primeira infância

Comunicação com crianças é desafio

O tema foi discutido no I Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na 1ª Infância, realizado em São Paulo

Cerca de 700 pessoas de 82 cidades brasileiras se reúnem no Sesc Pinheiros, em São Paulo, para discutir assuntos relativos à primeira infância ( Foto: Sofia Colucci )
01:00 · 15.03.2018 por Nícolas Paulino - Repórter

Gu-gu-da-dá, ba-ba-ga-ga. Monossílabas soltas, grunhidos e balbucios praticamente incompreensíveis aos adultos fazem parte da comunicação de bebês, que, segundo especialistas na primeira infância - período que vai dos zero aos seis anos e representa a fase de maior aprendizado da vida -, não devem ser ignorados pelos pais, uma vez que o conjunto formado por vozes, palavras e sonoridades da linguagem é a base do desenvolvimento emocional humano.

Inquietados por essas e outras questões, cerca de 700 pessoas de 82 cidades brasileiras se reúnem no Sesc Pinheiros, em São Paulo, até hoje (15), dentro das atividades do I Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na 1ª Infância, iniciativa do Instituto Emília e da Comunidade Educativa Cedac realizada pela Fundação Itaú Social em parceria com o Serviço Social do Comércio de São Paulo.

Com público formado por pesquisadores, educadores e pais, o encontro cria espaços de intercâmbio para refletir sobre o futuro das crianças e sua saúde mental. Para a argentina especialista em educação e leitura na primeira infância, Maria Emília López, o apego e o vínculo dentro da família começam a ser construídos por meio da linguagem. Além disso, constituem os primeiros traços de subjetividade dos sujeitos.

E, se a boca exprime sentimentos e afetos, "o corpo fala junto", pensa a artista, educadora e escritora Stela Barbieri, explicando que a linguagem dos bebês é repleta de ênfases e se dá, de maneira mais forte, na relação com a mãe. É ela quem consegue identificar, apenas pelos sons emitidos pela criança, que tipos de sentimentos ou problemas se passam, ao mesmo tempo em que precisa articular elementos vocais (nem sempre fáceis) para retribuir as mensagens.

Transmissão

Para as especialistas, torna-se imperativo alimentar essas redes de transmissão sobretudo com uma realidade cada vez mais frequente: a do silêncio. Elas criticam a cultura tecnológica atual que cria barreiras entre as pessoas através da individualização do uso de aparelhos eletrônicos, como tablets e smartphones. "É preciso resgatar brincadeiras, jogos, entrar em diálogo com as crianças", defende Stela. Esses "furos na normalidade" criam situações "interessantes" para os pais à medida em que os incentiva a tentar compreender os filhos. "As crianças refletem a supervisão que tiveram em atividades artísticas e culturais, desenvolvendo senso ético e de cuidados", destaca Maria Emília.

Nesse sentido, os educadores têm o papel de ajudar os pais a entenderem que bebês são, sim, capazes de comunicar. Quanto mais cedo estiverem expostos à linguagem, melhor, acredita a superintendente da Fundação Itaú Social, Angela Dannemann.

Para ela, os pais precisam ler em voz alta para as crianças desde o período gestacional. Depois disso, "se as crianças não leem, é problema dos adultos". Por isso, desde 2010, a Fundação já distribuiu 51 milhões de livros infantis dentro do projeto "Leia para uma criança". Contudo, aponta Dannemann, 60% dos pedidos vêm somente da região Sudeste, seguida pela região Sul. A meta do projeto para 2018 é que os livros cheguem a, pelo menos, 25% mais localidades do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

No início deste mês, a Fundação também firmou uma parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) para enviar livros a famílias beneficiárias do Programa Criança Feliz. Cada grupo receberá, por meio de visitadores, um kit com dois exemplares. Segundo o MDS, as visitas domiciliares semanais chegam a mais de 231 mil pessoas em 1.907 municípios brasileiros. No Ceará, quase 19 mil pessoas foram atendidas pela ação no ano passado.

O repórter viajou a São Paulo a convite da Itaú Social

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