Fortaleza é a terceira Capital em acidentes de trânsito - Cidade - Diário do Nordeste

PESQUISA

Fortaleza é a terceira Capital em acidentes de trânsito

30.01.2008

AMC e Detran reconhecem gravidade, mas questionam atualidade do estudo realizado de 1994 a 2006


Fortaleza ocupa a terceira posição entre as Capitais brasileiras em número de acidentes de trânsito. A informação faz parte do Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008, divulgado ontem pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) em parceria com os ministérios da Justiça e Saúde. São Paulo está em primeiro lugar e Belo Horizonte em segundo. Brasília ocupa a quarta colocação e o Rio de Janeiro, o quinto lugar.

Os dados levaram em consideração o período entre 1994 a 2006 e constatam o aumento de 19% no número de mortes no trânsito em todo o País. A pesquisa se baseou em atestados de óbitos registrados nos 5.564 municípios e dados do Ministério da Saúde. Os números saltaram de 29.527 para 35.146 em 12 anos.

De acordo com a pesquisa, a maioria dos acidentes é causada, marcadamente, por falhas humanas (64%) como dirigir sob o efeito de álcool e substâncias entorpecentes, trafegar em velocidade inadequada e sem a devida experiência; seguida por problemas mecânicos (30%) e pela má conservação das vias de tráfego (6%).

No caso dos acidentes causados por jovens, dois fatores comportamentais se destacam entre as causas de acidentes fatais: a falta de experiência em manejar veículos e a imaturidade física e psicológica associada a comportamentos de risco. Em Fortaleza, a faixa etária dos 18 aos 29 anos está em segundo lugar entre as mortes no trânsito, com 25,29%. A faixa dos 30 aos 59 anos registra 47,47% dos óbitos. Os dados são da Autarquia Municipal de Trânsito, Serviço Públicos e de Cidadania de Fortaleza.

O estudo alerta as autoridades de trânsito da cidade e não é para menos. De acordo com a AMC, as motos são as campeãs em acidentes com feridos. Foram 3.875 registros em 2007. Os atropelamentos estão em primeiro lugar - 101 ocorrências com mortes.

A pesquisa da Ritla analisa que, mesmo dispondo de um sistema orgânico de planejamento e controle de trânsito, é cada vez mais crescente o grau de complexidade que envolve as ações relacionadas às políticas, ao planejamento e à organização do trânsito no Brasil. “Se, de um lado, os governos, nas diversas instâncias da administração pública, têm investido em conhecimento, tecnologias e infra-estrutura para dar organicidade e segurança ao trânsito em todo o País, por outro, o aumento vertiginoso da frota de veículos no Brasil impõe permanentes desafios à ação governamental”.

Fortaleza tem uma frota de 520 mil veículos. O presidente da AMC, Flávio Patrício, reconhece que os dados são alarmantes, mas questiona a atualidade dos mesmos.

Para ele, o que mais pesou para a Capital cearense foi o período de 2005 a julho de 2006 quando a cidade ficou sem a fiscalização eletrônica. “Houve a mudança de gestão e o fim do contrato com a Trama e Fotossensores, responsáveis pelos semáforos e lombadas eletrônicas. Somente em julho de 2006 é que um novo contrato foi feito e tudo se normalizou”, explica ele. Esse período, ressalta, foi de pico alto no número de acidentes. Foram 266 mortes. A partir de julho, afirma, o número reduziu.

VIOLÊNCIA

Casos se multiplicam no Frotão


No último dia 17, o metalúrgico Bruno Roberto da Silva Santos, de 20 anos, saia da Rua Solon Pinheiro em direção a Avenida Dique de Caxias, no Centro de Fortaleza, pedalando sua bicicleta. Quando chegou no cruzamento foi atingido por um ônibus que ultrapassou um carro e foi em cima dele. Resultado: foi arrastado até a Igreja Coração de Jesus e teve fratura na bacia e fêmur.

Ele relata que ainda foi agredido pelo motorista do ônibus que o xingou de bêbado e irresponsável. “Eu ando devagar, observando a sinalização que, por sinal, é falha”. Bruno vai ficar internado no IJF por três meses. Ainda espera o laudo da perícia para entrar com representação contra o motorista.

Para o metalúrgico falta muito para diminuir a violência do trânsito em Fortaleza. “Principalmente para os ciclistas. Não existem ciclovias e a sinalização é muito precária”, diz.

O caso de Bruno é apenas um dos muitos exemplos da violência do trânsito na Capital que chegam ao Frotão diariamente. No ano passado, segundo a assessoria de imprensa do IJF, três mil pessoas foram atendidas vítimas de atropelamentos, com 65 mortes.

O motociclista é campeão de acidentes. Foram 5.573 em 2007, com 44 mortes. Já as quedas de bicicletas registraram 1.811 casos, com três óbitos. Os atendimentos por colisão de veículos chegaram a 2.251, com 33 mortes. Queda com carro em movimento foram 214 registros.

Dos 187 mil atendimentos em geral, de janeiro a dezembro de 2007, 13.239 são causados pelo trânsito.

Basta percorrer as enfermarias do Frotão para se deparar com histórias e mais histórias de vítimas do trânsito. O motorista particular Valdemir Goés conta que no dia 16 de janeiro, às 7 horas, saiu de sua residência no Jardim Iracema em direção ao trabalho guiando sua moto. Quando estava na Rua Fenelon Bomilcar foi surpreendido por um rapaz de bicicleta que atravessou seu caminho.

“Eu o atingi em cheio, mas graças a Deus não aconteceu nada a ele”. Como conseqüência, Valdemir está internado no IJF com o braço quebrado e o baço perfurado. “Eu acho o trânsito de Fortaleza muito violento sim. É preciso que os motoristas tenham mais consciência e educação respeitando a sua vida e a da outro. Eu poderia ter morrido ou matado o rapaz”, observa.

Os casos no IJF também são de pessoas do interior do Estado. O aposentado Francisco Soares, de 85 anos, é um deles. Foi atropelado por um motociclista embriagado na BR-116, em Mombaça. Teve fratura exposta e está no hospital ao lado de sua filha, Maria José. “Foi um susto muito grande para a família”, conta ela.

PACOTE DO GOVERNO

Multas devem ficar 60% mais caras

É no intuito de reduzir essas estatísticas sangrentas da pesquisa Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008 que o ministro da Justiça, Tarso Genro, deve anunciar amanhã, 31, pacote a ser enviado ao Congresso Nacional contendo medidas mais rigorosas de combate à violência no trânsito.

Entre as mudanças a serem propostas, estão o aumento médio de 60% nos valores das multas e a reclassificação de certas infrações — algumas graves passariam a gravíssimas e outras médias, a graves. Essa última medida a incidir principalmente sobre as faltas envolvendo excesso de velocidade.

Além disso, o Ministério da Justiça deve incluir no pacote critérios mais rigorosos na fiscalização de motoristas de ônibus e caminhoneiros que, com as novas regras, passariam a trafegar por, no máximo, quatro horas seguidas, com exigência de descanso de meia hora.

Detran-CE

Apesar de alguns adiantamentos feitos pela imprensa, o superintendente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE), João Pupo, declarou não confirmar nenhum deles. “Estamos esperando a redação exata da medida provisória. Só com ela em mãos, podemos dizer algo. Eles (o Ministério) ficaram de nos mandar até amanhã (hoje)”.

Apesar de não conhecer o texto, o superintendente disse acreditar que os novos critérios devem garantir, sem sombra de dúvidas, maior rigidez no cumprimento das leis brasileiras de trânsito. E por conseqüência, acrescentou Pupo, reduzir tanto o número de acidentes como o de mortos e feridos.

Ainda de acordo com o superintendente do Detran-CE, os maiores problemas do trânsito no Estado são ausência de capacete entre os motoqueiros, especialmente nos municípios do Interior; a associação álcool e direção; e a falta de habilitação dos condutores.

Questões que poderiam ser resolvidas, entende João Pupo, com a municipalização do trânsito, que hoje atinge apenas um quarto dos municípios. “Nessas regiões, o número de acidentes é bem menor”.

COTIDIANO

15 pontos críticos registram mortes

Quem trafega pelas avenidas e ruas de Fortaleza, seja motorista, ciclista ou pedestre, sabe bem os perigos que corre com as imprudências cometidas no trânsito. De acordo com a Autarquia Municipal de Trânsito, Serviço Públicos e de Cidadania de Fortaleza (AMC), 15 vias fazem parte dos pontos críticos da Capital. Eles são considerados locais onde os acidentes com mortos e feridos amedrontam e preocupam.

De janeiro a dezembro do ano passado, 11 pessoas morreram vítimas do trânsito na Avenida General Osório. Foram 396 acidentes que deixaram 298 feridos. Outro ponto de maior registro de ocorrências é a Avenida Presidente Castelo Branco. Lá 14 pessoas morreram e 180 ficaram feridas.

Além das duas primeiras, a BR-116 (de jurisdição federal) também fez vítimas. No total, 338 casos com 14 mortes.

A Avenida Washington Soares, de administração estadual, registrou 483 acidentes, com quatro mortes.

Na Avenida Paranjana foram 383 ocorrências, também com quatro óbitos. Em sexto lugar no ranking das mais perigosas está a Avenida José Bastos, com 346 registros. Em sétimo, a Avenida dos Expedicionários, com 256 casos e quatro mortes. Em oitavo lugar, a Avenida Bezerra de Menezes, com 333 vítimas, das quais, duas mortes. Em nono lugar, a Avenida Santos Dumont, com 349 casos. A Avenida Godofredo Maciel ocupa a décima posição, com 258 acidentes. Da décima-primeira a décima-quinta estão por ordem, as avenidas 13 de Maio, Perimetral, Costa e Silva, Abolição e Coronel Carvalho.

O ranking, segundo a AMC, obedece a critérios da Unidade Padrão de Severidade que aplica determinado peso ao acidente, de acordo com sua gravidade. Para acidentes com óbitos é aplicado peso 13 e para feridos, peso 6.

Lêda Gonçalves e Ludmila Wanbergna
Repórter

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