Reportagem Fortalezas desse canto

Moradores guardiões dos recursos naturais

01:00 · 13.04.2018 / atualizado às 14:24 por Thatiany Nascimento - Repórter

Em Fortaleza algumas fortalezas batalham para manter outras vivas. Nesta dinâmica, a Cidade chega aos 292 anos e alguns dilemas permanecem. O patrimônio natural segue ainda ameaçado. Na relação entre seres humanos e natureza, os primeiros nem sempre se dispõem a cuidar da segunda.

Não é difícil encontrar casos de exploração, degradação e destruição. Na contramão desse fluxo, há fortalezas guardiãs. Múltiplas. Cuidadores do mar, rio, parque e mangue. Neste especial são Rusty, Francisco, Cynthia e Vicente. Moradores-protetores espalhados pela cidade defendendo vidas. Humanas ou não.

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Inseridos em contextos distintos, esses habitantes agem de modo semelhante. Fazem da causa ambiental, um norte para as vivências, seja na Sabiaguaba, no Cocó, na Praia de Iracema ou no Siqueira.

Os quatro personagens são uma amostra das ricas experiências que a cidade forja. As áreas verdes são muitas. Rios, lagoas, riachos, também. Nas narrativas individuais, o encontro com os anseios coletivos. Fortaleza, merecedora de cuidados, pode ao menos contar com guardiões.

Batalhar por áreas verdes na periferia

Vicente

Quando o Parque Urbano Lagoa da Viúva, localizado no Siqueira, foi reconhecido oficialmente pela Prefeitura de Fortaleza, em novembro de 2015, há muitos anos, Vicente de Paulo e outros tantos militantes ambientais do Grande Bom Jardim, já batalhavam pelo feito. Manter protegido um espaço verde de quase 39,85 hectares em uma área periférica é missão pesada. É preciso conscientização. Apropriação. Envolvimento. Sabem os moradores que protagonizam a batalha.

Há 47 anos, Vicente de Paulo, técnico eletrônico aposentado e militante do movimento ambientalista da região, mora no Bom Jardim. Viu o Rio Maranguapinho começar a ser poluído ainda na década de 1980. Acompanhou - não inerte - a degradação de outros recursos naturais do território. Das lagoas, reforça ele, só restaram duas. Justamente, as que integram o Parque Urbano. Articulado em ONGs e na Rede Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede DLIS), Vicente é um dos moradores que mobiliza essa pauta. Visita o parque. Conhece. Se entusiasma com as possíveis melhorias. Denuncia os ataques e as tentativas de uso irregular do patrimônio natural. Representante da luta popular, Vicente cuida do meio ambiente e explica que "preservação é cultura". Na periferia, onde são tantos os gargalos, a natureza sabe que conta com alguns protetores. Vicente está nessa batalha e segue à disposição do verde.

Mergulhar em defesa das vidas do mar

Cynthia

A paixão pelo mar é explicitada na fala, nos hábitos, nos registros, na escolha profissional e acadêmica. A curiosidade e interesse pelos oceanos já levou a bióloga, Cynthia Ogawa ao Japão. O doutorado em Biociências Aplicadas foi realizado no país oriental porque lá, segundo ela, há um grande incentivo ao estudo das águas e vidas marítimas. "Quando eu tinha uns 10, 12 anos, era apaixonada por duas coisas: pelos astros e pelo mar, por essa ideia de imensidão tão perto. Nessa idade eu vi uma reportagem e um oceanógrafo falando que se conhecia mais os mistérios das estrelas do que o oceano. Fiquei cismada com aquilo. A partir dali já sabia que eram os oceanos que eu queria estudar", relata.

Afetada cada vez mais pelos encantos do mar, ela explica que ao seguir a carreira acadêmica foi percebendo o "abismo que existe entre a academia e a sociedade". Hoje, Cynthia atua em projetos independentes, mergulha há quase 20 anos. No começo, a atividade era recreativa, depois tornou-se prática para registro e divulgação de material. Com um calendário estabelecido, junto com um grupo de mergulho, ela adentra o mar de Fortaleza e de outras regiões do Ceará. Na ação, além de revelar e diagnosticar vidas que ali habitam em, pelo menos, duas ocasiões no ano, também realiza operações de limpeza. "Em todo mergulho volto com os bolsos do colete cheios de lixo", reforça

Educar para salvar a variedade do mangue

Rusty

Conchas, amostras de carcaças de peixe, caranguejos e até parte de um esqueleto de baleia somados a embalagens diversas de produtos fabricados em outros países. Os objetos que aparentemente não têm relação, há 17 anos compõem o acervo do único ecomuseu de Fortaleza. No Museu Ecológico da Sabiaguaba, o conjunto de peças expostas demonstra a diversidade dos seres marinhos e também a capacidade de destruição destas vidas, com a poluição provocada pelo homem.

Fruto do desejo e do esforço do educador ambiental, Rusty Sá Barreto, o ecomuseu tem preservado a memória social da Sabiaguaba. Dos saberes populares de pescadores e marisqueiras, ao conhecimento científico sobre as vidas que habitam o mangue. Localizado em um quartinho simples, extrapola a estrutura convencional. O museu é o próprio mangue. Ao receber estudantes, sobretudo, crianças nas atividades de educação ambiental, Rusty percorre o lugar mostrando a diversidade desse ecossistema. Passeio dividido em 14 estações. Entre elas, pausa no mangue branco e vermelho. Caranguejos, peixes, lama, dunas, água do rio junto a do mar. Misturas e tesouros localizados em um extremo de Fortaleza.

Navegar e fazer conhecer o Rio Cocó

Francisco

Acordar cedo e por volta das 7h30 já está pronto para navegar. Não em altomar. E sim nas águas que correm dentro da maior área verde de Fortaleza. O Rio Cocó com cerca de 50 km, passando por três municípios (Pacatuba, Maracanaú e Fortaleza) é a segunda casa, de Francisco Araújo, policial ambiental reformado e responsável pela navegação, desde 2016, em um dos trechos do recurso natural na Capital cearense.

A relação que hoje toma pelo menos 10h horas diárias de Araújo, é antiga. No início da década de 1990 ele já ajudava a organizar a navegação. Convidado em 1991 para ajudar a fundar o Pelotão da Polícia Ambiental, Araújo aceitou e dirigia uma patrulha dentro do Rio. Da BR-116 ao Caça e Pesca. Nesse intervalo de tempo, o Pelotão Ambiental cresceu. Passou a ser Companhia, depois Batalhão. Em 2014, Araújo foi para a reserva remunerada, e então foi convidado a ajudar na manutenção do Rio. Serviço voluntário realizado pontualmente 6 dias por semana. Além de ajudar no trabalho pesado de manutenção, ele transporta passageiros. Um passeio de cerca 30 minutos, em que o afeto entre o navegador e o Rio se explicita.

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