Entrevista com Camilo Santana - Governador

'É necessária uma intervenção nas fronteiras do Brasil'

O chefe do Executivo estadual afirmou que o Estado deve criar um banco de dados, por meio do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará, para acompanhar o futuro dos jovens após o Ensino Médio
01:00 · 19.05.2018 por João Lima Neto - Repórter

O que o senhor encontrou na Saúde, Educação e Segurança quando entrou em 2015?

Nós já tínhamos um volume crescente de investimentos nessas áreas por meio do governador Cid Gomes. Foram áreas que receberam verbas durante oito anos do Governo Federal. Ampliação da estrutura de Saúde com os hospitais no interior, policlínicas, especialidades odontológicas, consórcios, entre outros. O desafio nosso foi diante uma crise financeira do País manter o que já existia e ampliar. São áreas que a cada ano aumentam por meio da demanda da população. Por exemplo, na Saúde, quando você não tinha uma policlínica onde uma pessoa pudesse fazer um exame para diagnosticar algum problema, quando não tinha mamografia ou tomografia, fomos lá e implantamos os Centros Regionais que ofertam oportunidade a toda população. Consequentemente, a demanda aumentou. Isso exigiu que o governo garantisse o atendimento para todos. Com uma gestão fiscal bem feita focamos em prioridades. Houve Estado que cortou o investimento de Saúde e Segurança, o Ceará não.

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O que mais preocupou nas contas do Estado quando o senhor entrou?

Havia um desequilíbrio grande do que o Estado gastava em Saúde com que a União repassava. Enquanto o Ceará gastava 80%, a União repassava 20%. Se fomos pegar 10 anos atrás era até equilibrado. Conseguimos alguns recursos importante em macro, média e alta complexidade para colocar profissionais em hospitais regionais. Conseguimos credenciar parte do Samu. Quando eu assumi, o governo não recebia quase nenhum centavo do Governo Federal que é uma política federal. Na Educação, o Estado foi o que mais conseguiu credenciar escolas de Tempo Integral no País. Somos também o Estado com o maior volume com construções de novas escolas. O grave problema é na Segurança. Praticamente, não recebi nenhum centavo de recurso.

Como avalia a persistência dos problemas, mesmo com aumento de investimentos anualmente?

Vejo que essa questão da Segurança ultrapassa as fronteiras do Estado. O problema da violência hoje ainda ocorre muito pelo tráfico de drogas que se organizou no País inteiro. Isso não sou eu que estou dizendo, especialistas também. O crime comanda no Rio de Janeiro, São Paulo e Região Norte. Eu sempre defendi uma política nacional e integrada com estratégias, recursos e metas. Só vamos conseguir dá um salto maior nessa área de Segurança quando o País enxergar a necessidade de fazer uma intervenção nas fronteiras do Brasil. Uma legislação mais rigorosa, uma articulação com o Judiciário para ofertar resultados mais rápidos. No Ceará, fizemos tudo com estudo. Uma das dificuldades era o cenário baixo de policiais, principalmente civis. Precisávamos contratar mais pessoal. Precisávamos de uma estratégia de batalhões ostensivos, como o Batalhão de Policiamento de Rondas e Ações Intensivas e Ostensivas (BPRaio). Estamos trabalhando com mais tecnologia com a implantação de câmeras mais modernas. Todas ações de estratégias estão sendo baseadas com estudos científicos. Atualmente, até a rota de um policial pelos bairros é feita de forma estratégica.

Como o senhor avalia a Inteligência da atual Polícia?

Estamos na luta pelo Centro de Informação Integrada. É um processo. Tivemos resultados importantes nos primeiros anos. O ano de 2017 foi muito ruim. Estamos voltando a ter indicadores melhores em 2018. Considero que seja uma luta que vamos continuar a fazer investimentos. Sempre na dinâmica de corrigir e aperfeiçoar, além de integrar as forças de Segurança dentro da Pasta como em outros poderes. Nós integramos hoje um sistema inteligente de leitura de placas de veículos com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE) e a SSPDS. Somos o primeiro Estado do Brasil que identifica todos os veículos roubados que passam pelas estradas. O nosso modelo foi exemplo em reunião da PRF pelo superintendente. A gente precisa trabalhar com tecnologia e inteligência. Vamos receber agora mais duas aeronaves. São equipamentos que possuem visão noturna e infravermelho. Isso significa fazer investimentos.

Como o senhor avalia a Segurança nos primeiros meses do ano?

Nós temos reduzido indicadores de assaltos e furtos. Estamos prendendo mais gente, drogas e armas. Todos esses indicadores estão sendo melhores do que anteriormente. Homicídios, nós começamos ruim. Em abril conseguimos reduzir, como maio também tem tendência (de queda) no Ceará e na Capital. Apesar de que eu sempre questiono os homicídios quando se compara com outros estados do Brasil. O Ceará coleta o dado diferente de como se contabiliza em São Paulo. Lá, chamam de "mortes a esclarecer". Aqui não. Encontrou um cadáver, a gente computa. Teve uma chacina, computa também. Lá morreu cinco é um episódio. Aqui se um cara passar 30 dias no hospital ferido por bala e morrer a gente conta como homicídio. Não é padrão entre os estados fazer isso. O critério da nossa coleta é diferente. É preciso ter um sistema padronizado para que todos os estados tenham a noção do que está se divulgando. Tem estado que nem divulga. Os estados do Nordeste são até mais próximos. Esse é um grande desafio. O Governo Federal tomou uma iniciativa importante de criar um Ministério Segurança Pública e criar um Plano Nacional de Segurança Pública. O problema da Pasta Nacional é que ainda não deram condições para eles trabalharem. Eu tive em contato por telefone com o ministro Raul Jungmann (Segurança Pública) até para liberar nossos recursos do Fundo Penitenciário. Eu iniciei um presídio de segurança máxima e estou querendo construir os presídios regionais. Não estou conseguindo fazer, pois a Secretaria não me dá autorização para iniciar as obras. Estou com o dinheiro para investir e não conseguindo iniciar as obras. Eu fui cobrar, ele disse que estava em reestruturação. Tinha sido aprovado a reestruturação do Ministério. Cobrei também o Centro de Inteligência do Nordeste. Já disponibilizei três prédios ao Ministério. As três áreas são prioritárias. Gasto com investimento não deve ter limites. É obrigação nossa manter salários em dia, reajustar a reposição salarial e pagar fornecedores em dia. O mais importante para mim é aumentar a capacidade de o Estado investir. Estava em um encontro, na última segunda-feira em São Paulo, com empresários. Eles estavam impressionados como conseguimos investir 13,9% da receita corrente líquida. O Brasil não chega a 5%. É essa capacidade que nos faz conseguir investir em Saúde, Segurança e Educação.

O Estado está acompanhando os jovens quando saem das escolas?

A gente está querendo lançar, por meio de uma consultoria internacional, um big data através do Ipece, para termos números. Queremos integrar os alunos inscritos em creches com estudantes do Fundamental, com alunos do Ensino Médio e saber quando eles terminam os estudos e para onde vão. Com esse programa "Nem Um Aluno Fora da Escola" estamos integrando os sistemas dos municípios com o Estado. Hoje, quando o aluno termina o Ensino Médio, não temos acompanhamento. A ideia é criar políticas para que os jovens tenham oportunidades e não caiam no crime.

Qual será o cenário das três áreas até o fim do ano?

É claro que não vamos conseguir zerar tudo. Na Educação, nós demoramos 10 anos para conseguir reduzir de 16% para 10% a evasão. O esforço em nosso exercício é que a cada ano a gente possa reduzir. Se conseguimos até 1% já é avanço. Quando se tem uma taxa alta é mais fácil reduzir nos primeiros anos. Nossa meta é zerar. Na Saúde, lançamos um programa de cirurgias. Credenciamos 34 instituições. Estamos dobrando os leitos do Instituto Doutor José Frota (IJF)com um novo espaço. O objetivo é acabar com a fila em corredores. Com a crise econômica, a demanda com a Saúde aumenta. As pessoas estão deixando de pagar plano para usar o SUS. Nós crescemos 16% as cirurgias no ano passado. Acontece um período chuvoso, logo os hospitais lotam por pessoas com virose. Saúde e Educação são áreas interligadas. Precisam ser trabalhadas juntas.

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