festejos juninos

Do nobre ao popular, dançar quadrilha é sinônimo de diversão

O som caipira de antigamente deu espaço para batidas produzidas com novos instrumentos

As quadrilhas a cada dia ganham em beleza e estética, apesar de conservarem a tradição
00:00 · 10.06.2017
As quadrilhas juninas passaram por uma renovação no figurino e na coreografia ( Foto: Kid Júnior )

Da corte francesa à cultura popular brasileira. Até chegar em solo nacional, onde perpassou do estilo nobre para o caipira, a "quadrille" envolvia uma única camada da sociedade: a elite europeia. Quatro casais nobres ritmizavam a contradança de passos miúdos e movimentos sutis. À época, no Século XVIII, em Paris, o estilo era apreciado exclusivamente por membros da aristocracia francesa reunidos em luxuosos salões palacianos.

Esse cenário começa a ganhar novos rumos com a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, no ano de 1808. A Família Real, contam os historiadores, foi a responsável por introduzir a dança em terras locais. O que outrora antecedia os bailes da Corte, no Rio de Janeiro, durante o Império, trouxe consigo a possibilidade de envolver mais pessoas, independente da classe social.

"Não se sabe precisamente quando e como esta dança migra para as classes populares e para a zona rural. Deduz-se, logicamente, que tenha sido pelo trânsito de serviçais dos referidos bailes, que após 'participarem' destes momentos a partir da sua observação e fixação em memória, reproduziam-lhes em suas vivências particulares", explica o professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Aterlane Martins, justificando ainda que não há registros históricos que comprovem tal afirmação.

Com a popularização das quadrilhas, foram incorporadas marcas regionais na dança. Diferente do bailado francês, sem limitação de pares, os brincantes juninos encenavam casamento matuto ao som de músicas caipiras. Desde então, a dança antes direcionada para os nobres, parecia ser cada vez mais abraçada, sobretudo, pelo povo nordestino, que até hoje, aguarda com ansiedade a chegada do São João, onde a animação e o amor dão o tom da festa.

Tradicional

Fiéis ao estilo matuto ou estilizado com referências contemporâneas, o Estado soma mais de 300 grupos filiados a Federação das Quadrilhas do Ceará (Fequajuce) e a União Junina do Ceará. Em Fortaleza, a 'Zé Testinha' desde 1976 contagia o público sob a inspiração do cangaço nordestino. Sanfona, zabumba e triângulo dão ritmo à melodia das canções de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Trio Nordestino que constituem o repertório da quadrilha junina.

Cavalheiros com indumentárias e chapéus de couro representando o cangaceiro do sertão. Damas vestidas com tecido de chita e renda. A coreografia mantém os passos tradicionais, como o caminho da roça, grande roda e parafuso. Após o casamento dos noivos, os homens assumem o papel de brincantes com roupas xadrez, deixando para trás a figura de cangaceiro.

Com essas marcações, a Quadrilha 'Zé Testinha' resgata nos arraiais a memória tradicional do movimento junino. Segundo o coordenador-geral do grupo, Reginaldo Rogério, a opção de preservar o estilo vem da "educação cultural" influenciada pelos pais. "Eu nasci na cidade, mas passava férias no sertão. Lá, eu via o vaqueiro buscar o gado, a água no açude, o povo comer farinha com rapadura. Por isso é importante manter a tradição e não descaracterizar o caipira".

Estilizado

Por outro lado, as quadrilhas juninas passaram por uma renovação estético-coreográfica, o que para o historiador Aterlane Martins trata-se de uma "espetacularização" do movimento. "A cena espetacular, montada a partir dos festivais competitivos, cobrou dos grupos de uma qualificação maior, a sua profissionalização. Assim, eles tiveram que se reinventar ano a ano, apresentando 'a novidade' para que pudessem se diferenciar dos demais e lograr êxito nos concursos", observa.

O som caipira deu espaço para batidas produzidas com novos instrumentos. Bateria, baixo e violino foram incorporados aos chamados regionais, uma espécie de banda que produz o repertório de músicas. Artistas plásticos idealizam a cenografia. Diretores de teatro conduzem o casamento matuto. Estilistas desenham o figurino carregado de pedrarias e bordados de encher os olhos. Bailarinos de dança contemporânea entram em cena para, além de estilizar os passos tradicionais, criar movimentos coreográficos.

"É um trabalho de investigação do corpo e da mente. É preciso buscar inovação e criatividade de acordo com o tema. Eu tento explorar todas as possibilidades dos movimentos que posso fazer com o corpo e com o próprio figurino", ressalta Mara Alexandre, rainha da Quadrilha Ceará Junino, conhecida pelo domínio de saia e gestos, além do olhar marcante.

Preparação

Temática definida, repertório organizado. Roteiriza o casamento matuto, monta a coreografia. Desenha, costura e borda a indumentária. Sapatos, chapéus, arranjos e acessórios já estão no ponto. O espetáculo, enfim, vai começar. Dos ensaios para os arraiais, as quadrilhas juninas se preparam durante seis meses para que o trabalho construído seja então revelado aos olhos do público presente nos festivais.

Contudo, quem vibra com o espetáculo pronto, desconhece os detalhes dos bastidores. "A gente tem que abdicar de momentos em família, viagens e festas nesse primeiro semestre porque o final de semana todo é dedicado aos ensaios do grupo", diz Aglailton Gomes, 25, brincante da Ceará Junino.

A preparação para a temporada junina requer ainda muito fôlego, isso porque a rotina chega a ser exaustiva como relata a quadrilheira Graciele Senhorita, 24. "São horas intensas de ensaio. Então a gente sente dores musculares, as vezes muito cansaço até, mas o amor pelo São João e pelo movimento sempre fala mais alto", conclui.

Entre os brincantes da festa, o substantivo parece traduzir o verdadeiro significado do período junino. "Eu vivo e respiro São João. E mesmo ele fazendo tão parte de mim, eu ainda não consigo definir em palavras o que ele representa na minha vida. Eu só posso dizer que o sentimento mais forte é o amor, ele me acompanha em tudo", opina o projetista e marcador da Ceará Junino, Seixas Soares.

Essa mistura de sentimentos deve se juntar a expectativa do grande público para descobrir quem será a campeã do Arraiá do Nordeste, promovido pelo Sistema Verdes Mares em parceria com a União Junina. Nos dias 16, 17 e 18 de junho, às 19h, no estacionamento do Shopping Iguatemi, 21 grupos disputam a vaga para representar o Ceará no Festival da Globo Nordeste.

Entre eles, a Quadrilha Junina Babaçu que, no ano passado, trouxe o título para o Estado. Em 2017, o grupo leva às arenas o tema "Baião Made In Sertão". "Vamos para o arraiá com muita garra e animação", garante Emanuelle Freitas, noiva do grupo. (Colaborou Felipe Mesquita)

Mais informações:

União Junina do Ceará

Rua do Rosário, 77, Sala 1001

Centro, Fortaleza-CE

Contato: (85) 98852.6552

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