igreja do cristo rei

Linha Leste do Metrô sem previsão de retorno

A Seinfra afirmou que, após a desmobilização do canteiro de obras, entregou a Praça em boas condições

01:00 · 15.06.2018 por Nícolas Paulino - Repórter

Era novembro de 2013 quando começou o mexe-mexe na Praça da Bandeira, próxima à Igreja Cristo Rei e ao Colégio Militar de Fortaleza, no bairro Aldeota. A promessa era mais uma estação da Linha Leste do Metrô de Fortaleza, que afundou dois anos depois por um imbróglio entre o Governo do Estado e o consórcio construtor. Em novembro do ano passado, a Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) decidiu desmobilizar a interdição do espaço - e assim será por tempo indeterminado, já que ainda não se sabe a data da retomada das intervenções. Em nota, a Pasta resume dizendo que, quando isso acontecer, "será avaliada qual a melhor forma de mobilizar os canteiros novamente".

Para o taxista José Alberto Barbosa, embora a remoção dos tapumes tenha contribuído para arejar e dar mais vivacidade à área, o difícil é ver a praça abandonada, cheia de mato, entulho e lixo, banquete de dezenas de pombos. O também taxista Edmilson Andrade, naquele ponto há mais de 15 anos, nota ainda que a nova configuração espantou os antigos frequentadores, principalmente coopistas. A Seinfra afirmou que a desmobilização do canteiro de obras foi uma força-tarefa "para que a praça fosse entregue em boas condições". Foram retirados os tapumes, portões e guaritas, o recolhimento do entulho, a poda de árvores e a recomposição da iluminação e do pavimento de paralelepípedo.

Sem definições, o cruzamento da Av. Santos Dumont com a Rua Nogueira Acioli se transformou no endereço permanente da família de Cícero Romão do Nascimento, 53, mais precisamente no refeitório onde se serviam os almoços dos operários do Metrô. Ali, o galpão-casa é dividido em cômodos separados por paredes invisíveis: sala de estar, quarto e banheiro - improvisado - se misturam entre banquinhos de plástico e surrados colchões espalhados pelo piso.

Numa das paredes, foi pregada uma pia sem tubulação. Abaixo dela, um balde transbordando de roupas e outros com algumas de molho aguardam mais uma lavagem, enquanto mais peças de vestuário secam ao sol e ao vento, sobre os bancos de madeira da praça que fazem as vezes de varal. No ex-refeitório, vivem dois núcleos da família do flanelinha, que atua nas imediações da praça, segundo ele, há mais de 20 anos. Na fala rápida, sinal de quem tem urgência, Cícero Romão explica que eles se mudaram de uma área de risco no bairro Luciano Cavalcante depois de passarem por alguns "problemas" (sem, no entanto, dar mais detalhes). Hoje, sobrevivem do apoio financeiro e da doação de donativos de pessoas que frequentam a região, bem como de pedir dinheiro nas ruas. "Mas aqui não tem algazarra, não tem baderna", garante Cícero Romão.

Antiga

Já a moradia precária da ex-esposa e dos dois filhos mais novos, gêmeos de nomes bíblicos, mais parece uma fotocolagem, erguida do amontoado de tapumes, vigas e lonas deixadas pela antiga obra. Um único fio de energia elétrica garante o funcionamento de um rádio que pode ser escutado do lado de fora da residência, identificada por uma placa alaranjada que indica um desvio de trânsito na Rua Dona Leopoldina e outro na Avenida Santos Dumont.

A rotina da família foi interrompida pela chegada de duas assistentes sociais do Núcleo de Locação Social da Secretaria Municipal do Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza (Habitafor), na manhã de ontem. Elas fizeram a visita para verificar a documentação dos moradores e propô-los a adesão ao Programa de Locação Social (PLS), que oferece auxílio financeiro mensal de R$ 420, por até dois anos.

A Secretaria dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS) também informou que vem acompanhando a situação das três famílias que estão ocupando os abrigos.

Segundo a Pasta, elas foram encaminhadas para o Centro Pop de assistência e tiveram acesso à documentação civil, atualização cadastral do Bolsa Família, encaminhamento para saúde e acolhimento institucional. O órgão também afirmou que as crianças das famílias estão matriculados na Escola São Rafael, na Praia de Iracema. As assistentes sociais disseram que a proposta da Habitafor é demolir os abrigos para evitar que novas famílias ocupem o lugar. A Seinfra afirmou que aguarda a retirada das famílias para fazer a demolição das estruturas. Cícero Romão quer se mudar, sim, mas não acredita que o processo da Prefeitura será rápido. "Se Deus quiser vai dar certo. Se for o melhor pra minha família?". Segunda-feira, prometeu, vai ao Vapt-Vupt do Antônio Bezerra para tirar a identidade. Talvez "por milagre" consiga rápido a nova casa. Nome de padre ilustre ele já tem, morando defronte à Cristo Rei. Quem sabe com um apelo a mais à observadora imagem de Nossa Senhora, posta do outro lado da parede onde riscaram, a lápis, "todos somos filhos de Deus Pai".

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