de todas as regiões do Estado, segundo o neuropediatra do HIAS e voluntário durante o mutirão da ONG Caviver.

Melhorias

A ação envolve médicos e pesquisadores das áreas de neurologia, ortopedia, pediatria, oftalmologia, odontologia e psicologia, duas vezes por ano, desde 2015, para oferecer atendimento multidisciplinar às crianças, a maioria do Interior. "Tivemos melhoras muito grandes na descentralização do atendimento, mas o desafio é ter profissionais especializados em todas as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Elas conseguem acolher as demandas de 90% das necessidades, mas o afunilamento acontece nas crianças de alta complexidade", observa a oftalmologista e presidente da Caviver, Islane Verçosa.

Recente

A médica ressalta ainda que é imprescindível manter o tratamento, já que o surto da Síndrome da Zika Congênita se deu em 2015, sendo um objeto recente e em constante estudo. "Já sabemos como os vírus atuam, quais células eles danificam, que afetam o córtex, a retina? Não sabemos é o que isso vai acarretar a longo prazo. Por isso as crianças estão em acompanhamento", esclarece, afirmando que o mutirão semestral acontecerá pelo período de dez anos, com captação de recursos privados - Sesa e prefeituras facilitam apenas o deslocamento das famílias.

Esse, aliás, foi um direito obtido pela dona de casa Bianca da Silva, 21, por meio do Ministério Público, para garantir as três viagens necessárias de Quixeramobim a Fortaleza, numa distância de 203 quilômetros, para tratamento de Arthur, de 2 anos e 7 meses, no HIAS e no Hospital Sarah Kubitschek.

Dificuldade

A maior dificuldade do pequeno, segundo a mãe, é comer, já que, com a microcefalia causada pelo zika vírus - descoberta somente após o nascimento, já que a mãe não manifestou os sintomas da virose -, veio também uma disfagia grave.

"É uma rotina pesada de fisioterapia, fonoaudióloga e Terapia Ocupacional. Saio de casa 6horas para a Policlínica de Quixadá, no Sertão Central, sem hora para voltar", relata, emendando na fala e no olhar o maior sonho que tem para o "príncipe Arthur". "É ele andar, falar. Ele conhece as pessoas! Sorri e tudo. Quero que ele tenha saúde", pede Bianca.

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