Da Belle Époque ao crescimento desordenado: descaso e incerteza - Cidade - Diário do Nordeste

CENTRO DE FORTALEZA

Da Belle Époque ao crescimento desordenado: descaso e incerteza

04.02.2013

A requalificação e revalorização do bairro, berço da cidade, estão entre os principais desafios da atual gestão

A polêmica derrubada de um oitizeiro, localizado nas imediações da Igreja do Rosário, cruzamento das atuais ruas General Bezerril e Guilherme Rocha, em 1929, para dar passagem ao tráfego de veículos, marcou, simbolicamente, a partir dali, as inúmeras ações de desrespeito ao meio ambiente e descaso com a história da cidade que seriam praticadas, resultando na atual situação em que se encontra o Centro da Capital: uma terra de 5,6 Km² de inúmeros problemas, incertezas e desordem urbana.

Cenas cotidianas no Centro: viciados em crack, moradores de rua, lixo e desrespeito à legislação são alguns exemplos de problemas apontados por quem habita e passa diariamente pelo bairro, marco histórico da cidade Fotos: Waleska Santiago/Kelly Freitas


O historiador e advogado Eustáquio Alvarenga Júnior avalia que o episódio reforça um cenário que foi se agravando com o passar dos anos. Se antes o Centro da cidade viveu o apogeu da Belle Époque, foi a partir das grandes secas, como a de 1932, que a cidade foi inchando de forma desordenada, acabando por criar um cinturão de miséria em volta do quadrilátero "civilizado" do Centro, berço da Cidade.

Desvirtuamento

Segundo ele, as elites políticas locais foram ineficazes em estabelecer políticas para sanar os problemas que foram se acumulando. Com o passar dos anos e com o crescimento acelerado e desigual dos bairros da cidade, o Centro foi perdendo importância e sendo esquecido. "Falar sobre esse bairro é falar de Fortaleza como um todo. O mal crônico da falta de planejamento perpassa os anos e chega até nossos dias. Não há fiscalização nem regulamentação rigorosa e efetiva dos espaços da cidade", aponta o historiador.

Lugar que já foi palco econômico e social da Capital faz parte da vida e das lembranças de milhares de moradores. Para o aposentado Pedro Gadelha, morador do bairro desde seu nascimento, há 78 anos, são muitas as histórias. Lembra, como exemplo, do período em que se encontrava com os amigos na Praça do Ferreira, tomava um cafezinho e "flertava" com as belas moças sem ser incomodado com a presença de pedintes e bandidos.

Pedro gosta de falar da época em que o Centro era um dos melhores lugares para morar. Hoje, entristecido, ele relembra dos vizinhos que já se foram e dos que optaram mudar de endereço, entretanto, deixa claro que ali é o seu lar. "Não saio daqui".

Para a economista e doutora em Planejamento Urbano e Regional, Cleide Bernal, as intenções de requalificação do Centro Histórico, desde 2004, não avançaram, ficaram só nas ações das incorporadoras imobiliárias em construir apartamentos para a classe C. "A reorganização do espaço urbano central para mudar a face do bairro ficou só no projeto dos urbanistas e planejadores urbanos, entregue a ex-prefeita Luizianne Lins no início de sua gestão", lembra.

Empobrecimento

O Centro, analisa, é um lugar privilegiado para se morar, em termos de infraestrutura de energia elétrica, água e saneamento, telefonia e transporte, além da oferta de mercadorias a preços mais baixos que qualquer outro bairro. "Mas o Centro Histórico sofreu um processo de empobrecimento e crescentes desigualdades como outras grandes cidades que se abriram para a economia mundial na corrida pela competitividade".

A área, aponta a professora, perdeu para a Aldeota atividades importantes geradoras de renda, bem como um contingente populacional substancioso.

No entanto, examina Cleide Bernal, a pobreza do Centro encontra-se nas pessoas que moram nas ruas e praças, nos vendedores ambulantes e biscateiros, na mendicância, na prostituição e marginalidade, além da falta de segurança pública.

São as alternativas da população pobre e miserável de toda a cidade que aí se expõe de forma desumana para que o poder público olhe para elas e faça algo, ressalta a economista.

O presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Ceará (Crea-CE), Victor Frota Pinto, defende que a fiscalização de edificações no Centro da cidade deve ser uma prioridade para a conservação de prédios históricos e, sobretudo, para a garantia de segurança para a população que habita ou trabalha na área. Nesse sentido, argumenta, é fundamental que seja regulamentada a Lei 9.913 de 2012, que determina vistoria técnica, manutenção preventiva e periódica das edificações da Capital cearense e foi proposta através da parceria entre o Conselho e Sindicato dos Engenheiros no Estado do Ceará (Senge-CE).

Camelódromo

Na avaliação do sociólogo e historiador Eduardo Lúcio Amaral, é preciso, também, disciplina urbana. É dever do poder público estabelecer regras mínimas para o convívio social. Estas regras, observa, obviamente, não podem incidir somente sobre os ambulantes. Devem ser, aponta, impessoais, de maneira que não haja privilégio ou discriminação. "Poucos estão isentos de responsabilidade no processo de degradação do Centro", diz.

Para ele, não é somente o ambulante quem produz a poluição visual ou a poluição sonora. "É injusto fazer do camelô o bode expiatório de um problema cuja responsabilidade é de todos", insiste. Entretanto, declara, não é possível isentar o ambulante de sua parcela de responsabilidade, principalmente no que diz respeito à obstrução das vias públicas e de sua privatização.

O presidente da Comissão de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente da Câmara Municipal, Joaquim Rocha, destaca que o Fórum Viva o Centro apontou algumas alternativas para o bairro em cinco áreas distintas: segurança pública, reordenamento urbano, acessibilidade e mobilidade urbana, patrimônio histórico e cultural e habitação. Para começar, diz, a acessibilidade deverá uma das prioridades. Para isso, a padronização das calçadas é essencial. "Pode passar despercebido, mas elas tem um papel fundamental no desempenho da cidadania e na qualidade de vida de quem faz uso delas", frisa.

Ideal

A arquiteta e urbanista Mariana Reynaldo salienta que o bairro abriga a maior concentração de comércios e serviços de Fortaleza. Além dos visitantes encontrarem todo tipo de produtos e serviços como restaurantes, teatro, centro cultural e praças importantes, como a José de Alencar, é possível também conhecer lugares históricos de grande importância e beleza. "O Centro, se bem administrado, representa o bairro ideal, preconizado por especialistas do mundo inteiro, para se morar, trabalhar, se divertir, estudar e conviver e isso ainda é possível resgatar", pontua.

FIQUE POR DENTRO

Decadência a partir do início do século XX

Desde a segunda metade do século XIX, quando a maioria das metrópoles brasileiras começou a apresentar altas taxas de crescimento, as classes de renda mais alta passaram a exibir um processo de segregação, criando espaços próprios de convivência. Em Fortaleza não foi diferente. Desde o início de sua expansão, a cidade também apresentou essa característica. No começo, as famílias mais abastadas deixaram o Centro para estabelecer-se em chácaras nas saídas da cidade, num processo que acabou originando os bairros do Alagadiço, Benfica, e, posteriormente, o Jacarecanga, com a construção de mansões.

Depois, no começo do século XX, os mais ricos apostaram no deslocamento para a zona leste da cidade, começando o processo de ocupação da Aldeota. Ali, o clima ameno e a tranquilidade atrairam essa faixa da população da Capital.

Projetos ainda vão demorar para sair do papel

O resgate da beleza do Centro da 5ª metrópole brasileira, bem como projetos para novos usos e significados para os locais quase abandonados ainda demandam mais tempo. O titular da Secretaria Regional do Centro, Régis Dias, vem se reunindo com feirantes e outros setores. No entanto, diz que ainda é cedo para apresentar resultados. Primeiro é necessário tomar pé da situação e analisar futuras ações.

Enquanto isso, moradores que resistiram e continuam no bairro exigem soluções. Para o presidente da Associação dos Empresários do Centro, João Maia dos Santos Júnior, a prioridade é ordenar o comércio informal, principalmente, os feirantes da Rua José Avelino e entorno. "A cada dia piora mais, sendo uma concorrência desleal e predatória", afirma.

Ele culpa a ex-gestão pelo cenário caótico que se tornou o bairro, ponto de viciados, moradores de rua, desocupados e dos ambulantes que "não respeitam mais nada". "É preciso uma varredura geral e disciplinamento urgente. Já perdemos mais de oito mil empregos formais nos últimos anos e mais de 250 lojistas fecharam as portas".

O músico Roberto César, de 60 anos, morador do Centro há 45 anos, lamenta e ressalta que o local de convergência de milhares de pessoas todos os dias e celeiro principal da história da cidade não pode ir morrendo aos poucos. "Quem tem o coração aqui não consegue admitir tanto descaso e indiferença".

O aposentado Gilmar Menezes lembra de dias felizes e faz um alerta: as casas antigas, do início do século XX, que deixa a cidade com jeito de "menina" estão virando estacionamentos "feios e inconvenientes", afirma.

LÊDA GONÇALVES
REPÓRTER

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