Grande Fortaleza é a 4ª em evasão escolar - Cidade - Diario do Nordeste

EDUCAÇÃO PÚBLICA NO PAÍS

Grande Fortaleza é a 4ª em evasão escolar

16.04.2009

Estudo revela que a escola se apresenta desinteressante para 40% dos jovens brasileiros entre 15 e 17 anos

Pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgada ontem, revela que no ranking das Regiões Metropolitanas Brasileiras, Fortaleza é a quarta pior em acesso à escola na faixa de zero a 17 anos, classificando-se em melhor situação que Porto Alegre, Curitiba e São Paulo. Os motivos apontados por esse público fora da sala de aula são o trabalho (4,67%), a falta de acesso (13,83%) ou não queriam estudar (29,76%).

De acordo com o estudo “Motivos da Evasão Escolar”, na comparação entre 2004 e 2006, a RMF se apresenta também ruim no que diz respeito ao acesso à escola no pré-escolar (de zero a seis anos de idade). Em 2006, último ano pesquisado, ela se encontrava em 5º lugar, com 12,84% no ranking entre as Regiões Metropolitanas Brasileiras.

O número indica uma pequena melhora na oferta de creches se comparado com 2004. Naquele ano a Região Metropolitana de Fortaleza estava em 6º lugar, com 12,13% dos entrevistados.

A oferta de escolas também aumentou na RMF para a faixa etária de sete a 14 anos, estando em terceiro lugar entre as dez Regiões Metropolitanas pesquisadas (Brasília, em 1º lugar; Rio de Janeiro, 2º; Curitiba, 4º lugar; Belém, 5º; Recife, 6º; Salvador, 7º; São Paulo, 8º; Porto Alegre, 9º; e Belo Horizonte, 10º lugar).

A realidade em todo o Ceará se apresenta bem melhor do que os dados da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), Coordenada pelo chefe do Centro de Pesquisas Sociais da FGV, Marcelo Neri, a pesquisa foi realizada para analisar as causas da evasão escolar na visão dos próprios jovens e de seus pais - a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) - e de avaliar a taxa de atendimento escolar - a partir de dados da Pesquisa Mensal do Emprego.

O Ceará encontrava-se, em 2006, em 19ª posição no ranking nacional, em relação à evasão escolar na faixa etária de 15 a 17 anos motivada pela necessidade de renda, ou seja, o jovem abandona a sala de aula para trabalhar, com 21,98% das respostas.

Embora o Ceará tenha melhorado no ranking quando se avalia que o jovem deixa de estudar por considerar a escola desinteressante, a situação ainda é preocupante. Em 2006, o Estado estava na 11ª posição no ranking, com 42,68%, na frente de Amazonas, Rio Grande do Norte, Bahia, Acre, Maranhão, Rondônia, Sergipe, entre outros. Em 2004, encontrava-se na 5ª posição (50,98%), atrás apenas do Piauí, Rondônia, Tocantins e Pernambuco.

Mas, nem tudo é negativo no Ceará, de acordo com a pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. No tocante ao acesso à escola de jovens na faixa etária entre 15 e 17 anos, só tem o que comemorar. Foi o melhor no ranking brasileiro. Os três piores estados em acesso foram Acre, Piauí e Tocantins.

No Brasil

A pesquisa da Fundação Getúlio Vargas revela que a educação brasileira tem que criar novos mecanismos para atrair o jovem para a escola.

Diferentemente do que se pensava, não são o trabalho ou a necessidade de ter renda os motivos mais fortes que estimulam a evasão escolar.

No Brasil, na faixa etária de 15 a 17 anos, enquanto 40,3% dos evadidos deixaram as salas de aula por falta de interesse, 27,1% foram motivados pelo fator renda e trabalho.

Por outro lado, apenas 10,9% deles deixam de estudar por falta de acesso à escola e 21,7% o fazem por motivos diversos, entre os quais a gravidez precoce. O problema do acesso a vagas nas escolas, conforme a pesquisa, é mais presente na faixa etária de sete a 14 anos. Cerca de 29% desse público não está na escola por falta de acesso ou vagas.

Na pesquisa foram formuladas perguntas como “porque não estão na escola; se pela necessidade de trabalhar; por não haver vaga ou escola perto de casa; dificuldade de transporte; ou por que não querem a escola que aí está?” foram feitas aos estudantes ou seus pais. A pesquisa mostra que as perguntas serviram para derrubar mitos como o de que os jovens de comunidades mais pobres deixam a escola entre 15 e 17 anos para trabalhar.

A falta de maior controle na freqüência das crianças atendidas pelo Programa Bolsa Família é responsável por grande parte da evasão escolar entre crianças de até 15 anos de idade. A avaliação é da doutora em Educação, Eloísa Vidal. Para ela, a condicionalidade do programa, que é atrelar o benefício a quem mantém o filho na escola, está sendo ignorada pela grande maioria dos municípios brasileiros.

A educadora e doutora em Educação também acredita que se não melhorar a qualidade dos currículos pedagógicos será muito difícil manter principalmente o jovem dentro da escola. “Tem haver com a gestão escolar com o ambiente saudável, com atividades extraclasse e a integração dos pais e da comunidade”. Para Eloísa Vidal, o tempo dentro da sala de aula no Brasil é insuficiente. São quatro horas diárias, o que no seu entender, compromete a aprendizagem do aluno.

ESCOLAS MUNICIPAIS
Cursos complementares são atrativos

A implantação de atividades extra-classe vem conseguindo reverter os indicadores negativos da evasão escolar nas escolas da rede pública de Fortaleza. Projetos como o Segundo Tempo; Contra-Turno; além de cursos como música, teatro, canto, dança e informática são desenvolvidos nas 420 unidades de ensino da Capital com resultados expressivos, segundo a Secretaria Municipal de Educação.

A coordenador de Ensino Fundamental e Médio da SME, Arlindo Araújo, assegura que essas ações são atrativos a mais para a permanência da criança e jovem dentro da escola. Um exemplo de motivação a mais com os dez cursos instalados nos últimos dois anos é a Escola Mozart Pinto, no Montese. Lá, confirma a diretora Eliane Sampaio, os 920 alunos do Jardim a 9ª Série participam das atividades complementares.

“As dificuldades são grandes, principalmente nos turnos da noite, com a Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde a evasão ainda é alta, com 15%, mas aos poucos estamos revertendo esse índice negativo”, analisa Eliane.

Desde que os projetos começaram, a evasão nas primeiras séries chegou a quase zero, garante. “Nem transferências os pais pedem mais. A concorrência para estudar aqui é grande”, comemora a diretora.

Outro projeto que mantém aluno na escola mesmo sem estar em horário de aulas é o canto coral. Ele começou há um ano nas escolas Aída Santos e Silva (Vicente Pinzón) e Frei Tito de Alencar (Praia do Futuro II). Segundo Araújo, o projeto foi possível através de um convênio entre a Prefeitura de Fortaleza e a Universidade Federal do Ceará (UFC), que encaminhou seus alunos de Música, Teatro e Dança para estagiar nas escolas municipais.

As aulas de canto coral fazem parte de um projeto que aos poucos está envolvendo todas as escolas da Secretaria Executiva Regional (SER) II, sendo que algumas já têm, além de grupos de coral infantil e juvenil, bandas de fanfarra, flautas, hip-hop.

Há três anos, o músico e compositor Manu Kelé, que é vice-diretor da escola Frei Agostinho Fernandes (Praia do Futuro I), ensaia um grupo de canto coral de 23 alunos. Mais recentemente, há cerca de um ano, dois estagiários da Música são responsáveis por ensaiar um grupo de coral com 15 alunos da escola Aída Santos e 12 da Frei Tito de Alencar. No ano passado, esse grupo participou de apresentação junto a Orquestra Eleazar de Carvalho, no Theatro José de Alencar.

Para Araújo, os projetos fora sala de aula são importantes, mas não são os únicos a garantir a freqüência escolar. “É preciso investir na qualidade do ensino e na qualificação dos professores e isso a SME está atenta”, ressalta ele.

Nestas ações, diz, a SME está reestruturando o currículo escolar, buscando investir no cotidiano das comunidades e com o acompanhamento mais de perto dos alunos.

O Município também reforça a importância da participação da família na formação da criança e jovem. Para isso, irá implantar a Rede Municipal de Pais de Alunos. “Isso trará para dentro da escola os pais e responsáveis para que eles sejam parte ativa nessa formação”, garante o coordenador.

CEARÁ
Monitoramento da freqüência é reforçado

A partir do próximo ano, cada sala de aula das 630 escolas da rede pública estadual passará a contar com um diretor de turma. Ele terá a responsabilidade de acompanhar o desempenho de todos os alunos daquela sala, seja nos resultados acadêmicos (notas, trabalhos, dificuldades em determinada disciplina), seja na sua freqüência escolar. O objetivo é diminuir a massificação, reduzir os indicadores da evasão escolar e integrar a escola, família e comunidade.

O projeto é inspirado em programa semelhante desenvolvido em Portugal e com resultados surpreendentes.

O piloto foi implantado nas 51 escolas profissionais do Estado. A partir do próximo ano, irá para toda a rede de ensino. A informação é da coordenadora de Desenvolvimento da Escola, Conceição Ávila, da Secretaria de Educação do Ceará (Seduc). De acordo com a educadora, a escolha das escolas profissionais para iniciar o projeto se deve em razão da evasão nessas unidades serem quase zero e pela necessidade de apreender o metodologia para melhor praticá-la no restante da rede pública. “Para isso, uma técnica portuguesa está conosco nos repassando todas as informações possíveis e acompanhando os primeiros resultados”.

O diretor de turma é um professor escolhido pelos alunos, tendo três horas semanais para desempenhar seu papel de acompanhar a aprendizagem de cada um aluno da turma, além de ser um amigo, um ouvinte dos jovens. “Muitas vezes com problemas que parecem tão grandes, mas que com orientação correta consegue resolvê-los sem tantos dramas pessoais”, diz.

Um exemplo disso, acontece na Escola Estadual de Educação Profissional Ícaro de Sousa Moreira. Lá, os alunos têm em cada diretor de turma um apoio que extrapola os muros da instituição. A iniciativa, argumenta, leva em consideração o desenvolvimento do conhecimento do educando em todas as dimensões. “Além de estabelecer um clima de liberdade e criatividade”, diz Conceição. A idéia, continua ela, é valorizar o jovem para que este adquira autonomia progressiva, espírito crítico, participativo e capaz de assumir direitos e deveres. “O papel dos pais também é fundamental”, ressalta.

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