Mundo virtual

Internautas redescobrem o valor da escrita com as novas tecnologias

21:20 · 24.11.2012
Seja em sites, blogs, nas redes sociais ou pelo e-mail, o certo é que escrever nunca esteve tão na moda

A estudante de Publicidade, Mariana Fernandes, 20 anos, criou o blog Modo Meu como um diário online devido ao estresse do vestibular. Três anos depois, a página aborda temas como moda, música e cinema Foto: José Leomar

"Escrever está na moda. As novas tecnologias de comunicação, quem diria, ressuscitaram o valor da escrita. Já não se escrevem cartas como antigamente, mas concisas mensagens eletrônicas". A frase, da apresentação do livro "A arte de escrever bem", das jornalistas Dad Squarisi e Arlete Salvador, retrata com perfeição a "febre" por escrever desencadeada pela internet.

Seja em sites, blogs, redes sociais ou e-mail, o certo é que escrever nunca esteve tão na moda. Só que em vez das tradicionais cartinhas e dos diários pessoais, restritos ao destinatário ou ao próprio dono, na internet o alcance de uma informação ou pensamento publicado é inimaginável. Quem é o público? São todos os internautas. Que pode ser qualquer pessoa.

A ânsia por produzir e acompanhar o que está sendo discutido na rede leva as pessoas a ler mais e a buscar escrever melhor, de acordo com a norma culta da língua. Até porque, para opinar sobre determinados assuntos é preciso estar por dentro do que está acontecendo.

Entretanto, é preciso ficar atento ao que a internet disponibiliza. Devido à grande quantidade de informações, facilmente a atenção pode ser desviada. Outro cuidado que se deve ter é com a escrita. Por criar uma linguagem específica, a internet pode influenciar na forma de escrever em trabalhos da escola, faculdade e até no trabalho. Abreviações como "vc" e "kd" devem ser evitadas, uma vez que empobrecem o vocabulário.

Refúgio

São muitos os motivos que levam uma pessoa a compartilhar angústias, impressões e pensamentos na internet. Mariana Fernandes, 20 anos, estudante de Publicidade e blogueira, é do tempo em que se faziam confidências em agendas pessoais. Colava tudo: papel de bombom, mechas de cabelo, fotografias. Mas foi no terceiro ano, por causa do estresse do vestibular, que resolveu criar o blog "Modo Meu" - uma espécie de diário online (www.modomeu.com).

"Eu precisava escrever uma redação por dia, então, comecei a falar sobre notícias de moda que lia na internet. Se duvidar, o blog é o meu refúgio até hoje", conta. Três anos depois, a página continua disponibilizada na web. Atualmente, aborda não apenas temas de moda, mas música, design, cinema e eventos. O número de colaboradores também cresceu. Agora são quatro. Apesar de todos os dias produzir textos, Mariana revela que, antes de criar o blog, nunca tinha se imaginado escrevendo. Inclusive, na escola, os professores reclamavam de seus textos, que seriam muito informais. "Diziam que tinha mais criatividade do que formalidade", recorda.

Mas foi principalmente a partir do blog que a estudante de Publicidade despertou a atenção para a sua forma de escrever. A preocupação é tanta que antes de publicar um "post" ela revisa o texto duas vezes. Na internet, a principal vantagem que aponta é que, além de as pessoas escreverem mais, elas têm de pesquisar para escrever, o que se torna um incentivo à leitura.

Ricardo Jorge, professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), comenta que a internet tem feito as pessoas escreverem mais pela necessidade que elas têm de partilhar informações em sites e nas redes sociais. "Do ponto de vista da distribuição, a internet facilita e encoraja as pessoas a quererem escrever", destaca.

O contraponto, acrescenta o especialista, é que quanto mais pessoas escrevem, menos leitores têm. Por isso, existe um público cada vez mais segmentado. Diminui também o próprio tempo que as pessoas têm de serem leitoras. Uma característica que cita é que na internet a escrita tende a ser mais concisa. "As redes sociais pedem certo grau de agilidade, tanto na escrita quanto na leitura", explica.

Ainda assim, esclarece o professor, essas novas modalidades de escrita não suplantaram outras, pelo contrário, só agregam. "Independentemente da existência das novas mídias de comunicação, os adolescentes continuam lendo Harry Potter, Cinquenta tons de cinza etc", afirma. Ricardo Jorge frisa que a internet não suplantou a leitura e a escrita em papel ou suporte de jornal.

Linguagem

Para Maria Helenice Araújo Costa, professora do curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (Uece), é incontestável a redução no tempo de comunicação que a internet propicia. Nela, as pessoas se falam, praticamente, em tempo real. Contudo, lembra que o espaço físico continua o mesmo.

A diferença é que, no mundo virtual, as pessoas criam a ilusão de que não só o tempo está sendo compartilhado, mas também o espaço. "Vivemos, metaforicamente, no mesmo espaço virtual, este objetivado pela tela", diz. A especialista esclarece que essa situação acaba interferindo na cognição, representando o espaço de modo diferente.

LUANA LIMA
REPÓRTER

Livros são lançados na internet

Diferente dos livros tradicionais, os digitais possuem vasto material multimídia, com texto, fotos, vídeos, infográficos e até animações Foto: Viviane Pinheiro

Novidade que vem ganhando cada vez mais adeptos são os livros digitais. O jornalista Eduardo Sona, de São Paulo, foi o primeiro brasileiro a lançar um "livro vivo", como vem sendo chamado pelos profissionais da área, pelo iTunes, da Apple. Ele conta que queria produzir livros digitais, só não sabia qual formato digital utilizar. Quando a Apple lançou a ferramenta iBookAuthor encontrou o caminho para colocar a sua ideia em prática.

Como já possuía vasto material multimídia - texto, fotos e vídeos -, o jornalista conta que foi fácil e rápido organizar tudo e lançar o seu iBook. No caso, o "Guia do Mochileiro40tao apresenta Veneza", que conta com versão em inglês e espanhol. De fevereiro para cá, o livro já teve mais de 4,5 mil downloads.

Em relação aos livros de turismo tradicionais, Sona destaca que a vantagem do digital é a interação com mapas, fotos e vídeos. "No livro, deixo disponível os principais links relativos a serviços e atrações em Veneza", salienta. Ele acredita que é só uma questão de tempo para que o digital ocupe espaço maior na preferência dos leitores, principalmente, os mais jovens.

"O importante é aproveitar esse novo espaço criado no mercado digital, onde os autores podem publicar os seus trabalhos e distribuí-los da forma que melhor convier", ressalta. O jornalista optou por distribuir o livro gratuitamente, como forma de promover no exterior o seu projeto Mochileiro40tao. A estratégia está dando certo. Prova disso, é que já tem um público nos Estados Unidos que diariamente acessa as suas matérias e vídeos.

Com a internet, as pessoas ganham um espaço para mostrar as suas ideias. Espaço que há alguns anos não existia. Sona acrescenta que essa democratização é importante para as pessoas mostrarem os seus talentos. "O blog e o vblog são linguagens sensacionais que estão disponíveis para qualquer um. Para aquele que domina o idioma e a arte do texto, é uma ótima chance de começar a ter fãs e seguidores. Para isso, basta criar um simples blog e ter ideias diferenciadas", recomenda Sona.

Ricardo Jorge, professor de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca que nunca se publicou tanto livro digital como ultimamente. O especialista diz que têm pessoas que escrevem um livro a partir de textos publicados em blogs e sites. Após reunir todo o material e envolver alguns raciocínios o transformam em livro, que conta com a vantagem de já ter sido experimentado pelo público.

Virtual

O editor web do Diário do Nordeste, Daniel Praciano, é outro que aproveitou o aplicativo gratuito da Apple para lançar dois livros digitais. O primeiro, a partir de sua monografia. O segundo, sobre uma viagem que fez neste ano, para o sul do País, chamado "Gramado e Canela", com muitas fotos. De 6 a 18 de novembro, o livro já teve 190 downloads.

Praciano explica que o aplicativo facilita para que a pessoa faça o seu livro. "Você tem um formato pronto, a partir daí é só adaptar como achar mais interessante. Se torna mais simples e barato para pequenos autores lançarem o seu livro", resume.

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