Reportagem Mães em ocupações

Moradia como presente é sonho compartilhado

Samanta, mãe pela primeira vez aos 19, abraça o "caçula e mimo da ocupação", Santiago, de um ano e sete meses
01:00 · 12.05.2018 / atualizado às 09:34 · 13.05.2018 por Theyse Viana - Repórter

2016. Nas 24 horas daquele ano, 126.377 mulheres tornaram-se mães no Ceará, pela primeira vez ou de novo, de acordo com o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus). A dona de "casa" Samanta Aragão, 20, "já tinha passado por muita coisa e, mesmo nova, já era vivida" - mas, ainda assim, teve mudados o corpo, a mente e a rotina com a chegada do primogênito, Santiago, em setembro daquele ano. Hoje, a postura madura, apesar de tão jovem, compartilha com dezenas de mulheres-chefes de família não só as desativadas salas de aula do antigo Colégio Jesus, Maria e José, no Centro de Fortaleza - como também o sonho de ter como "melhor presente" de Dia das Mães uma moradia segura, longe de riscos para a família.

O sorriso imenso, que aparentemente nunca se estreita, acompanha com naturalidade o depoimento de quem precisou ocupar um prédio público carregando "uma caminha, um guarda-roupas e um neném de seis meses" para ter um teto e fugir dos conflitos com a mãe - cuja identidade carrega no pulso, do sangue nas veias à inscrição "Lúcia" tatuada em preto. "Dou mó valor à minha mãe, ave Maria! Ela foi muito guerreira. Quando se separou do meu pai, eu era a mais nova dos cinco filhos, tinha cinco anos, e ela trabalhava dia e noite pra nós", relembra Samanta.

Hoje, como que por inspiração ou instinto hereditário e num contexto em que ter o básico já é muito, ela sequer pestaneja ou cogita pensar em si quando questionada sobre qual seria o melhor presente possível, neste segundo domingo de maio. "É ter minha casa, pro Santiago ter um lar quando crescer. Nosso canto a gente pode zelar do jeito que quiser. Aqui não, é tudo coletivo. Ele sai pra brincar, fica com todo mundo...", diz, escrevendo reticências com o sorriso ao ver Rita Maria, 50, "a mãezona da ocupação", enchendo um Santiago miúdo e nu de cheiros, como se relembrasse as sete infâncias que pariu ao longo da vida.

Mãe-leoa

"Minha mãe também teve sete. E eu teria oito, mas perdi um no final da gravidez", relata a genitora de Felipe, 12, e Adriano, 29, respectivamente o mais velho e o mais novo e, coincidentemente (ou não), os mais devotos à "pãe" - que criou os sete "sozinha, sem querer nada de pai, nem contato". "O Felipe é muito carinhoso comigo. Quando ele me vê sentada quieta, não tô nem triste nem nada, ele chega 'mãe, o que é que a mãe tem? tá sentindo alguma coisa?' É o neném da mãe!", exclama, dengando o tímido futuro biólogo sobre o sofá no corredor da antiga escola, móvel que a abriga das noites de chuva forte, quando vigia o teto em constante ameaça de cair. "Fico de vigília, porque, qualquer coisa, nós 'corre'".

É que numa situação vulnerável, essa história de mãe-leoa parece se intensificar - o que pode até ser comum, mas sempre bonito de se ver e admirar. É como se esse instinto protetor, e aqui na figura de Rita, burlasse qualquer sentimento de impotência para desviar do frio as seis cabeças que habitam com ela o cubículo que lhes cabe no prédio ocupado. "Eu acho que é um gesto de qualquer mãe: ela passa por cima de tudo e de todos pra proteger sua cria. Me ponho no lugar da minha: o que ela passou pra criar a gente, eu passo. Mas ser mãe é bom, sabe?", afirma, quase sempre terminando as ideias com uma escada ao otimismo - mas alargando o passo para pular os dois degraus que faltam: um dos filhos e uma casa.

"Eles estão praticamente criados, me orgulho de ser uma vitoriosa. Só tem um que mora na rua, porque é viciado nas drogas. Não sei nem onde tá, ele disse que não queria me dar trabalho. Vai fazer um ano" Silêncio. Aquele de lágrima represada teimando em sair. "Queria mesmo era ter todos do meu lado. Esse que foi embora chegar e me dar um abraço. Mesmo do jeito que ele é, seria meu maior presente. Para nós, eles nunca deixam de ser crianças, sabe? E não sei se meu filho tá vivo, com fome, preso...", e rompe a barragem do choro e das ideias, que deságuam na saudade e na preocupação.

Companhia

Este último sentimento, aliás, Camila de Sousa, 31, guarda nos olhos, na boca, nos ouvidos e em cada pedaço do corpo - porque todos os cinco sentidos, e até um possível sexto, se voltam a Carla, 12; Maria, 9; e Isaías, 7, todos os dias. "Minha alegria é poder dormir e acordar com os três ao meu lado. Amanhecer e eles dizerem que me amam. Antes da Maria dormir, por exemplo, tem um relatório: 'bença, mãe, boa noite, te amo, até amanhã'. Principalmente quando tá chovendo, eu durmo agarrada com eles, longe do marido", sorri uma figura que logo se vê: carrega a maternidade no DNA desde os 17, quando foi mãe pela primeira vez.

"Foi complicado, minha mãe não aceitava. Depois, quando descobrimos que era uma menina, ela amansou mais", derrete-se Camila, comemorando o fato de que "não tem um dia que não ligue" para a mãe - outra que não dorme em dias de chuva, preocupada com a filha, o genro e os netos sob a estrutura condenada da ocupação. "Eu nunca passei por isso, agora tô passando e com eles. Meu maior sonho é ter meu canto e uma vida boa e confortável pros meus filhos, sem preocupação deles adoecerem por causa da água e do lixo ou de dormir e o teto desabar".

Vizinhas de MDF - material que faz vezes de parede ao dividir uma sala de aula em duas "casas" -, Samanta, Rita e Camila compartilham, além do desejo por um presente que não está nas lojas ou publicidades do segundo domingo de maio, uma leveza única, sintetizada pela mais jovem das três. "Dá pra ser feliz, sim. Com amor, dá pra superar todas as coisas".

Mãe de ocupação

Maternidade é 'condição pesada' para mais pobres

Se ser mãe já seria complexo por si, o papel convive com pelo menos outro quase ou tão árduo quanto: o de ser mulher. A existência e os direitos de cada uma, porém, são distintos. "Há um imaginário social que romantiza muito a maternidade. Mas ela deve ser uma opção, e não uma obrigação", alerta a socióloga Maria Dolores de Brito.

"Mulheres de classe média podem viver isso como uma escolha, as mais pobres não. Elas não têm trabalho, casa, creche, atendimento de saúde nem uma rede de serviços básica. Nesses casos, a maternidade é uma condição social extremamente pesada", analisa Brito, destacando a moradia como demanda urgente.

"Mais de 40% das mulheres brasileiras são chefes de família, grande parte delas de baixa renda. E uma moradia sem segurança as expõe a situações de violência diversas. O Estado precisa se assumir como social e oferecer serviços de qualidade", pontua.

Em Fortaleza, ressalta a Secretaria de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS), a "assistência multiprofissional às mulheres em situação de vulnerabilidade" é oferecida pelo Centro Integral de Atendimento à Mulher, vinculado ao CRAS do bairro Jacarecanga, e em outros equipamentos da Rede de Enfrentamento à Violência.

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