habitação

Do desabrigo, faz-se uma casa

A antiga Escola Jesus, Maria e José, no Centro, tombada como patrimônio histórico em 2006, acolhe, hoje, mais de 80 famílias ( Foto: JL Rosa )
01:00 · 03.05.2018

Por trás das vigas destruídas, dos tijolos fora do lugar e das grades enferrujadas, a estrutura da antiga Escola Jesus, Maria e José, no Centro, vira casa. A arquitetura, cujas bases ainda resistem à destruição, acolhe, hoje, mais de 80 famílias - que, "se não for isso, não têm pra onde ir", segundo afirma o coordenador do espaço, Carleon Silva, 26. Ele e mais 200 pessoas se mudaram de outra ocupação no bairro Conjunto Ceará, com auxílio do movimento Unidade Classista, e, desde janeiro deste ano, ressignificam as entranhas de um prédio abandonado pelo Poder Público, apesar de tombado como patrimônio histórico desde 2006.

"É questão de necessidade, mesmo. Até a gente conseguir nossa casa, é viver aqui ou na rua", sintetiza Carleon, reconhecendo que o local "está deteriorado, comprometido, mas ainda é mais seguro pra viver" - menos quando entram na conversa os dois filhos, de 5 e 13 anos, que, por falta de opção ao lado do pai, vivem com a avó paterna em um quartinho alugado a R$ 500, no Conjunto Ceará. Dinheiro demais para espaço de menos.

> Imóveis abandonados geram insegurança

Na ocupação do prédio vizinho ao Colégio Justiniano de Serpa, cada sala de aula se transforma em duas ou três "casas" - algumas já sem teto, com passagem livre para chuva e mosquitos. Numa delas, moram Rita Maria, 50, e os cinco filhos, desde que "faltou serviço" e ela foi despejada do lugar pelo qual pagava, mensalmente, R$ 400 para viver. "Depois disso, me acolheram. Aqui em casa, quando chove, todo mundo vai pra cima da mesma cama, que é coberta. E eu, às vezes, fico do lado de fora, acordada... Porque qualquer coisa, chamo os meninos", relata, aparentemente acostumada com uma realidade que pode, literalmente, desabar sobre a cabeça a qualquer momento.

O temor é compartilhado pela dona de casa Camila de Sousa, 31, também despejada com o marido e os filhos de 7, 9 e 12 anos por não conseguir recursos para pagar o aluguel no Parque São José. "O dono da casa avisou às 10h que a gente tinha até 17h pra ir embora. Agora, viver aqui é uma forma de ter um teto e, ao mesmo tempo, lutar pela nossa moradia. Se Deus quiser, vamos conseguir logo", sorri, deixando uma ponta de tristeza perfurar a fé quase inabalável. "A gente aqui é muito unido, sabe? Uma família. Querendo ou não, quando se separar, vai sentir falta".

Vistorias

Questionada sobre a realização de vistorias no local, a possibilidade de realocação das famílias e o projeto de construção da Casa da Fotografia no espaço da antiga escola, a Secultfor não respondeu até o fechamento desta edição. Conforme levantamento Plano Plurianual (PPA) de Fortaleza, que prevê investimentos na Capital entre 2018 e 2021, o déficit habitacional da cidade é de 80 mil moradias, dado já ressaltado pelo Diário do Nordeste em dezembro do ano passado.

Segundo o texto do PPA, "a cidade abriga 856 assentamentos precários, distribuídos em todas as regionais, onde estima-se a existência de 248.258 imóveis, 34,97% do total de domicílios de Fortaleza, com cerca de 271,5 mil famílias sem moradia digna, infraestrutura domiciliar adequada, oferta adequada de equipamentos e serviços públicos de qualidade nem acesso a oportunidade de emprego e renda".

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.