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Escola de Música do Ancuri está abandonada

Dentre as alternativas para salvar a Escola, há a possibilidade de parcerias com entidades privadas

O prédio encontra-se completamente comprometido ( Fotos: Fabiane de Paula )
01:00 · 07.09.2018
O local precisa passar por uma grande restauração; mesmo com o desgaste físico, é visitado por ex-alunos e curiosos

A Escola de Música do Ancuri (EMA), em Itaitinga, a 32 km de distância de Fortaleza, encontra-se deteriorada há mais de uma década. Está entre os equipamentos com pouco ou nenhum investimento. Os três andares da edificação já receberam milhares de alunos e, hoje, se mantêm de pé com um fio de esperança de ainda servir à comunidade.

A escola foi inaugurada em 1989 pelo Frei Wilson Fernandes. Ele comprou o terreno quando o bairro ainda era pouco habitado, e não obteve nenhuma escritura na negociação. A gestão municipal, em meados de 2010, identificou que Wilson detinha, então, um local público e deu-se início a uma discussão que durou muito tempo e que acabou transformando um local de arte num cenário sombrio.

Segundo o secretário de Cultura e Turismo do Município de Itaitinga, Cícero Gonçalo da Costa, atualmente, a questão gira em torno de espera. "Há um edital da Secretaria de Cultura do Ceará, que ainda deve analisar o nosso projeto. Mas ele está avaliado em R$1 milhão. Nossa secretaria não tem recursos. O valor é realmente muito alto", destaca o gestor.

Convênio

Ainda de acordo com Cícero, há também a probabilidade de um convênio com empresas privadas. Dois engenheiros da Casa Civil de Itaitinga visitaram o local, já neste cenário de deterioração, e discordaram em relação a uma possível requalificação. "Tem quem ache que o espaço não sirva mais, tem quem ache que ainda tem jeito. O que não podemos fazer é cruzar os braços, pois sem cultura quem sofre é o povo", declara o secretário.

O pedreiro Flaviano de Oliveira, que ajudou a construir a escola e viu tantos jovens lá se formarem em música, dança e teatro, olha com tristeza para a realidade atual do equipamento. Ainda traz na lembrança o que funcionava em cada sala. "Aqui ficava a biblioteca, ali, era onde o frei dormia", revela. Os muros pichados por siglas da facção criminosa Guardiões do Estado (GDE, guardam lixo e entulhos. As janelas espaçosas são invadidas por fortes ventos.

Diferencial

"Era para voltar ao normal, para as crianças e adolescentes terem onde aprender esse diferencial", desabafa o pedreiro. A educadora social Fabíola Guedes desenvolve trabalho com arte, usando uma pedagogia especial na Associação Santo Dias, que sobrevive com verbas de um Programa de Desenvolvimento de Área (PDA). Para ela, é uma pena o descaso com a cultura em todos os âmbitos.

Oficinas

"A gente continua realizando oficinas das mais variadas, mas já atingimos um público de 5 mil; hoje são pouco mais de 2 mil pessoas atendidas. Estamos perdendo nossos jovens para a droga e isso dói", enumera. (Colaborou João Duarte)

Entrevista com Wilson Fernandes*

O espaço foi ocupado por quem faz uso indevido

Como foi o processo de se desfazer dos cuidados com o "Castelo"?

Quando eu obtive o terreno, em 1989, eu o construí sem escritura, sem nada. Depois vieram me dizer que eu estava no limite de um terreno público, onde seria construída uma praça. A própria população foi contra, mas me retirei da discussão e acabaram fazendo a praça na calçada da escola mesmo. O investimento sempre foi nulo. É só você olhar como é que cuidam da cultura nesse País. O Brasil já virou cinzas.

Ainda acredita na requalificação da Escola de Música?

Isso aí demanda um projeto muito grosso, de muito investimento. Sei que a comunidade do Ancuri, sobretudo crianças, estão carentes de um serviço como este. Mas eu não tenho mais essa pretensão, sinceramente. Eu fiz o que eu pude. Quis fazer algum bem e deixar para essas pessoas. E consegui. Mas não vejo mais isso como uma possibilidade. O espaço ocupado por pessoas que fazem o uso indevido, e não sou eu quem tem a competência de mudar isso.

Em outro espaço, não seria possível voltar a oferecer os serviços?

Onde? Na minha casa? Não tem mais espaço para todo mundo. A gestão atual da cidade até prometeu que, se a escola voltasse, eu continuaria sendo o diretor. Mas diretor de quê? De escola de drogas? Sobre essa música eu não entendo.

*Idealizador da construção da Escola de Música do Ancuri

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