mobilidade urbana

Desrespeito às faixas exclusivas é a 4ª infração mais cometida na Capital

Embora as ocorrências tenham caído, entre 2016 e 2017, o tráfego de carros pelas faixas ainda é recorrente

Na avaliação do poder público e de especialistas, intervenções que priorizam o transporte massivo, como a delimitação de faixas exclusivas, são alternativas mais baratas e eficazes para qualificar a mobilidade nas grandes metrópoles ( Fotos: Helene Santos )
01:00 · 09.06.2018 por Thatiany Nascimento - Repórter
Conforme a Secretaria de Conservação e Serviço Público, apesar de recorrentes, o desrespeito às faixas exclusivas não chegam a atrapalhar a operação

O ônibus, com cerca de 40 passageiros, segue com uma velocidade média que chega a 30 km/h. A viagem, segundo os usuários, é bem mais rápida pois, o percurso é feito em faixas exclusivas para transporte coletivo. Para passageiros as faixas são sinônimos de agilidade nos deslocamentos. Para motoristas de ônibus, redução dos atrasos em cada viagem. Mas, esse percurso ainda guarda obstáculos. Um dos mais significativos é o comportamental. Após quatro anos de implantação sistemática das faixas exclusivas, condutores de veículos particulares ainda infringem de modo recorrente a prioridade dada aos ônibus, em 36 vias de Fortaleza. Em 2017, a média foi de 8.722 autuações por mês devido à irregularidade. Embora a média de ocorrências tenha caído, se comparado a 2016 – com 11 mil infrações por mês –, esta é a quarta infração mais cometida no trânsito da Capital cearense. 

Se até 2014, a prioridade para ônibus se reduzia a existência dos chamados contra-fluxo em vias como a Av. João Pessoa e a Av. Francisco Sá, em 2018 estes mecanismos estão, de modo integral ou parcial, em 36 vias, totalizando 107,4 km. Av. Presidente Costa e Silva (Perimetral) é a que concentra a maior extensão, com 12 km de faixa. As ruas Pedro Pereira e Castro e Silva têm as menores faixas, cada uma com 300 metros. 

Das 36 vias, somente 15 contam com fiscalização eletrônica. As demais, segundo a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) são monitoradas por rotas volantes. As faixas têm gerado ganhos significativos. Ao analisar os impactos desses mecanismos, a reportagem do Diário do Nordeste</CF> teve respostas quase unânimes. Usuários, motoristas de transporte coletivo, gestores e especialistas concordam: as faixas são alternativas baratas e eficazes na melhoria do transporte público, historicamente atravessado por gargalos. 

Mas, a circulação irregular nas faixas é a quarta infração mais cometida em Fortaleza, explica o superintende da AMC, Arcelino Lima. O desrespeito às faixas perde apenas para: autuações por excesso de velocidade, estacionamento em local proibido e avanço de sinal vermelho. 

“A gente nota que uma melhoria perceptível no ganho de velocidade dos coletivos. Esse ganho substancial para o transporte de massa, o transporte coletivo. E por parte dos condutores de veículos particular sabemos que ainda há desrespeito, embora as autuações venham caindo. É um trabalho contínuo. Nesse momento, nós nem estamos pressupondo que está perto de acabar e nem que vamos parar de fiscalizar. Temos que apostar na conscientização e reforçar que quanto melhor for a utilização (das faixas) mais velocidade os ônibus vão ganhar”, reforça.

Gravidade

A infração que desde 2016 é considerada gravíssima, segundo Arcelino, consiste no tráfego de veículos particulares na faixa “por uma distância maior que a necessário para ele entrar no lote e fazer a conversão”. De forma simples, é o condutor entrar na faixa exclusiva, trafegar por um quarteirão e no quarteirão seguinte permanecer na área prioritária.

Desde janeiro de 2016, com a alteração no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a multa que antes podia ser de R$ 53,20 e R$ 127,29, dependendo da gravidade da infração nessas situações, passou para R$ 191,54 e sete pontos na carteira. As faixas funcionam de segunda a sexta, de 5h às 21h. Aos sábados das 5h às 16 h e aos domingos e feriados, a circulação é livre. 

O superintende da AMC reforça que apesar da persistência desse mal comportamento, “o objetivo da faixa está plenamente atendido”. Em geral, explica ele, nas vias de apenas duas faixas de tráfego há uma tendência maior de desrespeito. 

Questionado sobre os critérios de implantação de fiscalização eletrônica nessas ruas e avenidas, Arcelino explica que “nós estamos sempre interagindo com a Etufor. Nos momentos em que as denúncias do desrespeito são mais rotineiras, nos avaliamos qual medida tomar. Um exemplo é a faixa da General Sampaio. Tínhamos colocado a faixa e notamos intenso desrespeito, com informações passadas pela Etufor. Para reverter esse comportamento, já estamos implantando a fiscalização eletrônica no local”. 

Na avaliação da Secretaria de Conservação e Serviço Público (SCSP), apesar de recorrentes, os índices de desrespeito às faixas exclusivas não chegam a atrapalhar a operação. Pois, de acordo com a Pasta, de modo geral as vias com faixas exclusivas tiveram ganhos de velocidade operacional para os ônibus. 

Resultados 

“Ficou muito mais rápido. Pra quem anda de ônibus, quanto mais benefícios, melhor”, opina a auxiliar administrativa, Priscila Nunes, que todos os dias corta a cidade, no deslocamento leste-oeste, fazendo o circuito trabalho-casa. O fisioterapeuta Pedro David Moraes reitera os ganhos, mas pondera que em certas vias, devido à largura das ruas, é mais complicado para os condutores de veículos particulares. 

Para quem enfrenta a missão de colaborar nos deslocamentos dos 1.090.000 passageiros do transporte coletivo de Fortaleza por dia, segundo a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), os ganhos são expressivos. “Todas essas coisas melhoraram bastante. Faixa de ônibus, ter espaço para bicicletas, tudo isso. A gente se atrasa muito menos agora. Mas ainda tem muito obstáculo. Em algumas ruas você vai ver carros entrando e ficando na faixa”, relata Valdemar da Silva, motorista de ônibus que desde 1993 atua na função. 

Dados da SCSP, apontam ganhos como aumento da velocidade operacional dos coletivos acima de 100% em vias como Santos Dumont, Carapinima, Dom Luís e General Sampaio. A Pasta ressalta ainda como benefícios oriundos das faixas a previsibilidade do tempo de viagem e redução no consumo de combustíveis e de emissão de poluentes. 

Enquete

Quais os efeitos desta prioridade no seu trajeto?

Moro no Autran Nunes e trabalho na Aldeota e o percurso ficou muito rápido. É impossível não sentir a diferença. E quando a gente pega ônibus expresso, é melhor ainda porque vai ainda mais rápido.

Priscila Nunes
Auxiliar administrativa

Ando de ônibus e de carro. Para ônibus sei que melhorou bastante. É inegável. Para os veículos particulares, em certas vias eu acho que fica mais apertado. Mas também tem os motoristas que complicam o trânsito.

Pedro David Moraes
Fisioterapeuta

Largura das vias é desafio para avanço das ações

Se no início da implantação das faixas exclusivas, havia uma quantidade significativa de vias de Fortaleza com capacidade viária suficiente para receber a intervenção sem gerar grandes impactos, ao mesmo tempo que essas vias (de três faixas) apresentavam baixas velocidades operacionais, como a Domingos Olímpio, Antônio Sales, Santos Dumont e Dom Luís, hoje o desafio é fazer essa intervenção em vias com duas faixas de circulação. 

Nesse caso, explica o engenheiro da Prefeitura, Sued Lacerda, as implantações requerem um grau mais elevado de análises de engenharia de tráfego. Porque é necessário aprimorar a identificação das possíveis rotas alternativas para que não haja grandes prejuízos para o tráfego. “Antes, a cidade tinha um cardápio de avenidas de três faixas e eram poucas dificuldades técnicas para tomar essa decisão. Mas agora, Temos muitas avenidas de duas faixas divididas por um canteiro central e isso requer cuidado”, pondera. 

Novas faixas

Um dos desafios é a implantação na Av. Duque de Caxias, no Centro. Na via, informa Sued, a velocidade operacional dos ônibus é muito baixa e a demanda por transporte público elevada. Para mitigar a intervenção, a viabilidade de implantação de um binário nas ruas Meton de Alencar e o Pedro Pereira está sendo analisada e deverá ser decidida até o final do semestre. 

Para o professor do Departamento de Engenharia de Transporte da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mário Azevedo, a política de implantação de faixa é satisfatória. “O caminho tem que ser assim. Você vai dando vantagens para os usuários do transporte coletivo porque o ideal é que a maioria das pessoas andem no ônibus”. 

De acordo com ele, se comparar os custos, para qualificação do sistema de transporte massivo, a implantação das faixas tem valores irrisórios diante da implantação de um metro, por exemplo. “Para uma cidade como a nossa, essa faixa é um caminho. Se você vai fazer algo mais sofisticado. Se tem recurso para fazer metrô. Isso é uma coisa a se pensar. Mas no começo, se você quer qualificar com impacto rápido as faixas são ideais”. 

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