em 22 anos

Consumo deve chegar a 20 mil litros por segundo, diz estudo

Com uma população crescente, estratégias devem ser pensadas para evitar o colapso hídrico na cidade

01:00 · 24.05.2018 / atualizado às 03:20 por Nicolas Paulino / Renato Bezerra - Repórteres
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O prognóstico do Plano Fortaleza 2040 é que a cidade chegue a 3,1 milhões de habitantes, pressionando cada vez mais os recursos hídricos ( FOTO: JL ROSA )

Torneira aberta, louça lavada: de 46 a 243 litros de água utilizados. Chuveiro aberto, banho tomado: em 15 minutos, até 144 litros consumidos. Se as ações individuais já representam um gasto considerável, contabilize-as em toda Fortaleza, com os atuais 2,6 milhões de habitantes. O prognóstico do Plano Fortaleza 2040 é que a cidade chegue a 3,1 milhões de habitantes, pressionando cada vez mais os recursos hídricos. Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) estima que, nos próximos 22 anos, o consumo da Capital deve alcançar 20 metros cúbicos - ou 20 mil litros - por segundo, ainda que passe a adotar um uso conservativo.

Até 2012, antes do período de seca, o consumo de toda a Região Metropolitana chegava 12 m³/s. Considerando o volume médio por ligação, cada imóvel consumiu, em março deste ano, 10,53 m³/s, conforme a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece). Além do crescimento populacional e consequente aumento de demanda de água, o cenário futuro deve ter ainda diminuição da oferta e conflitos pela disponibilidade hídrica, como avalia o projeto Gestão Adaptativa do Risco Climático de Seca como Estratégia de Redução dos Impactos da Mudança Climática (Adapta), do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da UFC.

A pesquisa tomou como referência a disponibilidade atual de água no Ceará e informações históricas de variabilidade climática, em que são analisados períodos de seca e de grande incidência de chuva, e montou um banco de dados hídricos do Estado, além de aspectos econômicos e sociais e a mudança climática.

O projeto trabalha com a ideia de cenários possíveis. Na prática, a pressão tornará a Capital dependente da transposição do Rio São Francisco. Se o clima e a demanda atual se mantiverem os mesmos nas próximas décadas, o bombeamento do rio teria de ser acionado a cada 5 ou 10 anos, permanecendo ativo de 3 a 4 anos. Por outro lado, com aumento de demanda e redução da oferta local dos rios, o São Francisco deveria ser bombeado continuamente, gerando maiores conflitos políticos e sociais pela água da bacia.

De acordo com o coordenador do Adapta, Francisco de Assis de Souza Filho, é preciso pensar em novas estratégias para evitar o colapso da cidade, com a ampliação das fontes hídricas da Capital. "A demanda de Fortaleza continua crescendo. Vamos ter uma dependência maior do Rio São Francisco e intensificar a utilização de alguns mananciais", comenta. O reúso da água, segundo destaca o professor, está entre as medidas que devem ser consideradas.

O grupo Adapta indica o reúso de água domiciliar, com a adaptação das residências em dois sistemas de despejo: um para esgoto e outro para a água cinza, proveniente de chuveiros e pias, que poderia ser tratada e destinada a usos como descarga de vaso sanitário.

"Com isso teremos a condição de ter, no próprio lote, uma economia de 30% de água. De cada metro cúbico que a gente coleta 80% volta na forma de esgoto", diz o professor.

A água do esgoto, por sua vez, passaria pelo mesmo tratamento já existente na cidade para depois ser reutilizada. Uma das propostas do Adapta é levar a água de esgoto tratada para o complexo industrial do Pecém por meio de um canal. Além disso, podem ser implantados sistemas de cisternas urbanas em prédios, para captação de água da chuva, e a perfuração de novos poços artesianos.

Atualmente, segundo a Cagece, Fortaleza se utiliza principalmente do sistema de açudes Pacoti-Riachão-Gavião. Para diversificar as fontes, a empresa deu início a um projeto de parceria público-privada para uma usina de dessalinização da água do mar para abastecer a cidade com até 1 m³/s. Contudo, com estudos ainda em análise pela Companhia, não há previsão para a implantação.

Cocó

Outro projeto estimado é a retirada das águas da barragem do Rio Cocó, inaugurada em junho de 2017 para reter o excedente de água nos períodos chuvosos, para suprir o abastecimento da Região Metropolitana. Em fevereiro, a Cagece informou que avaliaria a qualidade da água disponível no local para consumo humano, primeiro fator a ser levado em consideração para iniciar um estudo desse tipo. De acordo com a Companhia, no entanto, o projeto permanece na fase de estudos e ainda não é possível confirmar sua viabilização. Uma terceira medida trata do reúso das águas de efluentes do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) para abastecimento das indústrias do local.

O sistema deve produzir 110 litros de água por segundo, mas também não há um prazo definido para começar, uma vez que o projeto segue em estudo, de acordo com a Cagece.

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O Ceará é o terceiro Estado do Nordeste com maior consumo per capita de água, conforme o levantamento "Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos". O relatório leva em conta dados do ano de 2016 e foi divulgado em fevereiro deste ano, pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), vinculado ao Ministério das Cidades. Cada habitante utiliza, em média, 125 litros de água por dia. Só os Estados do Maranhão (136,5 l/hab) e Piauí (125,7 l/hab) consomem mais na região.

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