Reportagem TRANSIÇÃO DE GÊNERO

Homens trans contam como lidam com os dois lados do machismo

01:00 · 10.02.2018

"Acredito que sou mais respeitado agora, sendo homem. O motivo é esse: por ser homem", explana Dominy, de apenas 18 anos, que renasceu como homem transgênero assumido aos 14. Antes disso, o jovem era enxergado como mulher e sentia na pele o machismo que assola centenas - para não dizer todas - de mulheres em todo o mundo. O simples ato de andar na rua se tornava um constrangimento quando tinha uma roda de homens no local. "Eles ficavam assobiando, chamando de linda, nunca gostei disso. Hoje, quando fazem com minhas amigas, eu sempre pergunto se eles perderam alguma coisa", conta Dominy.

A libertação de finalmente poder ser quem é, proporcionou ainda mais a participação em agrupamentos masculinos e a percepção comprovada do machismo enrustido na sociedade, especialmente entre os homens cisgêneros. "Eles querem que a gente siga o mesmo perfil, machista. Quando passa uma moça na rua, se eu não assobiar eles acham que eu sou gay. Passamos por uma transição e alguns acham que pra ser e se sentir homem, tem que carregar esse machismo. Já vi muitos amigos trans multiplicarem essa atitude para se auto afirmarem, é inacreditável", lamenta o jovem.

Caio, Rodrigo e Dominy

Caio, Rodrigo e Dominy dizem que a libertação de finalmente poder ser quem é, proporcionou ainda mais a participação em agrupamentos masculinos e a percepção comprovada do machismo enrustido na sociedade (Foto: Thiago Gadelha)

Para Dominy, poder assumir quem é foi a 'melhor coisa já feita na vida', e, segundo ele, o processo foi muito tranquilo para si. Na família, o machismo também apareceu, e o jovem percebeu rapidamente. "Tenho um avô que, depois que eu me revelei como homem transexual, ele passou a me tratar de forma diferente. Antes de eu me afirmar, ele pedia pra eu fazer serviços domésticos diversos. Desde que me assumi, ele não me pede mais", destaca.

Patriarcado

Isso acontece porque, historicamente, no Brasil, a sociedade é pautada no patriarcado, sistema em que os homens ocupam uma posição central, de acordo com a professora do departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cláudia Oliveira. Para ela, o lugar da mulher sempre foi secundário independente da classe social e elas sofrem uma série de discriminações. "Nós temos uma cultura em que o papel da mulher é considerado menor e desvalorizado, então quando um homem faz transição, eu acredito que eles devam sentir a diferença", relata a professora. Ela sugere, ainda, que os homens trans podem usar a condição de entender como funciona o opressor e o oprimido para tentar desconstruir essa lógica patriarcal.

A desconstrução começa no cuidado, de acordo com Caio Rodrigues, de 19 anos, assumido homem transexual há 1 ano e 5 meses. Usuário assíduo do transporte público, antes da transição, quando ainda era visto como mulher, Caio ficava receoso em um ônibus lotado, com medo de algum homem encostar de forma abusiva. "Hoje eu tenho que ter cuidado ao passar em um ônibus cheio, para não encostar em ninguém, e acharem que estou tentando algo. Sempre quis que alguém tivesse esse pensamento, de você estar em pé em um ônibus lotado e os homens terem a consciência de passar de costas para você (mulher), não de frente. Para as mulheres isso faz uma grande diferença e eu sempre pensei nisso", salienta.

Mudança

Assim como Dominy, Caio também passa pela pressão de ter que agir como a sociedade impõe para provar que é homem, mas, para ele, quando os homens trans se comportam como machistas, esse é um sinal de que eles sempre tiveram essa característica em sua essência, mas só sentiram-se à vontade para soltarem isso quando passaram a serem vistos como homens. "A partir do momento que você tá fazendo a terapia hormonal, não é só o seu corpo que é transformado, muda tudo dentro de você. Tem dias que você tá super grosso e outros que está muito calmo. Mas o seu caráter não muda".

Há 1 ano e 5 meses, Caio viveu a transição de ser identificado como uma jovem vulnerável, com medo de andar nas ruas, para ser visto pelas mulheres como um potencial agressor. Se antes era Caio que atravessava a rua por medo de assalto ou assédio ao ver um homem andando ou pedalando na mesma direção que ele, hoje os papéis se invertem. "Atualmente, se eu tiver andando a pé ou de bicicleta, e uma mulher estiver na rua também, ela desvia, atravessa a calçada. Isso sempre acontece, mas eu entendo, porque já estive na mesma situação" , declara o jovem.

Ser homem proporciona, inclusive, maior segurança em ir e vir de qualquer lugar e em qualquer horário, segundo Caio. "Penso que antes, um ladrão podia olhar para mim e pensar 'uma mulher sozinha, um alvo mais fácil'. Hoje não".

Transfobia

A nova vida que os homens transexuais ouvidos pela reportagem vivem pode parecer algo bom e positivo, mas, para Kaio Lemos, homem trans, presidente da Associação de Homens Trans do Ceará (Atrans-CE) e diretor do Abrigo para Transexuais Thadeu Nascimento, essa aceitação pode ser enganosa.

De acordo com Kaio, o machismo é um comportamento que está impregnado na roupa, na forma de falar e nos traços biológicos e por isso os homens trans se sentem "a salvo". "Eu me sinto seguro em determinadas situações e espaços, por que o machismo tem um alvo, que inicialmente é a mulher. Como eu não tenho traços femininos, eu saio desse alvo nesse sentido. Porém, se essas pessoas sabem que eu sou trans, eu entro no alvo novamente".

Mulheres trans

O medo de assédio, ressaltado pelos três jovens, que assola a comunidade feminina, também atingiu Fran Costa, mulher trans assumida há 4 anos. Segundo ela, antes da transição, a relação com o machismo é interna, em que o fato de ter um órgão sexual masculino carrega uma simbologia e um conjunto de expectativas em torno do genital. "Enquanto um homem cisgênero, eu vivi uma série de privilégios. E a partir do momento que eu assumi minha transição, muita coisa mudou. Isso é um reflexo do machismo por que é a forma que nós passamos a ser vistas".

Ao libertar-se para ser quem sempre foi, Fran foi alvo do machismo no mercado profissional. "Sem dúvida era mais respeitado quando era visto como homem. A questão do respeito ficam comprometida um pouco, por que tem as brincadeiras, os assédios".

Sair de casa requer os cuidados antes não pensados: sempre em grupo e quando não pode, a escolha do que vestir é bem pensada. Roupas claras, para passar o mais despercebida possível. Os assédios são constantes, diários.

Fran relembra que, depois da transição, foi a uma festa de Carnaval onde um rapaz puxou seu braço propondo uma atividade sexual. "O primeiro fato dele me tocar me impressionou, foi algo invasivo. Toda saída publica é a mesma coisa", lamenta Fran. (Colaborou Ana Cajado)

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Como você vive após a transição

"A cada novo dia, mais eu me afirmo como pessoa e acrescento coisas novas à minha cabeça. Diferente de alguns, eu sempre tento não reproduzir o machismo porque já fui vítima também".

Dominy Martins. 18 anos

"Quando eu saio, e as pessoas se referem a mim com o pronome masculino, é muito positivo. Mas ao mesmo tempo, penso: se eu dissesse que sou homem trans, será que eles iam me atender da mesma forma?"

Kaio Lemos. 38 anos

"Eu trabalho como garçom e a forma como os clientes me tratam é diferente. Quando era visto como mulher, se eu atendesse 10 clientes, todos davam em cima de mim. Hoje não, me tratam como amigo".

Caio Rodrigo. 19 anos

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