Reportagem Pessoas em situação de rua

'Mãe Ferreira': 247 vidas ao relento no Centro

O melhor lugar para dormir são nas portas de lojas. Com oferta de travesseiro e cama de papelão
01:00 · 21.10.2017 por João lima Neto - Repórter

"Estourou! Estourou!". Os gritos são de pessoas que vivem em situação de rua na Praça do Ferreira para avisar uns aos outros que a comida e água chegaram. Ações de Igrejas e grupos de amigos levam um pouco de vida em um pedaço de pão e um copo de caldo de carne. O olhar de rejeição não é dado com a mesma constância de quem estende a mão. Um banco é cama. O banheiro uma torneira. O lençol um pedaço de papelão. Nestas condições, 247 cidadãos chamam a Praça do Ferreira de casa, segundo levantamento da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS).

Para alguns, o espaço é chamado de "Mãe Ferreira". Em diferentes períodos de seca do Estado, em décadas passadas, a chamado pela mãe foi mais forte. A violência causada por facções criminosas agora é um dos novos motivos para viver na rua.

Sob o sol e o luar, com papelões e colchões, famílias inteiras tem o logradouro como lar. Drogas, brigas de famílias e doenças neurológicas são os problemas que cercam as vidas de quem vive no coração da Capital. Desde a fundação, o "abrigo" funciona de forma não oficial.

Pessoas em situação de rua

Aos 21 anos e mãe de gêmeos, a jovem Dayana Célia da Silva, tem como endereço um pedaço da Praça do Ferreira. Por problemas financeiros, a mãe dela vendeu a casa onde a família morava no bairro Serviluz e acabaram encontrando refúgio nas ruas do Centro. "Eu queria está dentro de uma casa. Não temos condições. Aqui tem comida direto, além da ajuda dos vendedores de loja", conta a jovem que mora na entrada de uma farmácia desativada. Day, assim chamada pelos amigos, faz parte de uma estatística pesada sobre as drogas. Segundo estudo da SDHDS, o uso do álcool e de drogas, como cocaína e crack, atinge 68% de pessoas que habitam a Praça do Ferreira.

Fuga

A vida da rua não perdoa ninguém. De alfabetizados aos com formação de nível superior. Um deles é o radialista José Ivan Magalhães, 42, de Santa Quitéria. Com formação em rádio, ele se entregou ao vício da cocaína. Por 18 anos viveu fora de casa. Há um ano meio, ele escolheu a Praça do Ferreira como lar por saber que tudo na região é mais fácil de se encontrar, do álcool ao pão do café da manhã.

"Trabalhei anos com rádio e também como cantor. Não tomei as rédeas da minha vida. Não sei se foi armadilha do diabo como comentam. Mesmo nesta Praça estou acolhido por Deus. Mesmo aqui, eu tenho dignidade. Não tenho fogão, mas aqui tem comida. Eu tenho frio, alguém me doa uma coberta. É uma verdadeira mãe essa Praça. Muitos condenam a gente aqui. A conduta e a condenação são injustas", declara Magalhães.

Sem notícias da família, o radialista diz não querer retornar para casa pois não quer ser "peso" para ninguém. "Quero voltar limpo. Sem ser empecilho na vida dos meus familiares. Sei que isso vai demorar".

Mudanças

A realidade não é nenhuma novidade para a Prefeitura de Fortaleza, segundo avalia o titular da SDHDS. Conforme o secretário Elpídio Nogueira, com base no estudo realizado pela Pasta em agosto deste ano, a entrega de um novo espaço deve desocupar a Praça do Ferreira até o início de janeiro de 2018.

"Um centro de acolhimento para 300 pessoas deve inserir novamente esses cidadãos no mercado de trabalho e, consequentemente, o retorno nos verdadeiros lares", diz o secretário. Segundo o gestor, o espaço irá disponibilizar um Núcleo de Atendimento ao Cadastro Único (Nucad) com a finalidade de criar os Registros Gerais (RGs) e os Cadastros de Pessoas Físicas (CPFs). Das 247 pessoas que vivem em situação de rua, 19% não existem para o Estado ou Município devido a falta de qualquer tipo de registro público.

Haverá ainda um posto do Sebrae e da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) com cursos preparatório para os abrigados do novo Centro. "Ao mesmo tempo, a STDS, vai unir empresar para receber a mão de obras desses moradores. Eles também irão continuar recebendo o bolsa família normalmente", diz o titular da SDHDS. Outro serviço prioritário será o atendimento por uma equipe médica no novo abrigo. "Haverá atendimento semanal. Sabemos e temos noção das diversas enfermidades existentes nas ruas.

Conforme a Pasta de Direitos Humanos, uma equipe técnica da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf) está analisando o equipamento e até o final de outubro o novo equipamento terá as obras iniciadas.

"Abrigo não é lar", diz Pastoral

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Apesar da boa intenção do Município em criar um espaço para abrigar as pessoas em situação de rua, especialistas e entidades que trabalham com os habitantes de rua se mostram contrário em partes a criação de um novo equipamento. Fernanda Sousa da Secretaria da Pastoral do Povo da Rua, ligada à Arquidiocese de Fortaleza, afirma é um retrocesso. "Já existem pousadas e abrigos sociais que são esquecidos. O povo da rua precisa de casa. Não adianta ter curso ou outras atividade se não tiver uma base que é uma casa".

Para o cientista social pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Rodrigo Patrocínio, assim com nos abrigos existentes, na rua existe muitas rixas entre as pessoas em situação de rua. "A criação de um novo espaço para eles é positivo, desde que haja o acompanhamento de diferentes politicas públicas para educação, trabalho e até saúde. É preciso que esse espaço não seja só fuga, mas local de transformação".

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Dayane divide o que arrecada de comida no Centro com dois filhos, a mãe e outras pessoas em situação de rua que vivem com ela na porta de uma loja

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