Memória

Insegurança e descaso ameaçam identidade urbana

Mesmo com a proteção, por meio de tombamentos, muitos equipamentos seguem sem reparos e definições de uso

Ponte dos Ingleses - tombamento: 1989. Situação: pilastras desgastadas pela força do mar; fiações expostas; madeiras desgastadas; pichações por todo o patrimônio ( Fotos: Fabiane de Paula )
00:00 · 11.06.2018 / atualizado às 07:47 por João Lima Neto - Repórter
Casa do Português - tombamento: 2012. Situação: estrutura metálica do prédio exposta; pilastras de sustentação danificadas; espaço usado como estacionamento; janelas quebradas; estrutura pichada

Quem percorre as ruas e avenidas de Fortaleza não encontra dificuldades para ver equipamentos históricos. O Centro da Capital é uma das regiões com a maior concentração dos patrimônios tombados pelos poderes municipal, estadual e federal. Atualmente, o Município conta com 33 bens em tombamento definitivo.

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Mesmo com a ação do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio histórico-cultural (Comphic), grades de segurança, ventiladores, caixas de som, aparelhos de ar condicionado e até ocupações irregulares descaracterizam a imagem de patrimônios tombados.

O Diário do Nordeste visitou o Teatro São José, a Casa do Português, a Ponte dos Ingleses, a Igreja Bom Jesus dos Aflitos e o Colégio Jesus, Maria e José. Mesmo tombados pelo Município, os cinco equipamentos estão em diferentes condições físicas.

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A Ponte dos Ingleses, na Praia de Iracema, está fechada para reforma desde janeiro deste ano. A interdição do equipamento foi realizada pelo governo do Estado. Pichações, bancos quebrados, instalações elétricas expostas e pilastras corroídas pela água do mar são os problemas mais visíveis a quem visita o ponto turístico. No entorno, banhistas seguem utilizando a Praia como ambiente para lazer. Com orçamento prévio de R$ 19 milhões, o projeto é do arquiteto Fausto Nilo e a reforma terá duração de 10 meses.

O engenheiro Paulo de Tarso, 34, acorda cedo para surfar na região. Segundo ele, o olhar de quem vê a Ponte dos Ingleses do mar é de descaso. "Diariamente, passam barcos com turistas nessa área. É triste. É possível ver bares e restaurante bem cuidados e, ao avistar a Ponte, algo descuidado", conta o surfista.

Saindo da orla em direção ao Centro de Fortaleza, o passado é ainda mais presente nas construções. O Teatro São José, por exemplo, criado em 1914, como alternativa de lazer cultural para trabalhadores que não tinham acesso fácil ao luxuoso Theatro José de Alencar, passa por uma grande reforma.

Originalmente, o Teatro São José possuia 530 lugares, sendo 420 cadeiras na plateia. A estrutura interna era toda de madeira, com delicadas filigranas ornamentando os parapeitos dos camarotes. Na última intervenção, realizada no Teatro em 1994, as cadeiras de madeira foram substituídas por assentos de plástico. Em 2008, o equipamento foi desapropriado pela Prefeitura de Fortaleza, com o intuito de reformá-lo para que passasse a ser o Teatro Municipal.

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Teatro São José - tombamento: 1988. Situação: equipamento passando por obras

Em 2018, quem passa pela Rua Rufino Alencar, encontra obras de restauro e reforma naquele equipamento cultural. Conforme a Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), a construção está com 75% de execução e a conclusão está prevista para agosto deste ano. No local, já foram concluídas as instalações das estruturas metálicas da nova coberta, além do reforço das bases do palco e construção de um novo prédio anexo à edificação principal.

A reforma acabou reduzindo o número de assentos novamente, agora para 370. O novo equipamento será dotado de salões multiuso, cafeteria, área de convivência, camarins e prédio administrativo com banheiro.

Antes de iniciada a obra de reforma, foram realizadas prospecções pictóricas nas janelas, portas, balaústres, colunas e paredes, em diferentes substratos: madeira, ferro e alvenaria, além de minucioso estudo no piso e nos rebocos. Fora da versão original, o Teatro São José ainda receberá um compartimento secreto de encenação, novo piso e uma coberta leve, resistente, com isolamento termo-acústico, com telhas de cerâmica em estilo colonial, seguindo o padrão das existentes no prédio.

Os trabalhos de prospecções pictóricas de reboco e de piso foram realizados no Teatro São José com o objetivo de analisar e conhecer a estrutura original da edificação antes da criação do seu projeto de restauro. Atualmente, estão sendo executadas as instalações do mezanino (camarotes em madeira) do Teatro, que recebem piso de madeira e guarda-corpo, além de acabamentos no prédio anexo e restauração da fachada do prédio.

Lar

A 600 metros do Teatro São José, sobrevive, com 103 anos, o prédio da Escola Jesus Maria José. Um levantamento do Município contabilizou 130 famílias vivendo em duas ocupações no equipamento nos últimos anos. As salas de aula da antiga instituição viraram lar. Paredes foram quebradas para prender armadores de redes e portas viraram divisórias de quartos. De Quixadá, Capistrano, Iguatu e Juazeiro do Norte, famílias inteiras se abrigam na antiga instituição de ensino pública.

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Escola Jesus Maria José - tombamento: 2007. Situação: ocupação irregular; estruturas de salas e pátios danificadas; lixo presente dentro e fora do prédio; paredes rachadas

Quem também sofre com os efeitos do tempo, localizado no bairro Damas, é a Casa do Português. O mato alto e as pilastras desgastadas chamam atenção de quem passa pela Avenida João Pessoa. Os proprietários informaram que ainda não têm definição para uso do equipamento, mas que chegaram a fazer a mudança de grades de proteção do prédio.

Em melhor condição se encontra a Igreja Bom Jesus dos Aflitos, no bairro Parangaba. O que destoa do ambiente são os aparelhos de ar-condicionado, as caixas de som e as grades de ferro instaladas sobre as grandes portas de madeiras, pela falta de segurança na região.

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Igreja Bom Jesus dos Aflitos - tombamento: 2008. Situação: equipamentos de som e ar-condicionado espalhados na Igreja; instalações bem pintadas; grades de segurança reforçam as entradas

Fiscalização

Na Capital, a vistoria dos bens tombados é realizada por meio de vistorias periódicas por técnicos da Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Cultural (CPHC), pela Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) e Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor).

Sobre a destinação de uso dos equipamentos visitados, a Pasta da Cultura disse que não realiza projetos e obras em bens tombados de propriedade privada. Técnicos da CPHC e da Secultfor, por outro lado, estão orientam profissionais de Arquitetura indicados pelos proprietários de cada bem. Em nível Federal, todos os bens tombados são fiscalizados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

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