Lixo acumulado nas ruas prejudica combate à dengue - Cidade - Diário do Nordeste

FALTA CONSCIENTIZAÇÃO

Lixo acumulado nas ruas prejudica combate à dengue

28.05.2008

A coleta de lixo funciona nas áreas urbanizadas, mas não chega às áreas de risco nem favelas de Fortaleza

A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que a urbanização acelerada e a má administração da limpeza urbana foram dois pontos fundamentais, nos últimos 30 anos, para o favorecimento da dengue no Brasil. Em Fortaleza, por exemplo, a questão do lixo ainda é um desafio no combate à doença.

Enquanto o sistema de coleta de lixo cobre áreas urbanizadas, outras, como as de risco ou sem infra-estrutura, sofrem com o acúmulo dos resíduos. Nesses locais, onde o caminhão da coleta não entra porque as vias não permitem, a opção da população é levar seu lixo para a avenida mais próxima, favorecendo o nascimento de vários pontos, que acabam tornando-se permanentes.

O canteiro central da Avenida Leste-Oeste e da Avenida Soares Moreno é um exemplo disso. Lá, a população das ruas do entorno do Pirambu, Goiabeiras, Barra do Ceará, entre outros, despejam seu lixo no canteiro até que um caminhão chegue e recolha os resíduos, virando um ciclo de risco.

Se chover, então, o esquema não funciona porque o lixo será levado pelas águas, transformando-se em potencial criadouro do mosquito onde parar. Em algumas áreas urbanizadas, esse problema também acontece. No cruzamento das ruas Desembargador Leite Albuquerque e Nunes Valente, na Aldeota, um ponto de lixo virou até motivo de briga, uma vez que os fiscais da coleta já foram ameaçados pelos catadores.

Mesmo conhecendo essas situações, a presidente da Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização (Emlurb), Eveline de Sousa Ferreira, considera que a coleta de lixo em Fortaleza é suficiente, e não compromete o combate à dengue na cidade. “A coleta não falha, por isso é considerada uma das melhores do País. Em dias alternados o caminhão recolhe o lixo. Em áreas de maior fluxo, onde há atividade comercial, isso acontece diariamente. Não há motivo nenhum para que seja jogado lixo em terrenos baldios”, destaca, acrescentando que 80% dos focos estão nas residências e não nas ruas.

A presidente da Emlurb explica que a Prefeitura está se antecipando às reclamações. “O Município já começou a mapear os terrenos baldios e cadastrar os proprietários, através da Secretaria de Finanças. Em alguns casos, quando é constatada a presença de focos, a Prefeitura fecha o muro, faz a limpeza e manda a conta para o proprietário”, explica ela, ressaltando que isso não é uma regra nem pode ser aplicado em todos os casos. “Nem todo terreno baldio é foco de dengue”.

Quanto aos problemas das áreas em que o caminhão da coleta não entra, Eveline citou uma idéia da Agência Reguladora de Fortaleza (Arfor), que gerencia o contrato com a empresa Ecofor, de instituir o gari comunitário. Essa figura, da própria comunidade, atuaria onde existem problemas de acesso e também de vulnerabilidade para os profissionais, que são vítimas de assaltos em algumas comunidades.

Nesse processo, Eveline destaca que a educação do cidadão deixa a desejar. “A sujeira não está ligada à pobreza. Têm áreas ricas em Fortaleza que são extremamente sujas e outras muito pobres que são limpas. Tem que acender uma luzinha na cabeça de cada morador para que a trate a rua como a sala ou a cozinha de casa.

FALTA DE PLANEJAMENTO
Desordenação favorece o mosquito

O crescimento desordenado das cidades brasileiras, a exemplo do que ocorreu com Fortaleza nos últimos 20 anos, as agressões ao meio ambiente e a falta de planejamento de políticas públicas mais drásticas para conter o avanço do Aedes aegypti que retornou ao ambiente urbano, a partir dos anos 1980. Estes são alguns argumentos apresentados pelo médico infectologista Keny Colares, professor do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor). “A dengue leva em consideração um conjunto de fatores”, diz, tranqüilizando que 70% dos casos são simples.

O médico explica que o contexto das cidades brasileiras na atualidade é bem diferente do início do século XX, quando eram menores, menos adensadas. Portanto, era mais fácil controlar uma epidemia, compara Keny Colares.

No caso específico da dengue, “a urbanização foi até favorável ao mosquito”, diz, completando que a responsabilidade quanto à epidemia da doença deve ser compartilhada. “Só o governo não poderá resolver o problema”. Chama a atenção para os imóveis fechados sendo necessário amparo legal para as autoridades agirem.

Conscientização

Sem contar com a falta de educação ambiental das pessoas com relação ao destino do lixo e do armazenamento de água. As questões são fundamentais para a prevenção da doença, mas falta conscientização das pessoas. Admite ser bastante complicada a situação nos estados do Rio de Janeiro e Ceará, principalmente com a circulação do sorotipo para a dengue hemorrágica.

Daí a preocupação, explica Keny Colares, informando que é grave o avanço do mosquito no Estado. “Praticamente todos os municípios possuem o Aedes aegypti”, destaca, admitindo ser difícil o controle. Doença típica das regiões tropicais, o calor e a umidade favorecem ao desenvolvimento da doença.

Para ele, a dengue pôs em xeque o sistema público de saúde agravando ainda mais a epidemia. No momento, o que se pode fazer é garantir assistência e evitar o pânico.

REAÇÃO
Mobilização social é inédita

Em nenhum outro momento de crise na saúde causada pela dengue se viu tanta mobilização social como acontece agora. Mutirões de serviços e limpeza, profissionais de saúde se atualizando, bombeiros e carteiros nas ruas, idosos reproduzindo ensinamentos em suas comunidades, advogados e outros profissionais dando a sua contribuição e empresas convocando seus funcionárias para eliminarem focos da doença no ambiente de trabalho e também em casa. São cenas inéditas que estão começando a fazer parte da rotina da população de Fortaleza.

Para o coordenador de Políticas em Saúde da Secretaria de Saúde do Estado, Manoel Fonseca, parte dessa mobilização social deve-se ao fato da transparência com que as gestões de saúde estão trabalhando a dengue, sempre esclarecendo e informando acerca da gravidade da doença. “A questão é séria e a população tem que ter consciência que faz parte disso”, explica o médico.

Além disso, Fonseca ressalta o papel dos meios de comunicação no processo de gerar mobilização entre as pessoas. “Diariamente o noticiário traz várias matérias sobre dengue, sejam positivas ou negativas, e isso ajuda a população a ficar sempre alerta”, disse.

Já o secretário Municipal da Saúde, Odorico Monteiro, considera que na medida em que se abriu o debate sobre a dengue, a sociedade se viu dentro do problema, até porque também é atingida pela doença.

Segundo Monteiro, expor e alertar a população não se trata de fazer terrorismo e sim de criar consciência sanitária. “As pessoas têm dificuldade de quebrar a inércia e partir para a atitude”, disse.

Utensílios inservíveis são deixados à beira de canal

Área de risco: em um canal, às margens da Avenida Pompílio Gomes, no Bairro Jangurussu, o acúmulo de lixo é visivelmente uma ameaça à saúde. Garrafas plásticas e um pneu deixados no local são depósitos propícios à reprodução do Aedes aegypti. Basta uma chuva para que os utensílios inservíveis à população se tornem focos da dengue. Além disso, o material colocado dentro do canal acaba contribuindo para a poluição.

Terreno na Aldeota é ponto de risco

Uma casa abandonada no cruzamento das ruas Tibúrcio Cavalcante e Pereira Valente vem tirando o sossego dos moradores da área. Focos de dengue foram encontrados e nada foi feito.

Naiana Rodrigues, Paola Vasconcelos e Iracema Sales
Repórteres




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