Paralisação

Motoristas não fazem acordo e iniciam greve

00:12 · 20.06.2012
TRT fixa hoje percentual da frota circulante. Sindiônibus pediu 80% nos horários de pico e 60% no entre pico

Fortalezenses enfrentam, desde a zero hora desta quarta-feira, greve geral de motoristas e cobradores de ônibus. A decisão pela paralisação de 100% da frota foi definida, após a realização de duas assembleias, ontem, pela manhã e à tarde, na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários no Estado do Ceará (Sintro).


Houve divergência entre membros do Sintro durante as duas assembleias realizadas ontem e, diferente do que haviam previsto os dirigentes do sindicato laboral, a maioria dos motoristas e cobradores decidiu pela greve FOTO: VIVIANE PINHEIRO

A decisão da categoria pela greve causou surpresa ao Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus). "Na segunda-feira, aceitamos a proposta intermediada pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), que acusava ganho real de 3,45% nos salários dos profissionais rodoviários, o que suspendeu o início da greve. Mas, agora, com a deflagração da paralisação, a proposta apresentada e todas as demais cláusulas já acordadas ficam sem efeito", afirmou o presidente do Sindiônibus, Dimas Barreira.

A assembleia ocorrida à tarde foi marcada por um clima de tensão e revolta que envolveu a categoria dos mais de 600 profissionais (motoristas, trocadores e fiscais) presentes. Por unanimidade, eles, aos gritos de "greve, greve", resolveram parar as atividades. Pela manhã, não houve a unanimidade dos 100 participantes, que também optaram pela greve, e ocorreu divergência.

"A decisão das assembleias é soberana. A categoria considerou que houve avanço na última proposta, mas não o suficiente para não seguir com nossa luta por melhores condições de trabalho", disse o presidente do Sintro, Domingo Neto. Já o coordenador geral da Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas), José Batista Neto, que também dirige o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil da Região Metropolitana de Fortaleza (STICCRMF), discorda da posição dos rodoviários. Para ele, a greve representa riscos à categoria, tendo em vista que a decisão, agora, depende do Tribunal Regional do Trabalho do Ceará (TRT/CE), caso não haja um consenso entre os funcionários e seus patrões.

Na opinião do supervisor regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Ceará, Reginaldo Aguiar, a greve não significa que a categoria alcançará melhores resultados. "Não podemos achar que vamos resolver nossas vidas em uma única campanha salarial", disse.

O advogado do Sintro, Fernando Castelo Branco, ressalta que 8,5% não era a melhor proposta, mas representava o maior aumento dos últimos 12 anos.

Sindiônibus

"Recebemos a notícia da greve e ficamos decepcionados", declarou, Dimas Barreira, presidente do Sindônibus. Ele considerou que o Sintro caiu na "armadilha" que o próprio Sintro "armou", ou seja, a entidade teria criado expectativa de obtenção de um reajuste irreal, bem além da inflação, e depois não conseguiu impedir a greve.

Dimas Barreira suspendeu a discussão da forma de reajustes negociado com a prefeita Luizianne Lins. Então, nesta quarta-feira, o dirigente do Sindônibus ingressa no TRT com pedido de dissídio coletivo.

Conforme o Sindiônibus, a frota disponível na cidade é de 1.750 ônibus, e incluindo-se os da região metropolitana, esse número passa para 2.100 coletivos.

A estimativa da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor) é de que a greve afete mais de um milhão de usuários em toda a cidade. O número apresentado leva em consideração somente o sistema integrado de transporte. Por isso, esse quantitativo de pessoas que poderão ficar sem acesso ao transporte coletivo na Capital pode ser bem maior.

População já procura alternativas

A greve de motoristas e cobradores deve prejudicar milhares de pessoas que dependem diariamente do transporte público coletivo para ir e vir, principalmente aquelas que utilizam as rotas com maior demanda como a 028 - Antônio Bezerra/Papicu e que tem uma média diária de 14.907 usuários, 045 - Conj. Ceará/Papicu (15.437 usuários) e 042 - Antônio Bezerra/Papicu/Fco Sá (15.734 usuários).


Com a paralisação dos motoristas e cobradores de ônibus, moradores da Capital buscam meios de transporte mais baratos para se locomover FOTO: MARÍLIA CAMELO

De acordo com o presidente da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), Ademar Gondim, logo que a Justiça decidir o percentual mínimo de ônibus que ficará em circulação, o órgão irá monitorar e fazer a correta distribuição dos coletivos entre as linhas para que haja o menor prejuízo possível aos usuários.

Dentre as opções, estão as topiques, os mototáxis, táxis ou mesmo caronas de vizinhos. Para os que moram perto do trabalho, é a vez de optar pelo percurso a pé ou mesmo de bicicleta, caso tenha uma. Segundo a Etufor, a Capital dispõe de 320 vans, 4.392 táxis e 2.209 mototáxis.

Porém, para alguns assalariados, transportes como táxi e mototáxis são inviáveis para serem utilizados diariamente, por conta dos altos preços. Para se ter uma ideia, uma pessoa que mora nas intermediações do Terminal da Lagoa e trabalha no Dionísio Torres, gastaria uma média de R$ 20 a R$ 30 para ir e vir de mototáxi.

Já o trajeto de 30 quilômetros feito de táxi custaria R$ 54,60, tendo em vista que o quilômetro rodado custa R$ 1,82, na bandeira um. Na bandeira dois, este valor sobre para R$ 2,43.

A diarista Ana Lúcia da Silva, 33 anos, já se preocupa em como vai ser durante o período de greve. Isso, porque gasta em média R$ 6,00 por dias com transporte. "Moro no Bonsucesso, e faço faxina em três bairros. São eles a Maraponga, Veneza e Fátima. Agora, vou gastar o dobro, e isso vai pesar no meu bolso", lamenta Ana Lúcia.

Apesar da intenção de motoristas e cobradores ser parar 100% dos ônibus, a Justiça determina um percentual mínimo de 30%. Ou seja, dos 1.796 ônibus que integram às 251 linhas, deve ocorrer uma redução de, no máximo, 70%.

Porém, ainda não foi definida pela Justiça a quantidade certa de ônibus para circular nos horários de pico e nos de menor circulação de pessoas. Na greve de 2011, 50% da frota operaram nos horários normais e 75% nos períodos mais críticos.

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