TRABALHO

Mercado exclui pacientes com esquizofrenia

01:52 · 11.09.2009
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Os primeiros sintomas da doença aparecem entre a adolescência e 25 anos, quando a pessoa está na idade produtiva

A esquizofrenia é uma doença grave que está entre as dez maiores causas de invalidez, mas que, no entanto, com o diagnóstico de forma precoce e tratamento pode trazer qualidade de vida ao paciente. Um dos maiores desafios para os profissionais e familiares de portadores de esquizofrenia é fomentar a sua inserção social, principalmente no mercado de trabalho.

O tema está em discussão na III Jornada de Terapia Ocupacional em Saúde Mental, que se encerra hoje, no Hospital de Saúde Mental de Messejana.

"Encontrar um lugar para o esquizofrênico trabalhar é uma das mais importantes discussões hoje. Trata-se de uma doença cujo tratamento traz bons resultados. Por isso, o esquizofrênico pode e deve trabalhar, estudar, namorar, casar, ter uma vida em sociedade", explica a coordenadora da Terapia Ocupacional do HSMM, Sandra Coelho.

O que acontece, conforme Sandra Coelho, é que na maioria das vezes, quando o esquizofrênico apresenta algum problema no trabalho, ele é logo afastado. Como os primeiros sintomas aparecem entre a adolescência e 25 anos, cada vez mais cedo, essas pessoas estão fora do mercado de trabalho. "A inserção do paciente esquizofrênico no mercado de trabalho é um dever de todos nós e a sociedade tem que despertar para isso. Eles podem sim ser produtivos", destaca.

No universo dos pacientes acompanhados no HSMM, conforme a terapeuta ocupacional, cerca de 80% têm esquizofrenia no quadro de doença mental. A participação das pessoas que estão estáveis no tratamento no mercado de trabalho, conforme ela, é mínima. "Temos exemplos bastante positivos de pessoas em tratamento da esquizofrenia que colocaram seus próprios negócios e estão tendo sucesso. Grande parte dessas experiências acontecem no Interior porque em Fortaleza tudo fica muito mais difícil", relata.

Vencer barreiras

A intenção, conforme ela, é criar uma rede envolvendo profissionais, familiares, pacientes e a sociedade para vencer as barreiras do preconceito com o portador da doença. "Quando não se conhece a situação, não se dá oportunidade. Isso acontece de forma velada", destaca.

A lancheira Iresse Barros conhece muito bem as dificuldades impostas pela sociedade a uma pessoas esquizofrênica. Seu filho, Rosemberg Vanderlei tem 31 anos e convive com a esquizofrenia desde a adolescência. "Ele vivia trancado em casa, não dormia, passava a noite inteira lendo livros e livros, tinha problemas de relacionamento com as pessoas. Até que apareceram as alucinações. Não descobrimos logo a esquizofrenia, mas a gente sabia que tinha algo errado, até porque o meu irmão tinha algo parecido", conta a lancheira Iresse.

Vanderlei está internado há um mês no Hospital Mental de Messejana e, em crise, sofre com sentimentos de medo e perseguição. Conforme a sua mãe, tem alucinações e ouve vozes ameaçadoras. "Para uma mãe, ver o seu filho assim é muito difícil. Ele é muito ligado a mim, só tem a mim. Por isso, a família é tão importante para acolher, ajudar e dar muito amor".

Iresse Barros conta que Rosemberg Vanderlei nunca trabalhou, só ajudava informalmente numa oficina mecânica onde as pessoas gostavam dele. Há três anos, para ficar perto da família e pensando numa melhora do filho, que tinha delírios de perseguição, ela veio de Pernambuco para o Ceará. "A melhora foi muito pouca, pois a doença vai aonde ele está, não tem como fugir. O melhor é que estamos sendo bem atendidos nesse hospital", finaliza a mãe.

SINTOMAS
Doença atinge 1% da população

A mudança repentina de comportamento, com episódios de sensação de perseguição, ouvir vozes, isolamento, alucinações e delírios, além de outras alterações sensoriais e perceptivas, são sinais de alerta para a esquizofrenia, doença que atinge cerca de 1% da população.

De acordo com o diretor de Ensino e Pesquisa do Hospital de Saúde Mental de Messejana (HSMM), o psiquiatra Gilson Holanda, os sintomas aparecem normalmente na adolescência e início da vida adulta, o que faz com o paciente perca uma parte importante da sua vida produtiva. "Adultos jovens e adolescentes são atingidos no seu curso de vida mais produtivo. É uma doença que consome as energias do paciente e da família", destaca o especialista.

É por isso que o especialista ressalta a importância da família no diagnóstico e adesão ao tratamento da pessoas com esquizofrenia.

"O paciente esquizofrênico não adoece só. Quando a família não participa, o resultado pode ficar aquém do esperado", explica Gilson Holanda. Além disso, a adesão ao tratamento não é uma tarefa fácil, pois inclui, além de medicações de alto custo, comparecimento às sessões de psicoterapia e cumprimento de uma agenda de tarefas propostas.

O psiquiatra Gilson Holanda destaca que hoje o sistema de saúde está cada vez mais estruturado e que a atenção básica, através do Programa de Saúde da Família (PSF), e também a própria família do paciente, têm sido importantes para a realização do diagnóstico precoce da doença.

"A esquizofrenia é uma doença grave, crônica, de caráter recidivante e tem altos custos sociais e financeiros", disse.

Por conta desses diversos fatores é que o médico diz que são fundamentais as iniciativas de pisco-educação, que procuram levar às famílias e aos pacientes o máximo de informações. "É preciso se empoderar e saber todas as vertentes da esquizofrenia, pois cada paciente é único", finaliza o médico.

FIQUE POR DENTRO
Legislação estimula inclusão do portador de doença mental

O Brasil já dispõe de uma série de instrumentos legais e institucionais acerca da necessidade de consolidar políticas sociais que tratem da inclusão social pelo trabalho em portadores de doença mental. A Lei Federal 10.216, de 06/04/2001, da reforma psiquiátrica brasileira, dispõe sobre o redirecionamento do modelo assistencial em saúde mental e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais.

Propõe que estas pessoas devem ser tratadas em serviços comunitários "com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar a saúde, visando alcançar sua inserção na família, no trabalho e na comunidade".

Outras legislações no País também buscam essa inserção, como a Lei nº 10.708 que cria o Programa de Volta para Casa e institui o auxílio-reabilitação psicossocial para pacientes acometidos de transtornos mentais egressos de internações.

Têm o mesmo objetivo as recomendações da III Conferência de Saúde Mental, ocorrida em 2001, e as diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental, que entende que as ações de inclusão social pelo trabalho são atividades laborais de geração de renda, inserção econômica na sociedade e emancipação.

PAOLA VASCONCELOS
REPÓRTER

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