Memória de Fortaleza ganha espaço na Internet - Cidade - Diário do Nordeste

História

Memória de Fortaleza ganha espaço na Internet

16.02.2014

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Cada novo local visitado em Fortaleza se transforma em registro fotográfico para, em seguida, ser compartilhado nas redes sociais
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O Instituto do Ceará foi um dos pontos que mais encantou o educador Tiago Lino em suas incursões pela memória da Capital cearense
Fotos: Helosa Araújo

Acervos e passeios despertam interesse pela história da Capital e são compartilhados nas redes sociais

No caminho de volta para casa, certo dia, o educador social Tiago Lino, 33, resolveu comprar um livro sobre história do Ceará em uma loja na Praça dos Leões, no Centro. A publicação, à primeira vista despretensiosa, deu rumo diferente aos caminhos que Tiago iria escolher para voltar para casa, depois da leitura. "À medida que eu lia, ia andando pela cidade e percebendo as mudanças, comparando fotos antigas às cenas atuais e passei, também, a fotografar os prédios no caminho", relata o educador.

Tiago faz parte de um grupo que começa a ganhar mais adeptos em Fortaleza: o das pessoas que buscam conhecer a Capital em seus contornos antigos, entender a história da cidade e perceber as transformações pelas quais Fortaleza passou, através de acervos históricos, passeios e leituras. "Fiquei instigado porque não conhecia a cidade em que moro, e descobrir essas histórias me fez ver o quanto de beleza e riqueza Fortaleza possui, e que ainda é desconhecida pelos cearenses", defende.

Depois que assumiu a missão de conhecer a cidade, Tiago adquiriu novos hábitos, como observar os traços da arquitetura escondidos por trás das fachadas de alguns prédios antigos no Centro, ou ficar atento a museus e casarões que aparecem no caminho. "Foi assim que descobri a Casa de Juvenal Galeno, vizinho ao Theatro José de Alencar, um lugar fantástico, aberto ao público e que pouca gente sabe da existência", conta.

Descobertas

O Instituto do Ceará, próximo da Igreja do Carmo, foi um dos pontos históricos que mais encantou o educador, em suas incursões pela memória de Fortaleza. "É um museu que une tecnologia à estrutura antiga do casarão, e tem ainda um memorial da família do Barão de Studart", descreve. Cada novo local visitado se transforma em registro fotográfico para, em seguida, ser postado nas redes sociais. "Quando coloco as fotos, as pessoas descobrem esses lugares também e querem conhecer", relata.

Em alguns passeios, as imagens não são muito animadoras, como a Casa do Barão de Camocim e as caixas d'água da Praça da Bandeira, marcadas pelo abandono. Esses vestígios de esquecimento, entretanto, não desanimam Tiago: "Meu desejo é levar esse conhecimento sobre a cidade para outras pessoas, quero estudar mais e reunir grupos para esses passeios".

Para o redator publicitário Thiago Matso, 25, a curiosidade sobre a antiga Capital foi instigada durante uma aula de História, ainda na faculdade, quando o professor levou algumas imagens de décadas passadas. "Tempo depois, lembrei dessa aula e fui pesquisar fotos de Fortaleza na Internet, e me surpreendi com a quantidade de arquivos que tinha", recorda. Para compartilhar o achado com os amigos, Thiago criou uma página no Facebook, com um nome que não poderia ser menos cearense: "Cidade de Fortaleza das antigas". Na página, que já possui mais de sete mil seguidores, a história da cidade é contada por meio de um acervo virtual, relembrando prédios antigos, datas e causos marcantes.

"Olho para as fotos que compartilho e tento imaginar como tudo se transformou, é mesmo pela vontade de querer resgatar as lembranças de uma época que não vivi, como uma nostalgia fantasiosa", descreve o publicitário, que pretende, no futuro, reunir o próprio acervo de registros fortalezenses.

Estilos de roupas, hábitos alimentares, idas ao cinema e ao teatro, passeios na Praia de Iracema, entre outras cenas de Fortaleza antiga, são retratadas nas centenas de cartões postais que integram a coleção do cirurgião plástico Carlos Juaçaba, 60. "O acervo começa em 1904, com cartões produzidos ainda pelos franceses, contempla as imagens de Tertuliano Sales e vai até a década de 1970, com a produção de Chico e Antônio Albuquerque", descreve.

Curiosidade

A coleção é mantida pelo cirurgião há 25 anos, e começou a partir da curiosidade em conhecer a cidade que Carlos não viveu. "Compro cartões postais em muitas feiras pelo Brasil e ganho, também, muitos arquivos de amigos", conta. Alguns registros do acervo são compartilhados no Facebook do médico: "É uma forma de mostrar aos jovens como foi a evolução cultural, social e arquitetônica da nossa cidade".

A comparação entre as duas Fortalezas, na análise de Carlos, revela uma cidade que já foi, segundo ele, mais bucólica, arborizada e romântica. "A região do Passeio Público é um dos poucos locais que preservam a arquitetura dos anos 20, é uma ilha de excelência histórica", cita, comparando com a Aldeota, que deixou as dunas e pés de murici para abrigar o paredão de prédios. "Mas é também interessante curtir essas fases de transformação", argumenta.

Com a intenção de fazer com que mais pessoas tenham acesso a esse conteúdo, Carlos já adianta que, futuramente, o acervo deve ser doado para alguma instituição de caridade.

Laços construídos pela história

Conhecer a história da cidade onde mora é, antes de tudo, uma forma de aprender a amar o lugar, segundo o arquiteto e urbanista Daniel Pinheiro.

"Só podemos amar aquilo que conhecemos, e é dessa forma que a gente constrói uma história", explica, destacando o valor afetivo dos acervos históricos mantidos por colecionadores, narrando o crescimento e as mudanças de Fortaleza.

Além de criar laços dos moradores com a cidade, o resgate da memória de Fortaleza tem importante valor historiográfico, segundo o arquiteto. "Para narrar a história de uma cidade, é preciso construir a partir dos fragmentos que serão, depois, incorporados a narrativas maiores", complementa Daniel.

Tesouro

Devido à importância do conteúdo que guardam, esses acervos, segundo o arquiteto, passam a ser tratados como tesouros. "O mais interessante é quando as pessoas começam a compartilhar pedacinhos desses tesouros em páginas na internet, por exemplo". O conselho dele para valorizar ainda mais a memória da cidade é incentivar mais o compartilhamento desses pequenos trechos dos acervos.

Jéssica Colaço
Repórter

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