Greve de motoristas na Capital prejudica 800 mil passageiros - Cidade - Diario do Nordeste

ÔNIBUS

Greve de motoristas na Capital prejudica 800 mil passageiros

10.06.2010

Motoristas, fiscais e trocadores fecharam três garagens, ontem de manhã. Eles prometem fazer o mesmo hoje

No segundo dia de greve de motoristas, trocadores e fiscais de ônibus, em Fortaleza, voltaram a se registrar engarrafamentos nas ruas e avenidas da cidade, sufoco nos terminais de integração do transporte coletivo, pessoas chegando atrasadas no trabalho e nas escolas. Sem falar na lotação sufocante dos ônibus e topiques e o preço exorbitante cobrado por mototaxistas por cada corrida.

De acordo com a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), nos dois dias de paralisação, cerca de 800 mil pessoas foram prejudicados. Não tiveram acesso ao serviço. Ontem a situação ficou ainda mais complicada. Para garantir o movimento, integrantes do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do Ceará (Sintro) paralisaram as garagens das empresas Timbira, São José e Dragão do Mar.

Cerca de 570 ônibus que sairiam dessas garagens deixaram de circular, das 3h da madrugada até as 18 horas, o que corresponde, segundo o Sintro, a um número próximo de 30% da frota de ônibus existente em Fortaleza. Os ônibus das outras empresas circularam de acordo com determinação do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-7ª Região) - de 6h30 às 8h e das 17h às 18h30 (horários de pico), e 50% nos outros horários.

Segundo o diretor de patrimônio do Sintro, Geraldo Lucena, a paralisação foi realizada de forma pacífica, sem nenhum prejuízo material aos veículos. "Nem bloqueamos a entrada das garagens. Os motoristas chegavam e ficavam do lado de fora", ressaltou ele.

Ele ressalta que a medida se deve ao fato de que "as empresas descumpriram o acordo feito antes da greve. Essa foi a única forma de garantirmos que haverá a greve. Os empresários estão assediando moralmente os grevistas, ameaçando demissões", afirmou Lucena. Hoje, os grevistas prometem voltar a fechar garagens.

O diretor técnico do Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus), Dimas Barreira, disse que o fechamento das garagens prejudica os que desejam trabalhar.

Outras movimentações marcaram o segundo dia de greve. Mais de 250 motoristas e trocadores da Timbira realizaram uma manifestação em frente à garagem da empresa e saíram em passeata pelas ruas da cidade até a sede do Sintro. Os grevista garantem ainda que estão seguindo as determinações do TRT-CE de manter em circulação 70% dos veículos.

ENQUETE
Usuários reclamam

Lúcia Helena Silva
49 ANOS
Dona-de-casa
No primeiro dia, cheguei às 6h e peguei ônibus somente às 8h. Hoje, não estou conseguindo nem me aproximar da fila

Zuila da Conceição Silva
77 ANOS
Aposentada
Estão desrespeitando o direito dos mais velhos na hora de pegar a fila. É um absurdo o que estão fazendo conosco

Ivaneide Rodrigues Melo
44 ANOS
Fun. confecção
Vou me atrasar com certeza. Estamos passando por um sufoco, mas eles estão lutando pelos direitos deles

Protesto

570 Veículos deixaram de circular, ontem, devido à manifestação dos motoristas e trocadores em frente às garagens de empresas de transporte coletivo

SUFOCO

Idosos e mulheres com crianças de colo são desrespeitados

O desrespeito às mulheres grávidas ou com crianças de colo bem como os idosos nos terminais de passageiros foi a tônica no segundo dia da greve, que foi ampliada ontem devido a paralisação de três garagens das empresas de transporte coletivo.

"Estou inconformada com a falta de consideração por parte das outras pessoas. Estão reclamando dos motoristas, Prefeituras e empresários por causa da greve, mas ninguém respeita o direito dos outros", desabafou a aposentada Zuila da Conceição Silva, 77 anos, que na manhã de ontem estava retida no terminal do Siqueira. Ela, que pretendia se deslocar cedo para o bairro Papicu, não teve o seu direito de entrar prioritariamente pela porta dianteira respeitado.

"A bem da verdade, esse problema já vem acontecendo há muito tempo dentro dos terminais. Com a greve, ele se agravou mais ainda e ganhou dimensões inaceitáveis", relatou o aposentado Raimundo Felipe de Souza, 65 anos.

Seu Raimundo permaneceu mais de três horas dentro do terminal de Parangaba à espera de um coletivo. "Quando o ônibus chega, procuro me aproximar, mas não tenho como entrar, pois os mais jovens não querem nem saber. Usam da força para subir. Só resta a quem já não é mais moço esperar que mais tarde os ônibus venham menos lotados para enfim seguir caminho". Nem mesmo levar uma criança no colo é suficiente para sensibilizar os mais egoístas.

Por volta das 8 horas, uma mulher que estava aguardando o ônibus da linha Siqueira/José Bastos entrou na fila com uma criança, acabou se arrependendo por causa do aperto, mas não teve mais como desistir do embarque e subiu no ônibus "aos troncos e barrancos".

Eram 7h30, no terminal Antônio Bezerra, e muitos passageiros ainda esperavam, nas extensas filas em pé, por uma vaguinha nos ônibus lotados que paravam por lá. A certeza de todos é que iriam chegar atrasados nos locais de destino, depois de passarem por muito sufoco dentro dos veículos.

No terminal do Papicu, já fora do horário de pico, a movimentação e as filas ainda eram grandes. Às 9h30, o técnico em informática Amauri Silva, de 22 anos, que deveria ter chegado ao trabalho às 8 horas, ainda estava na fila da linha Avenida Dom Luís. Já o bancário Fernando Tavares desistiu de esperar pelo ônibus e pegou um mototáxi. "Eu tenho que chegar 10 horas no trabalho, mas demora, de ônibus, uma hora para chegar lá. Não vai dar tempo".

PACÍFICO

Adesão em massa dos trabalhadores da São José

Desde as primeiras horas da madrugada de ontem, dirigentes sindicais chegaram à porta da garagem da empresa São José, na Rua Cônego de Castro, em Parangaba, a fim de conclamar os funcionários a aderirem ao movimento paredista deflagrado no dia anterior. A estratégia deu certo: a adesão foi de praticamente 100%, segundo avaliação do Sintro.

Um dos dirigentes da entidade, José Carlos Rodrigues, destacou que a paralisação nas empresas foi uma resposta aos empresários, "que descumpriram no dia anterior o que a lei determinou. Era para circularem apenas 70% dos ônibus no horário de pico e 50% nos demais. No entanto, eles colocaram muito mais para rodar, após pressionarem os trabalhadores", acusou.

De acordo com o dirigente, o movimento foi na base do convencimento. "Não obrigamos ninguém a parar. A Polícia Militar veio aqui e constatou isso. A Kombi do sindicato não ficou obstruindo a entrada e saída de veículos", garantiu.

No período de aproximadamente uma hora que a reportagem esteve no local, o movimento foi pacífico e não fechou a porta da garagem.

Com relação a um ônibus que estava circulando com o para-brisa quebrado, Rodrigues disse que "é uma estratégia dos empresários para nos comprometer. Mas, o Ministério Público do Trabalho já está informado de que coletivos depredados durante jogos de futebol no Castelão estão sendo utilizados desde a última terça-feira".

Conforme o Sintro, o número de empregados que cruzou os braços na porta das empresas ontem correspondem aos 30% determinados pela Justiça. "Cabe aos empresários fazer o remanejamento das linhas afetadas, já que estamos num regime que funciona de forma integral", concluiu o sindicalista.

ADALMIR PONTE, FERNANDA DE OLIVEIRA, FERNANDO MAIA, JANAYDE GONÇALVES, LINA MOSCOSO
REPÓRTERES

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