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Emojis se transformam em linguagem no meio digital

Uso de pictogramas teve início nos anos 1990, mas chega ao auge hoje. Símbolos preenchem lacunas de comunicação no mundo online, ajudando a expressar emoções que a escrita, por si só, não consegue

01:00 · 09.09.2017 por Vanessa Madeira - Repórter

Na Internet, um emoji vale por mil palavras. Uma pequena mão com o polegar levantado virou símbolo mundial de aprovação. A felicidade ganhou um rosto, a "carinha" redonda, amarela e sorridente. Já a decepção ficará imortalizada como um coração vermelho partido ao meio. Esses e outros pictogramas chegaram para atender uma necessidade de comunicação no mundo digital: expressar emoções que a escrita, por si só, não dá conta. Com usos (quase) infinitos, fazem as vezes de objeto, gesto, expressão facial, sentimento. Hoje, quase 20 anos após sua criação, tenham se transformado em uma verdadeira linguagem no meio online.

Embora tenham atingido o auge somente agora, os emojis surgiram na década de 1990, no Japão. No entanto, para entender o que deu origem aos pictogramas surgiram e por que eles se tornaram tão populares, é preciso voltar no tempo. Mais precisamente, à época das cavernas, conforme explica o professor Júlio Araújo, do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará. Especialista no estudo das relações entre a linguagem e a tecnologia digital, Araújo destaca que os emojis não diferem muito das pinturas rupestres de eras atrás.

emoji

"Podemos considerar que a linguagem humana é um produto cultural e os emojis fazem parte desse produto. São tentativas semióticas de o homem expressar o que ele quer", afirma o docente. "Se observarmos bem as pinturas nas cavernas, vemos padrões discursivos que representam tentativas de construções de sentido. Por isso, não podemos pensar nos emojis como algo que seja circunscrito unicamente aos padrões de interação digital, embora seja com ela que eles emergem", completa.

Expressões

Na era digital, os emojis - e, antes deles, os emoticons - ajudaram a preencher lacunas de comunicação dos internautas, seja para pôr fim a mal entendidos nas interações por escrito, seja para complementá-las, assumindo a função dos gestos e das expressões faciais nas conversas cara a cara. "As gerações desenvolveram maneiras de expressar emoções pela musculatura da face. É o que registra para o seu interlocutor o que se está sentindo", explica Elisângela Teixeira, professora de Linguística e coordenadora do Laboratório de Psicolinguística e Ciências Cognitivas da UFC.

Segundo ela, já que a comunicação à distância é híbrida, ou seja, mistura fala e escrita, acabou-se desenvolvendo representações em forma de imagem dos músculos da face. "Isso acontece para que se saiba que aquilo que é verbal está acoplado a uma expressão de sentimento. Por isso, existem figurinhas que vão expressar nojo, alegria, gratidão, irritabilidade", acrescenta.

Apesar de defender o uso dos emojis nas interações online, Elisângela ressalta que os pictogramas nem sempre são facilitadores da comunicação. Mesmo que sejam utilizados para evitar ou desfazer mal-entendidos, estão sujeitos à má interpretação ou à não compreensão, dependendo das pessoas envolvidas no diálogo.

Adequações

"Para ser facilitador, o interlocutor tem que entender a mensagem. Existe uma série de emojis que não tem comunicação imediata. Se tem um custo de processamento, já não é fácil", diz a professora. "Você precisa se apropriar do código. Se está falando com uma pessoa que não faz uso, isso vai gerar ruído de comunicação com certeza", conclui a professora.

Júlio Araújo lembra que é preciso saber quais são os contextos adequados para se usar os pictogramas. "A língua e os padrões de uso da língua são como um guarda roupa. É necessário que se tenha noção de se contextualizar. Não vou tirar do armário uma roupa própria de praia para ir a uma missa ou uma aula. Assim como também não vou para a praia como quem vai para uma festa. O emoji é desvantajoso quando é usado inadequadamente. Quando não, tem um efeito maravilhoso", observa.

Críticas

Ambos os especialistas ainda rebatem outros aspectos negativos relacionados ao uso dos emojis. Críticos apontam para um empobrecimento da língua no meio online e para possíveis prejuízos que a utilização excessivo das imagens poderia acarretar ao desenvolvimento da linguagem em crianças e adolescentes.

"Utilizar emojis não significaria dizer que a escrita perdeu força semiótica nos meios digitais. Ao contrário, eles vieram aliar. Não se pode achar que a escrita alfabética nos coloca na posição de superiores e não há pesquisa que respalde que o uso dos emojis vai gerar prejuízo linguístico nas futuras gerações", destaca Júlio Araújo.

Elisângela Teixeira reitera. "A linguagem é natural, adquirida sem esforço. Mesmo que exista outra forma de comunicação, as crianças e os adolescentes vão continuar falando bem e desenvolvendo a linguagem da mesma maneira, porque ela é intrínseca à nossa espécie", salienta a professora.

Fique por dentro

Símbolos foram criados no Japão na década de 90

A criação dos emojis é atribuída ao japonês Shigetaka Kurita. Na década de 1990, ainda nos primórdios da Internet, ele elaborou o primeiro pacote de pictogramas, que incluía 176 símbolos envolvendo temas como tempo, comidas e bebidas, humor e emoções. O intuito de Kurita era criar imagens que acrescentassem sentimentos às mensagens escritas. Os emojis originais estavam disponíveis apenas nas cores preto e branco. Em 1999, os pictogramas começaram a adquirir diferentes tons. Desde o fim do ano passado, os primeiros símbolos desenhados por Kurita fazem parte da coleção do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

Já os antecessores dos emojis, os emoticons, surgiram nos anos 1980. Foram criados pelo americano Scott. E. Fahlmann, professor universitário que idealizou a utilização de dois pontos e parênteses para identificar os tons das mensagens online e acabar com mal-entendidos. Textos seguidos pelo símbolo ":-)" indicariam tom de piada, enquanto os acompanhados por ":-(" seriam considerados textos de tom sério.

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