Câncer infantojuvenil

Falta de conhecimento médico atrasa diagnóstico

Detectar o câncer de forma mais precoce possível é, ao mesmo tempo, determinante e maior desafio para cura

01:00 · 11.09.2018 / atualizado às 08:44 por Theyse Viana - Repórter
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A chance de cura do câncer infantojuvenil em países desenvolvidos é de 70%, segundo a oncologista Sandra Prazeres, índice que cai para 50% no Ceará, "porque as crianças chegam ao serviço muito tarde" ( FOTO: HELENE SANTOS )

Thomas, em plenos e enérgicos 7 anos, "vivia trepado" no pé de caju de casa, em Paracuru, a 87km de Fortaleza. Em agosto do ano passado, caiu. Magoou o tumor tão tímido quanto ignorado na virilha, e voltou do hospital com o diagnóstico-bomba de uma doença que, segundo os médicos, carregava silenciosa desde que nasceu: sarcoma, um tipo raro de câncer. É sobre a identificação tardia, grande preocupação dos médicos em relação à neoplasia, que o Setembro Dourado lança luz, como Mês de Combate ao Câncer Infantojuvenil.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Brasil, a neoplasia é a primeira causa de morte (8% do total) por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos, e a estimativa é de que 2018 encerre com 12.500 novos casos, 2.750 no Nordeste. No Ceará, a média de atendimentos por ano no Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS), referência em tratamento nas regiões Norte e Nordeste, é de 200 crianças e adolescentes - cerca de 120 deles novos pacientes.

Diagnóstico

Os casos em crianças, aliás, "vêm crescendo de forma assustadora" no Estado, segundo observa a Sandra Prazeres, médica oncologista e gerente técnica da Associação Peter Pan (APP) - entidade sem fins lucrativos que oferta atendimento médico e social a crianças e adolescentes com câncer, por meio do Centro Pediátrico do Câncer (CPP), anexo ao Albert Sabin.

A pediatra aponta a detecção precoce como maior desafio. "Os sinais são confundidos com os de viroses da infância. Falta conhecimento dos profissionais de saúde, eles precisam se preparar para diagnosticar corretamente. As universidades focam no câncer adulto, o da criança acaba não sendo explorado", critica, explicando a importância do tratamento imediato.

"As células malignas nas crianças crescem de uma forma extremamente rápida. Quanto mais retardo no diagnóstico, maior possibilidade de metástase, mais invasivos os tratamentos e maiores as complicações. A droga altera células saudáveis também, levando ao comprometimento cardíaco, defesas baixas, infecções e até o óbito. O diagnóstico precoce é urgente", salienta a oncologista.

Assim como para Thomas, que chegou a ser "desenganado pelos médicos" à mãe, Claudiane Silva, 29, mas hoje progride com o tratamento; a identificação do linfoma de Hodgkin, tipo comum de câncer, tardou para Pablo, que há dois dos 10 anos de vida peregrina do Município de Monsenhor Tabosa até Fortaleza para o tratamento. "Os médicos sempre diziam tudo errado. Ele perdeu peso, força nas pernas, tinha febre direto, não comia? E eu tentando medicar uma coisa que eu nem sabia o que era", relembra a mãe, Jovelina dos Santos, 24.

As idas e vindas para os 12 ciclos de quimioterapia, aliás, pararam a vida dos dois: Jovelina não trabalha, e Pablo, que deveria estar no 5º ano do Ensino Fundamental, não estuda. Casos como o dele, segundo a presidente do Lar Amigos de Jesus, Irmã Conceição Dias, são comuns. "Essa é uma das maiores dificuldades de quem enfrenta um tratamento assim, porque, como eles estão fora de casa, não têm rotina certa", lamenta.

INFO

Lar

Tendo acolhimento como palavra-chave, o Lar, entidade que assiste diariamente mais de 40 crianças com acompanhantes vindos do Interior e de outras regiões do País para tratamento no Ceará, é mantido com recursos de doações e com a ajuda de 70 voluntários e 22 funcionários. A Instituição, localizada no bairro Joaquim Távora, na Capital, oferta 94 leitos, seis refeições, transporte dos pequenos ao hospital, assistência social e psicológica e, aliado e além disso, "muito amor".

"Toda pessoa doente precisa de autoestima. Tentamos, com lazer e várias atividades, tirar o foco da doença, do tratamento. Poupar as famílias e fazê-las sentirem amadas", declara Irmã Conceição, descrita pela servidora pública Fernanda Lopes, 45, como "um anjo que nunca se vê de cara feia". Recém-chegada de Ibicuitinga, a 190km de Fortaleza, a mãe de Eduardo, 12, garante que, além de remédios, o afeto é fundamental no tratamento da leucemia do filho.

"Começou como uma virose, em abril agora. Ele foi internado três vezes e a médica mandava pra casa, não sabia o que era. Com 12 anos, ele chegou a pesar 24kg. O mais difícil é ir pra hospital, o tratamento? Mas esse acolhimento todo dia, a alegria das pessoas, as atividades ... Isso e Deus é o que sustenta a gente", afirma, com gratidão - e esperança - em cada sílaba.

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