Acesso à saúde

Encontro discute desafios na Cardiopatia Congênita

01:00 · 12.06.2018
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O encontro contou com a presença de crianças que, atualmente, estão com cardiopatia congênita controlada ( FOTO: HELENE SANTOS )

Quem vê o pequeno Paulo Roberto, 4, correndo e brincando não imagina as batalhas já vencidas em sua vida. Diagnosticado com Tetratogia de Fallot , um tipo de cardiopatia congênita, o menino foi operado aos dez meses de vida, reparando, assim, a má formação no coração. Paulo faz parte das mais de 32 mil crianças já nascidas com a doença no Ceará, mas, infelizmente, o desafio do acesso integral à saúde permanece para a maioria delas.

O alerta foi tema de discussão do 1º Encontro de Família e Amigos da Criança com Cardiopatia, realizado, ontem, na Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). O evento, organizado por mães de crianças que enfrentam a doença, foi promovido em alusão ao Dia Nacional de Conscientização da Cardiopatia Congênita, celebrado hoje, com a proposta de alertar, também, para a importância de um diagnóstico precoce. O encontro contou com a presença de crianças que, atualmente, estão com a patologia controlada.

"Tive a sorte de descobrir ainda na gestação, no exame morfológico, então quando ele nasceu foi direto para a UTI, onde foi acompanhado. Mas já conheci várias mães que não descobriram a tempo e perderam seus filhos nessa caminhada, por isso estamos lutando para que esse exame passe a ser obrigatório na rede pública de saúde", afirma a autônoma Natalia Rios, 33, mãe de Paulo Roberto.

Segundo estimativas do Instituto do Coração da Criança e do Adolescente (Incor Criança) - ONG que atua em prol do atendimento e acolhimento de crianças cardiopatas e suas famílias por meio de acompanhamento médico - cerca de 1.159 bebês nascem cardiopatas por ano no Ceará e destes, apenas 49% recebem o devido acompanhamento médico. Atualmente, segundo o fundador da instituição, médico Valdester Cavalcante, pelo menos 300 aguardam na fila pela reparação cirúrgica na rede pública de saúde. Uma espera que pode demorar até cerca de um ano nos casos considerados menos complexos.

Para além da realização do procedimento, no entanto, é preciso garantir o tratamento em seu contexto geral, conforme o médico. "Quando a gente fala de acesso e de atendimento integral é o cuidado que vai além das fronteiras do hospital. A gente precisa cuidar dessa criança depois que ela sai do hospital. Não é só o diagnóstico precoce, e sim quando eu operar a criança e ela vai precisar de mais procedimentos, ter esse cuidado integral, e aí você associa o psicólogo, o fisioterapeuta, a terapia ocupacional", explica o médico.

Parceria

A esperança em garantir mais procedimentos cirúrgicos e reduzir o tempo de espera está numa parceria firmada entre a Incor Criança e a Prefeitura de Fortaleza para a realização de cirurgias no Hospital São Camilo, a depender da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) finalizar os últimos detalhes.

A medida deve garantir, conforme estima Cavalcante, 150 procedimentos a mais por ano. No momento, os procedimentos pelo SUS são realizados no Hospital de Messejana. "Esse é o foco desse trabalho: melhorar o acesso da cirurgia e aos poucos melhorar o acesso do ponto de vista geral". As demandas apontadas pelas mães das crianças com a doença foram registradas numa carta que deve ser entregue a prefeitura nesta semana. "É um momento singular quando essas mães se reúnem para dizer o que querem. Política pública se faz assim, ouvindo as pessoas", diz.

Disfunção causada na formação do coração durante a gestação, a cardiopatia congênita acomete 1 a cada 100 crianças nascidas no Mundo, segundo a American Heart Association. Dados da Sociedade Brasileia de Cardiologia revelam nascer em torno de 23 mil crianças com problemas cardíacos por ano. Dessas, em torno de 80% necessitarão de alguma cirurgia.

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