Diversificação

Em festivais, quadrilhas juninas discutem temáticas sociais

As quadrilhas juninas que animam os festivais cearenses se renovam ano a ano para trazer ainda mais beleza

Coreografias, figurino e musicalidade representam bem mais que a estética artística e trazem à tona diversas temáticas sociais, principalmente da região Nordeste ( Foto: Kléber A. Gonçalves )
01:00 · 09.06.2018 por Nícolas Paulino - Repórter

Da cabeça, uma ideia escorre para os braços e as pernas, que se mexem junto a outros corpos no mesmo movimento e cativam os olhares de quem assiste ao espetáculo. As quadrilhas juninas que animam os festivais cearenses se renovam ano a ano para trazer ainda mais beleza para as quadras. No entanto, coreografias, figurino e musicalidade representam bem mais que a estética artística e trazem à tona diversas temáticas sociais, principalmente da região Nordeste, como a miséria, a violência, a religiosidade do sertanejo e a disputa pela água.

As mãos juntas em oração na reza do sertanejo terão lugar especial na quadrilha Brisa do Sertão, de Canindé. Segundo o presidente Robson Alves, o tema "Sertões de Milagres e Fé" explora a religiosidade do nordestino por meio de dois exemplos conhecidos: as hóstias consagradas transformadas em sangue na boca da beata Maria de Araújo, em Juazeiro do Norte; e a saga da menina cearense perdida no Amazonas, que teria reconhecido seu salvador na figura de São Francisco, ao adentrar o santuário de Canindé.

"O tema é mais ligado à força, à coragem, às orações do sertanejo, ao mesmo tempo misturadas com a alegria e o colorido do São João", destaca o também noivo da quadrilha. O grupo entrará na arena com 16 pares. "A gente procura colocar em quadra o impacto e os sentimentos. Nossas pesquisas têm que ser a fundo para passar o máximo possível de informações para o público".

O estudo de campo da quadrilha Arraiá do Conselheiro, de Quixeramobim, deu passos até Petrolina, em Pernambuco, para conhecer a fundo a história do Rio São Francisco, tema do enredo "Opará: Das lágrimas de Iatí nasce um rio de esperança". Uma lenda indígena conta que o Rio Opará, o "encontro do rio com o mar", brotou das lágrimas de saudade da índia Iatí, após a partida de seu noivo para a guerra com outra tribo indígena.

Mais que o resgate da memória, o grupo propõe uma reflexão atual sobre a situação do São Francisco, como explica o presidente Sávio André. "Trazemos a importância do rio para os ribeirinhos e a necessidade de preservação. Hoje, ele é um rio poluído, com construções indevidas às margens. Tentamos dar um alerta para não perdermos esse patrimônio", sublinha, destacando a importância da Transposição para o Ceará e outros estados.

Com o tema "Minha manifestação cultural também é política", a Quadrilha Girassol do Sertão, de Russas, trabalha políticas sociais relacionadas às minorias, como a comunidade LGBT. Durante as apresentações, o grupo homenageia a travesti Dandara dos Santos, espancada até a morte no ano passado, em Fortaleza, e traz como rainha uma mulher transexual, Cíntia Freitas.

Já a tetracampeã cearense e bicampeã brasileira Junina Babaçu destrincha a seca que assola o Nordeste com o tema "A força que nunca seca". Porém, em vez de mostrar os lamentos, a quadrilha explora histórias de resistência dos filhos da estiagem, que precisam lutar contra a fome e a miséria, bem como a força das mulheres do cangaço. Para o grupo, o nordestino é um povo que inspira o Brasil.

Na avaliação do presidente da União Junina do Ceará, Paulo Sérgio Morais, a mistura de arte com realidade é até natural. "Hoje, os grupos têm um caráter social muito forte. Ano passado, tivemos grupos discutindo a ditadura. Nesse ano, temos algumas mostrando a colheita, o clima, personagens e histórias, mas sempre voltadas para o Nordeste", afirma.

Reflexões não vão faltar; afinal, são cerca de 130 quadrilhas associadas à União. E, além dos temas, elas buscam evoluir também na forma, com a atuação de profissionais cada vez mais qualificados e especializados, como figurinistas e coreógrafos. "Há grandes eventos que automaticamente exigem um trabalho mais esmiuçado. De 10 anos pra cá, tem investimentos estrondosos. Algumas quadrilhas gastam até R$300 mil no São João", diz.

Programação

E o circuito de apresentações já começou. Até domingo (10), a TV Verdes Mares promove o Arraiá do Ceará - Alegria e Tradição, no estacionamento do Shopping Iguatemi. O evento começa, diariamente, às 18h. Ao todo, 20 grupos juninos se apresentam. A quadrilha campeã representará o Ceará no São João do Nordeste, festival realizado pela Rede Globo, em Pernambuco, onde será escolhida a melhor quadrilha junina do Nordeste.

O evento conta com cidade cenográfica, apresentação de forró pé de serra, praça de alimentação com comidas típicas e arena com arquibancadas para 1.600 pessoas. As apresentações das quadrilhas também são transmitidas ao vivo em painel de LED. A entrada é gratuita. O Arraiá do Ceará é uma realização da União Junina do Ceará.

A Capital também recebe a programação do "Fortaleza Cidade Junina", festa apoiada pela Secretaria Municipal da Cultura (Secultfor), que se desenrola durante os meses de junho e julho. Às sextas-feiras, o público tem apresentações de quadrilhas juninas no Mercado dos Pinhões. Aos sábados, o Mercado da Aerolândia recebe forró pé de serra. Aos domingos, o Passeio Público tem atrações especiais para crianças, como apresentações de quadrilhas infantis.

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