Desafio

Humanização da Saúde: Foco na pessoa e atendimento integrado

Frente as atuais condições do serviço público de saúde, prática aparece como desafio, principalmente no que compete a valorização dos profissionais.

( Fotos: Helene Santos e Fabiane de Paula )
01:00 · 01.09.2018 por Renato Bezerra - Repórter

Acolher, cuidar e gerir, mantendo a perspectiva do olhar centrado no usuário, fortalecendo os vínculos e colaborando, assim, para a redução de suas vulnerabilidades. O conceito de um atendimento humanizado na saúde, contudo, vai muito além da relação entre médico e paciente. A busca por uma melhor qualidade nos serviços se configura na facilitação dos acessos, valorização dos profissionais, melhoria dos investimentos e em práticas cada vez mais integrativas.

Na prática, trata-se de um grande desafio frente às atuais condições do serviço público de saúde. Para a médica e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Paola Tôrres, os resultados dependem, antes de tudo, da boa vontade de todos os atores envolvidos em acreditar e em praticar ações efetivas e contextualizadas, tendo como foco a pessoa e não a doença.

“A pessoa que carrega a doença tem que ser respeitada considerando seu discurso, sua religiosidade, sua cultura e crenças sobre saúde, doença e cura. Enfim, o padrão dessa abordagem é uma relação médico-paciente-equipe multidisciplinar, integradora, respeitosa, plural e compassiva”, afirma.

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A experiência da médica oncologista nessa abordagem começou há mais de 25 anos, quando o tratamento de cânceres de sangue ainda era precário e sofrido, restando a ela o consolo de pacientes e familiares. Assim, conforme diz, pode comprovar a eficácia do atendimento centrado na pessoa e, hoje, mantém projetos de extensão na Universidade que trabalhem a humanização do estudante de medicina, além de desenvolver um trabalho de humanização através de valorização da cultura popular com cordel, repente e cantoria.

Segundo avalia, a aproximação entre profissionais da saúde com os pacientes depende de uma linguagem em que estes últimos possam entender a sua condição e terem a oportunidade de expressar desde os seus sentimentos, como ideias e expectativas de tudo o que acontece a eles e com o seu entorno. 

Nesse contexto, destaca, os impactos são possíveis entendendo que a tônica do tratamento humanizado, embora com prioridade na pessoa do paciente, deve abranger todos os personagens envolvidos no cenário do atendimento. “Isso abrange desde o porteiro até o diretor do serviço. Se todos entendem, que nenhuma atividade humana é isenta de impacto sobre o outro, tudo funciona melhor. O engajamento não pode ser apenas no discurso, tem que ser vivenciado de forma efetiva por todos. Temos que promover uma onda gigante de ações humanizadoras, incessantes, para podermos observar o impacto que isso traz para o atendimento e para saúde de um modo geral”.

Entre as práticas que vão contra a humanização na saúde, ainda segundo Paola Tôrres, estão a má formação profissional, o desvio de verbas públicas voltadas para a saúde e o tratamento dado aos profissionais, que por muitas vezes desumano, acaba refletindo no paciente. “É preciso melhorar em todas as esferas e cenários para conseguirmos uma medicina, que não precisaria ser humanizada, pois ela brota da necessidade mais fundamental do humano: o cuidado. 

Acolhe SUS

No âmbito estadual, o conceito vem sendo trabalhado por meio do Programa Acolhe SUS, conforme preconiza o Ministério da Saúde através da Política Nacional de Humanização (PNH). A secretária adjunta da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), Isabel Cavalcanti, explica que a iniciativa visa a qualificação das práticas do cuidado desde a porta de entrada da unidade hospitalar. O projeto já é colocado em prática no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e no Hospital César Calls, conforme afirma, mas segue em ampliação, passando a englobar, também, o Hospital São José. 

“Com esse projeto a gente pode padronizar uma linguagem acessível, de compressão para o paciente de qualquer nível social, para que ele seja encaminhado para onde ele precisa ir. Por isso o Acolhe SUS trabalha as portarias, para que a recepção, o serviço social, a emergência, a farmácia, o laboratório, todos tenham a mesma linguagem. O paciente será recepcionado, classificado por risco e a partir daí vai ser medida a sua vulnerabilidade. Isso está sendo repaginado dentro da reengenharia de um acolhimento mais humanizado, com delicadeza, solidariedade e avaliando seu risco de forma interdisciplinar e intersetorial”, comenta.

Para esse atendimento integrado funcionar, conforme detalha a gerente do serviço social do São José, Elisabete Amaral, está sendo montado na unidade a figura do articulador de acolhimento. A cada dia da semana, um técnico de nível superior diferente, e de qualquer área da saúde, farão vistorias nas sete portas de entrada do hospital para identificar possíveis barreiras ao atendimento. "Ele vai ver o tempo de espera, a satisfação do usuário, trabalhar na redução do retrabalho, em possíveis alterações de fluxos para melhorar os processos, tudo tendo em vista que o trabalho seja centrado no usuário. Ele deve ser a razão de ser e para ele tem que convergir todo o nosso trabalho, da melhor forma possível, e com isso a gente quer atacar em duas frentes: humanizar o atendimento e qualificar os processos de trabalho", afirma.

O programa de acolhimento da prefeitura com foco na saúde, por sua vez, segue com um trabalho de formação de servidores, através de oficinas de trabalho, em que os profissionais devem montar um plano de trabalho visando melhorar a acolhida dos usuários do serviço. "É um trabalho de reflexão para que eles entendam como o cidadão quer ser atendido, uma metodologia importante porque leva a um conjunto de pessoas a se colocar no lado de lá do balcão, no lugar do paciente", explica Philipe Nottingham, titular da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (Sepog). 

O trabalho teve início nos postos de saúde da Regional V e, conforme Nottingham, deve alcançar todas as unidades de saúde primária do município até o primeiro trimestre de 2019. Para o cumprimento da Política Nacional de Humanização (PHN) na Capital, a coordenadora das regionais de saúde, Aline Gouveia, destaca também o projeto Cuidando do Cuidador, em que os profissionais de saúde são inseridos em práticas integrativas e atividades em prol do seu bem-estar. "Quando falamos de humanização temos que tratar o profissional também, pois aquele que se sente bem a consequência será um melhor atendimento", diz.

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