Corrida irregular de cavalos é barrada em Caucaia - Cidade - Diário do Nordeste

APOSTAS CLANDESTINAS

Corrida irregular de cavalos é barrada em Caucaia

21.01.2010

A prática reunia crianças e adolescentes como jóqueis, em área de proteção ambiental, na Região Metropolitana

Um prado que funcionava de forma ilegal às margens da CE-090, na distrito do Pacheco, em Caucaia, foi fechado, ontem, pela prefeitura daquele município, atendendo recomendação do Ministério Público. A ação foi motivada pelo contato, na terça-feira passada, 19, da reportagem do Diário do Nordeste, que produzia matéria sobre o assunto e indagou sobre a legalidade da competição.

Quase três anos depois de fechado, em fevereiro de 2007, por estar localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) do estuário do Rio Ceará, o prado seguia funcionando todo domingo, com a realização de corridas de cavalo apostadas.

Se não bastasse o crime ambiental e a clandestinidade, os jóqueis do prado eram adolescentes e crianças de até dez anos. A expressiva maioria montava sem equipamento de proteção e arriscava a vida sobre animais que alcançavam grande velocidade. Tudo isso entre estacas de madeira que separavam as raias da pista. Além disso, a área do entorno do prado está desmatada, como já se verificava em 2007.

No último domingo (17), a equipe do Diário do Nordeste acompanhou dois páreos do prado. E pode ver uma equipe policial do Ronda do Quarteirão presenciar as disputas sem tomar nenhuma providência.

No prado, um páreo é disputado por apenas dois cavalos, rendendo várias apostas. Segundo um morador das adjacências (identidade preservada), apostadores chegavam a arriscar até motos e R$ 5 mil por páreo. Mais de uma centena de pessoas comparecia ao local, entre jogadores e curiosos. Os jóqueis eram da própria região, mas apostadores também vinham de Icaraí, Cumbuco, sede de Caucaia e Fortaleza. A competição envolvia até estrangeiros.

Acidentes

Conforme informações obtidas pela reportagem, crianças e adolescentes eram usados como jóqueis por conta do baixo peso, para que os cavalos atingissem maior velocidade. A falta de equipamentos de proteção já provocou até acidentes. "Está com uns dois anos, um menino caiu do cavalo e quase quebrou o pescoço", disse um morador.

Enquanto os animais levavam cerca de 15 segundos para cruzar a pista de 400 metros de extensão, o volume de apostas fazia a espera entre os páreos durar cerca de uma hora. Ontem, a reportagem voltou ao local e conversou com o caseiro Josimar Bezerra, 37, citado por alguns moradores da região como organizador do prado. Ele disse que apenas "ajeitou" a pista e entregou ao verdadeiro organizador, identificado apenas como "Tiago". Atualmente, afirmou que apenas trazia cavalos para correr no prado.

Liberação

Quanto à autorização de funcionamento, afirmou que um candidato a vereador não eleito identificado como "Deivid" garantiu ter liberado as competições na prefeitura. O jóquei Herculano (nome fictício), 12 anos, lamentou a situação. Disse que corria dois páreos por domingo e ganhava de R$ 60 a R$ 70 em cada um. "Achei muita covardia".

IRREGULARIDADES
Disputa era palco de quatro crimes, pelo menos


Pelo menos, quatro crimes estavam sendo cometidos pela organização do prado na CE-090. Segundo o promotor de Justiça Ricardo Rocha, da Comarca de Caucaia, que recomendou a interdição da área, o mais grave deles é pôr em risco a vida de crianças e adolescentes, ilícito tipificado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

As outras duas infrações citadas pelo promotor são a realização de evento em Área de Proteção Ambiental (APA) sem permissão do órgão competente e a exploração de apostas sem autorização legal. Ao confirmar que o prado está localizado numa APA, a assessoria de comunicação da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) aferiu outro crime: o desmatamento sem autorização legal em unidade de conservação.

Além desses crimes, o promotor Ricardo Rocha reconheceu que a falta de autorização pode originar uma quinta irregularidade: a prática de maus-tratos contra os animais.

O promotor não sabia da existência do prado até ser questionado pela reportagem do Diário do Nordeste. "Não tinha conhecimento de que isso existia. Esses prados representam um risco gravíssimo, pode acontecer todo tipo de acidente", comentou.

Reunião

Ontem, Rocha aproveitou reunião agendada com o prefeito de Caucaia, Washington Gois, para exigir providências. Ainda pela manhã, funcionários da prefeitura foram até o local e retiraram a maior parte das estacas que demarcavam as raias da pista, além de outras madeiras de sustentação da lona sob a qual eram firmadas as apostas.

A respeito da constatação de falta de providências por parte dos policiais do Ronda do Quarteirão, o comandante do programa, tenente-coronel Túlio Studart, informou que a demanda de combater a disputa não havia sido encaminhada pela Prefeitura de Caucaia nem houve denúncia feita pela população.

Na última terça-feira, o secretário de Infraestrutura e Urbanismo do município de Caucaia, Lúcio Bonfim, negou que a atual gestão tenha autorizado o reinício das apostas.

MAIS INFORMAÇÕES

Disque Natureza da Semace: 0800.2752233 (recebe denúncias sobre crimes ambientais em horário comercial, de segunda a sexta-feira)


ÍCARO JOATHAN

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