extiMártir Francisca

Internos reportaram ameaças à Justiça

Uma facção criminosa estaria ameaçando adolescentes que não moravam em bairros comandados por ela

01:00 · 14.11.2017 por Cadu Freitas - Repórter
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De acordo com o juiz Manuel Clístenes, o Centro é encravado dentro de uma favela, dominada pela facção criminosa Comando Vermelho ( Foto: José Leomar )

Adolescentes em conflito com a Lei que estavam apreendidos no Centro de Semiliberdade Mártir Francisca, no bairro Sapiranga, em Fortaleza, já haviam informado à Justiça da possibilidade de haver mortes no local. Cerca de 20 homens fortemente armados invadiram o Centro Socioeducativo na madrugada de ontem e mataram quatro jovens.

Segundo Manuel Clístenes, a ação no Centro de Semiliberdade foi "literalmente um atentado contra o Estado e contra esses rapazes que foram assassinados". O lugar, referência brasileira na área, nunca havia registrado um fato similar, embora apresente pouca segurança, pois "não foi pensado para atuar como uma prisão".

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"Esses bandidos se aproveitaram dessa aparente fragilidade e promoveram essa chacina", afirmou o juiz. Segundo ele, diferente dos outros centros socioeducativos, que possuem policiamento e segurança 24 horas, "o Mártir é frágil, é encravado dentro de uma favela, dominada por uma facção criminosa, o Comando vermelho", grupo responsável, de acordo com Clístenes, pelas mortes dos quatro adolescentes no entorno do Mártir Francisca. "Alguns internos relataram que só poderia ficar no Centro quem morasse em bairros dominados pelo Comando vermelho (CV). Quem morasse em outros bairros não poderia se fixar lá", informou Clístenes.

Conforme o juiz, as vítimas da chacina moravam em zonas dominadas pela facção Guardiões do Estado (GDE), inimiga do Comando Vermelho. Segundo o magistrado, há alguns meses foi observado que vários jovens estavam fugindo do Centro Socioeducativo por medo de morrer.

Quando eram apreendidos, eles se apresentavam à 5ª Vara e pediam para falar com o juiz. "Eles disseram que não estavam em condições de permanecer ali porque começaram a sofrer ameaças", disse o juiz ao confirmar que a chacina foi patrocinada por forças externas ao Centro: "não foram os internos que promoveram isso".

"Vários deles disseram que o Centro seria invadido, que eles iriam matar pessoas que não fossem pertencentes à comunidade na área", relatou Manuel Clístenes. De acordo com o magistrado, as denúncias foram mencionadas ao Ministério Público, à Defensoria Pública e ao Estado antes mesmo de ocorrer a chacina. "Não sei quais providências o Estado tomou para evitar que isso ocorresse, mas não surtiu efeito", pontuou.

Intervenções

De acordo com o juiz, o Governo do Estado se prontificou a apresentar um plano de intervenções a ser implantado nos próximos dias na região da Sapiranga. A ideia é que sejam realizadas operações de inteligência na região. "Enquanto isso não for feito, o Centro não tem condições de voltar a funcionar", finalizou.

Em nota, o Núcleo de Atendimento a Jovens e Adolescentes em Conflito com a Lei (Nuaja), da Defensoria Pública, disse que "realizou diversos pedidos de extinção de medidas durante as audiências", além de ter oficializado à Superintendência do Sistema Socioeducativo (Seas) para adotar medidas. A Seas, por sua vez, afirmou que tomou providências, "contudo a natureza e a magnitude da ação foram de proporções imprevisíveis", disse o Superintendente da Seas, Cássio Silveira Franco.

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