30 anos de espera e incerteza

Metrô de Fortaleza estanca em falhas e obras inacabadas

O funcionamento pleno do modal metroviário ainda depende de tecnologia e verbas para ser consolidado

00:00 · 27.05.2017 / atualizado às 00:49
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Atualmente, apenas as Linhas Sul e Oeste funcionam comercialmente ( Foto: Natinho Rodrigues )

Desde que o apito das antigas locomotivas que cortavam as vias de Fortaleza silenciou, o uso do transporte sobre trilhos na cidade embarcou na incerteza. Ainda nos anos 1980, as prometidas obras de implantação do metrô enchiam os olhos de quem queria percorrer a Capital de forma rápida, segura e confortável. Hoje, quase três décadas depois, o sistema de transporte metroviário da quinta capital mais populosa do Brasil ainda estanca em problemas de estrutura, obras inacabadas e entraves econômicos cujos ônus recaem sobre uma só parcela: a população.

Atualmente, apenas as Linhas Sul e Oeste do metrô funcionam comercialmente, somando 29 estações e transportando 665 mil passageiros por mês, de acordo com dados do Metrofor. Quem utiliza o transporte diariamente, seja para longos ou curtos deslocamentos, destaca a velocidade do modal como a principal vantagem - ponto positivo enfraquecido pelo tempo que os passageiros ainda precisam esperar nas plataformas. "Antigamente, eu pegava o trem. Hoje, pego metrô sempre, e o maior problema é a demora. Deveria haver mais trens, até pra não ser tão lotado em horário de pico", reclama a aposentada Albani Ferreira, 62.

O problema, no fim das contas, nem é falta de trem. A Linha Sul do sistema, que se estende por 24,1km entre o Centro de Fortaleza e o município de Pacatuba, tem à disposição uma frota de 12 veículos - mas apenas cinco deles estão em operação. Isso porque um grande gargalo para melhorar o serviço de metrô que a Capital tem hoje, de acordo com o presidente do Metrofor, Eduardo Hotz, é a falta do sistema de sinalização e controle de tráfego, que permitiria a redução do intervalo entre os trens e a expansão do horário de funcionamento das estações.

Desde o dia 22 deste mês, conforme a empresa, o tempo de espera por um trem da Linha Sul diminuiu de 20 para 17 minutos. A redução contínua até o alcance do intervalo ideal - que, estima Hotz, é de oito minutos - também é fundamental para solucionar problemas apontados pela técnica de laboratório Rivaldina Carmo, 56, que embarca todos os dias na Estação Esperança rumo à do Benfica. "De lá, pego o Campus do Pici/Unifor para ir ao trabalho, no Pici. O ruim é eu ter que pagar duas passagens", pondera a usuária, avaliando ainda que "o metrô encerra muito cedo". Hotz justifica que "a integração, por enquanto, é desinteressante ao passageiro, que desceria do ônibus para esperar muito tempo pelo trem".

O professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (DET/UFC), Bruno Bertoncini, acredita que "um sistema de metrô que atendesse às regiões certas da cidade ajudaria e muito na mobilidade urbana, já que seria um parceiro dos ônibus e estimularia o uso do transporte público coletivo". O sistema de controle do qual as melhorias dependem foi contratado no início de 2015, mas segue aguardando a chegada de equipamentos importados. "Quando estivermos com tudo implantado, teremos condições de operar até 21h30", garante Eduardo Hotz, afirmando que a tecnologia deve ser entregue até o fim deste ano à Linha Sul. Um prazo de até dois anos será necessário para inserir a Linha Oeste no sistema, fazendo com que os transtornos persistam no trecho Fortaleza-Caucaia.

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Integração

O funcionamento combinado entre o metrô e o sistema de ônibus da Capital também depende de tecnologia: atualmente, a bilhetagem do transporte metroviário não é eletrônica, o que inviabiliza a ligação entre os modais. Segundo o Governo do Estado, a integração já está em estudo com a Prefeitura de Fortaleza, o que, para Hotz, "ainda é um desafio, já que é fundamental diminuir primeiro o intervalo entre os trens", destaca.

O tempo ainda longo, aliás, é fio condutor para um problema estrutural vivenciado pelo estudante Douglas Araújo, 19. "Acho que além de um relógio indicando o horário do próximo trem, deveria ter banheiro nas estações", avalia o passageiro, que utiliza o modal todos os dias para ir do Conjunto Esperança ao Centro, onde estuda. O equipamento básico, explica o presidente do Metrofor, "não é prática dos metrôs, já que a ideia é que a estação seja apenas um local de passagem" e que 'esses recursos atraem usuários de droga e moradores de rua".

Sem prazo

Se por um lado o uso das Linhas Oeste e Sul pela população cresce, apesar das falhas, a construção da Linha Leste segue estática desde 2015, sem previsão alguma de retomada. De acordo com a Secretaria de Infraestrutura do Ceará (Seinfra), "o Governo do Estado aguarda repasse de verbas garantidas pela União para concluir o replanejamento da Linha e retomar a obra".

Quando concluída, a Linha Leste contará com 13 estações entre os bairros Pirambu (Tirol) e Edson Queiroz, com previsão de percurso completo em 17 minutos. A obra, conforme a Seinfra, está orçada em R$ 2,3 bilhões, sendo R$ 1 bi do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), R$ 1 bi do Governo Federal e R$ 300 milhões do Estado.

O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) Parangaba-Mucuripe também segue como promessa. As obras do ramal foram iniciadas em 2012 e paralisadas em 2014, após problemas com o consórcio responsável. Retomada em 2015, a construção está 63% finalizada, conforme a Seinfra, e o trecho entre a Parangaba e a Avenida Borges de Melo será aberto para operação assistida ainda em junho, quando os passageiros poderão embarcar gratuitamente das 8h às 12h.

"A obra está avançando no segundo trecho, mas é mais complicado, porque existem muitas desapropriações que devem ser feitas", explica Eduardo Hotz. A expectativa de entrega do ramal, estima a Seinfra, é o primeiro semestre de 2018. (Colaborou Theyse Viana)

Frases

"Um dos problemas para o Metrô de Fortaleza não atingir usabilidade é o fato de ter sido dimensionado para uma circulação que não representa a cidade"

Bruno Bertoncini - Doutor em Engenharia de Transportes

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