INFRAESTRUTURA

Feirinha da Beira-Mar deve passar por requalificação

Ainda que seja tombada, os comerciantes sofrem com a falta de infraestrutura do local, como iluminação

Dedé vende artesanato na feirinha da Avenida Beira-Mar há 37 anos ( Fotos: Reinaldo Jorge )
01:00 · 06.01.2018
Entre as muitas atividades, destaca-se a venda de castanhas, um dos setores considerados mais rentáveis comparado a outros itens

"Não existe cidade mais linda que Fortaleza", comenta Dedé, comerciante da feirinha da Beira-Mar, em um sorriso que transmite certeza. Atrás dele, as cores fazem festa e se destacam, nos pratos, esculturas, chaveiros, porta-retratos, dentre outros itens que estampam o nome e os símbolos da capital cearense.

Cartão-postal da "terra do sol", a partir das 16 horas, a amada Beira-Mar fica ainda mais movimentada e bonita: há 38 anos, a feirinha desponta do chão e chama a atenção pela movimentação e qualquer olhar para o lado revela um lojista apresentando seu produto aos turistas que passeiam.

Apesar da grande movimentação, poucos sabem que a feira é tombada como Patrimônio Histórico Cultural Imaterial de Fortaleza. Em 1995, o local foi reconhecido como área de lazer que contribui para as atividades turísticas da capital. "Quando um bem é tombado, significa que ele tem um lugar de relevância, sentidos e significados que formam a identidade de Fortaleza. A feira é uma das referências que as pessoas têm da cidade", explica o gerente de pesquisa e educação patrimonial da Secretaria Cultural de Fortaleza (Secultfor), Adson Pinheiro.

A feira é reconhecida mundialmente, e lá pode ser percebida, facilmente, a cultura da cidade. Além disso, é um local de memória e difusão do artesanato cearense.

Contudo, apesar da importância, o local carece de uma infraestrutura que proporcione comodidade aos comerciantes e turistas. "Recebemos pessoas do mundo inteiro e não temos um banheiro, nem para mulher, nem para homem. Não tem sequer uma boa iluminação", reivindica o permissionário Dedé. Para iluminar, todos os comerciantes pagam semanalmente uma bateria de luz, custo que sai a R$100 por mês. Parece pouco, mas somado a outras despesas, o valor pesa no bolso de quem paga.

A estrutura, apenas de ferro, sem nenhuma cobertura, é outro agravante. Durante o período de chuvas, a situação se torna ainda mais complicada, segundo Samara, que vende saídas de banho. "Quando chove, a gente tem que cobrir com algum material e depois tirar. Seria melhor se fossem barracas já cobertas", sugere a comerciante.

Revitalização

Segundo a Secretaria Regional (SER) II e o secretário de Turismo de Fortaleza, Alexandre Pereira, todo o sofrimento deve cessar em breve. Está prevista para começar em maio deste ano, com conclusão em 24 meses, uma revitalização em toda a Avenida Beira-mar, contemplando também a feirinha.

Segundo o Alexandre Pereira, é interesse da Secretaria de Turismo de Fortaleza (Setfor) dar atenção à feira, ainda que não seja responsabilidade do órgão, e sim da SER II. Dessa forma, o local receberá novos estandes e também capacitação aos permissionários. "Eu entendo que, depois desse novo modelo, é importante que o turismo se envolva pautando a feira como um equipamento turístico", disse.

O secretário ressalta, ainda, que a atividade é uma das dez atrações que estão no roteiro de grande parte dos turistas. "Por isso, com a requalificação da Beira-mar, a feira vai receber uma atenção especial, daremos uma nova roupagem ao equipamento. A estrutura deve ser mais moderna e leve", afirma Alexandre.

A intervenção prevê, ainda, o alargamento e a urbanização de todo o passeio da Avenida Beira-Mar, no trecho que corresponde a Avenida Rui Barbosa até a Rua Tereza Hinko.

Concorrência

São, aproximadamente, 600 cidadãos em busca do mesmo objetivo: vender artefatos para (sobre)viver. Carlos Alberto da Silva, comerciante de pulseirinhas que ele mesmo faz, é um deles. Já são 36 anos de feira e, segundo ele, nunca esteve tão difícil. "É muita despesa e pouca venda. Antigamente, a concorrência era menor e o material, mais barato. Com a crise, está bem difícil, a gente vem trabalhar porque tem que levar sustento para casa", relata.

Carlos gasta quatro passagens diariamente para ir de Caucaia para a Beira-Mar. "É longe", enfatiza. Além disso, para economizar, ele comprou a própria bateria, que leva nas costas todos os dias. "A gente economiza, mas lasca as costas. Faz parte do trabalho", comenta aos risos. Segundo Carlos, mesmo na alta estação, o apurado é, em média, um salário e meio, devido às despesas. "O ano passado foi muito difícil. A concorrência é grande, trabalhamos com a incerteza. Tem dias que vende bem, outros vende nada", lamenta o comerciante.

Para Maria Alves, 65 anos, sendo 38 de feira, a situação também está difícil. Os olhos pequenos atrás dos óculos brilham ao falar do trabalho de rendeira, que começou aos 7 anos, em Aquiraz. São pelo menos cinco dias para produzir uma peça com todo o carinho. Maria fala, com tristeza, sobre a crise econômica que tanto tem afetado suas vendas. "Se não tiver com uns cinco anos que já vem caindo, é por aí. Ontem foi um dos dias que eu saí sem vender nada. A alta estação já foi boa, mas de uns três anos para cá, caiu", lamenta.

A comerciante atribui a queda não só a crise, mas também à desorganização e concorrência da feira. "Antes, você só podia colocar um produto específico na sua banca. Hoje, uma pessoa coloca uma coisa, noutro dia coloca outra, e hoje estou muito prejudicada com tanta renda atrás de mim e ao meu lado", relata.

(Colaborou Ana Cajado)

Beira-Mar

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