Mofo provoca doenças respiratórias e internações - Cidade - Diário do Nordeste

UMIDADE

Mofo provoca doenças respiratórias e internações

12.06.2009

Mau cheiro é só o sinal de problema que pode afetar a estrutura da casa e causar doenças respiratórias e alergias

É só o período de chuvas se prolongar para o mofo tomar conta de armários, roupas, livros, gavetas, paredes e causar problemas nas vias respiratórias. Mas é possível prevenir o problema com bastante antecipação, ainda na construção da casa ou com acompanhamento médico. O problema se agrava nessa época porque a cidade fica mais úmida, com ventos mais fracos e evaporação reduzida, o que torna os ambientes propícios à proliferação de ácaros, fungos e mofo.

Em geral, a situação fica pior porque as pessoas só se dão conta quando já é tarde. Contudo, o mofo chega devagar, sem causar muito odor, mas quando a pessoa percebe o bolor já se instalou ou está afetando a saúde de crianças e adultos. Aí surgem espirros, alergias e todo o incômodo gerado pelo que parecia só um mau cheiro, mas na verdade pode levar a doenças graves e até internações hospitalares.

Transtornos

Em apartamentos, escritórios, mas principalmente em casas, o acúmulo de fungos e ácaros cresce nessa época do ano devido a uma série de fatores ambientais. Segundo o gerente do departamento de meteorologia da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), David Ferran, no período chuvoso, a umidade relativa do ar em Fortaleza fica em torno de 85%.

Em épocas do ano consideradas mais secas, o índice cai para uma média de 74%. “Há regiões onde essa mudança é maior. Mas como Fortaleza é relativamente perto do mar, muda menos. Quanto mais longe do mar é a cidade, maior é a diferença entre os dois períodos”, diferencia Ferran.

Além da umidade, outros aspectos contribuem para o aumento do mofo nesta época do ano. Os principais, como informa o meteorologista da Funceme, são a diminuição da velocidade dos ventos e da evaporação. Agora a média é de ventos a uma velocidade de 14 quilômetros por hora, enquanto na época de ventos fortes, de agosto ao início de novembro, o índice fica em torno de 25 quilômetros por hora.

Para explicar a redução na evaporação, David Ferran usa um exemplo. “Se você guarda um pano úmido em casa, esse pano vai demorar mais a secar do que no período mais seco”. Mesmo com a umidade maior e os ventos e evaporação reduzida, é possível contornar os incômodos causados pelo mofo. “Lugares bem ventilados tendem a ter menos problema”, explica o meteorologista.

Não é raro, em muitas residências de Fortaleza, ser preciso retirar roupas diretamente do guarda-roupa para o tanque, a máquina de lavar ou para a lavanderia. Paredes com infiltrações, bolsas e sapatos manchados e móveis inutilizados são afetados também pela presença do mofo. Mas há como driblar a situação — ou pelo menos tentar.

Precauções

De acordo com o arquiteto e urbanista Rafael Studart, a primeira medida é não colocar armários em paredes por onde passam tubulações hidráulicas. “Pode até colocar na do banheiro, desde que seja uma que não tenha tubulação, porque é isso que gera o problema”, alerta.

Outra norma importante é preparar o móvel que ficará recostado à parede, forrando-o com fórmica ou outro material isolante, que não absorva água. Uma dica importante, que pode ser considerada ainda na projeção dos móveis, é não usar o MDF nesses espaços, em especial se o local for o banheiro ou um móvel baixo de cozinha. “O MDF tem pouca resistência à água, às vezes até com umidade ele incha”, alerta.

O ideal, segundo o arquiteto, é usar compensado naval — utilizado em pequenas embarcações — ou ‘tecpainel’, um tipo de aglomerado mais resistente do que o MDF. Ambos são vendidos em chapas e, conforme Rafael Studart, “têm resistência muito melhor à água”.

Sobre as infiltrações em paredes, o arquiteto informa que, via de regra, o problema deve ser evitado pela construtora. “A água é muito invasiva. Às vezes a infiltração é do outro lado da casa e aparece no rodapé do quarto, porque a água sai onde encontra uma saída, não necessariamente no lugar exato do vazamento”, diz, destacando que paredes bem feitas, reboco regularizado e produtos antiinfiltração ajudam nesse tipo de prevenção.

No caso dos prédios e casas com paredes externas revestidas, a problemática é amenizada porque a cerâmica impede que a água infiltre. O detalhe é o rejunte entre as cerâmicas que, se não for bem feito, pode facilitar infiltração.

SAÚDE EM XEQUE
Umidade aumenta as alergias

O cheiro de mofo invadindo ambientes não é apenas incômodo, mas prejudicial à saúde. Em uma cidade já naturalmente úmida como Fortaleza, o bolor se intensifica no período chuvoso e facilita a proliferação de fungos, ácaros e, conseqüentemente, alergias e infecções respiratórias.

Prova disso é que o Ministério da Saúde estima que a asma é considerada a quarta causa de hospitalização em unidades de saúde, representando gastos de mais de US$ 76 milhões pelo Sistema Único de Saúde (SUS) durante o ano. Fora isso, até 36,5% dos pacientes alérgicos podem ser sensíveis ao mofo.

O problema se agrava porque, na avaliação da alergologista Lorena Madeira, presidente da Associação Brasileira de Asmáticos (Abra) Regional Ceará, a umidade na cidade aumenta exageradamente com as chuvas. Além disso, a médica acredita que casas e prédios não estão preparados para evitar mofo e infiltrações.

A conseqüência é direta para quem passa muitas horas em ambientes com cheiro de mofo, o que provoca irritabilidade nas vias aéreas, principalmente em pacientes com alguma imunodeficiência. “Quem já teve tuberculose e tem cavidade no pulmão fica mais propenso, assim como portadores de doenças alérgicas e respiratórias, como rinite e asma”, ressalta.

De acordo com Lorena Madeira, o mofo facilita a proliferação de ácaro e, por conseqüência, a incidência de alergias. A inalação piora, por exemplo, a rinosinusite alérgica, que afeta uma média de 20% a 25% da população, e a asma, que atinge em geral 10% das pessoas.

Mas não é só o mofo que piora essas alergias. O contato com epitélio de animais domésticos e de baratas, com fumaça de cigarro e cheiro forte de tinta, perfume e material de limpeza, por exemplo, também agrava a situação e pode provocar inflamação nos brônquios e nas vias aéreas (nariz, faringe, laringe, traquéia).

“O paciente alérgico é hipersensível. Pouca coisa desencadeia a crise. É preciso entender que a alergia é uma doença crônica e que não se pode automedicar”, enfatiza a médica. Por outro lado, com tratamento e acompanhamento adequados, mesmo que a crise apareça, ela tende a ser mais leve se for bem administrada. “O paciente que mais sofre nessa época do ano é que o que não faz acompanhamento e não faz uso de medicação preventiva”, completa.

É possível até, diz a alergologista, que a doença nem se manifeste em pessoas que têm acompanhamento adequado. O mito de que medicamentos para alergia causam aumento de peso, segundo Lorena, está ligado à automedicação.

“Ninguém nasce alérgico”, sintetiza a médica. O que ocorre é que a pessoa pode ter uma predisposição genética à alergia, o que pode levar ao problema aparecer mais cedo. Lorena Madeira avisa que, normalmente, a alergia surge aos dois anos de idade.

Outro fator inerente ao período é a luminosidade e ventilação dos ambientes. O maior erro é, na tentativa de evitar mofo, fechar portas e janelas. Isso, na verdade, aumenta a proliferação de fungos, ácaros e quadros virais. Em uma alérgico, por exemplo, a presença de uma gripe é bem mais severa do que em uma pessoa que não tem alergia.

Se alguém não alérgico gripa, fica bom em sete, no máximo dez dias. Mas em uma pessoa alérgica, uma simples gripe pode desencadear rinite, asma. “O quadro viral fica mais complicado, aparece obstrução, produção de muco, dispnéia, falta de ar”, informa.

FIQUE POR DENTRO
Pacientes necessitam de acompanhamento

A inalação de fungos, como o Aspergillus, pelo paciente alérgico, pode complicar a rinite (rinosinusite alérgica por fungos) ou a asma (aspergilose broncopulmonar alérgica ABPA), como explica a alergologista Lorena Madeira. De acordo com a médica, as características clínicas da ABPA são asma, tosse acompanhada de dispnéia (dificuldade na respiração), mal-estar, febre, dor toráxica e muco. Os sintomas reforçam a necessidade de acompanhamento médico e atenção redobrada no período das chuvas, tanto em ambiente domiciliar como no escolar e do trabalho

Marta Bruno
Repórter

ENQUETE
Famílias tentam minimizar o problema

Maria Lúcia Costa Parente
61 ANOS
Dona-de-casa

As paredes daqui de casa nunca tinham ficado assim, cheia de mofo. É muita chuva. Não posso nem chegar perto de mofo, que me dá alergia, fico logo doente. Penduro as roupas, lavo, mas nem sempre resolve o problema

Juliana Mariano da Silva
50 ANOS
Dona-de-casa

A gente limpa, coloca roupa no sol, depois lava, mas e as paredes? A chuva deixa as casas cheias de infiltração. Pode ser dentro de casa ou no quintal, não tem jeito. A casa fica toda cheia de mofo

Graça Costa
50 ANOS
Autônoma

Tiro tudo do guarda-roupa, passo vinagre, deixo secar completamente e depois guardo tudo de novo. Nessa época, faço isso pelo menos uma vez por mês, mas mesmo com toda a prevenção já perdi cortina, roupa

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