Comida de rua tem atraído cada vez mais adeptos - Cidade - Diário do Nordeste

CENTRO DA CIDADE

Comida de rua tem atraído cada vez mais adeptos

23.05.2009

Pontos comerciais e vendedores já se incorporaram ao imaginário de Fortaleza e mantêm a clientela

A comida de rua ou a compra de alimentos em espaços públicos, como praças, por exemplo, serve para reforçar a tese de que a alimentação, antes de satisfazer uma necessidade vital, serve como elemento de socialização entre as pessoas. Em Fortaleza, existem alguns pontos comerciais ou vendedores que já se incorporaram à vida das pessoas, ou seja, mostrando, mais uma vez, que comida é também cultura.

São os vendedores de castanha, frutas da época, mel e rapaduras que ficam nas imediações da Praça do Ferreira, no Centro. Mas é possível encontrar essas pessoas em outros pontos da cidade.

Elas fazem parte do imaginário de Fortaleza, como é o caso, por exemplo, do “Raimundo dos Queijos”, localizado na Travessa Crato, próximo ao antigo Mercado Central, no Centro Histórico de Fortaleza. O ponto comercial, funciona há 30 anos, ainda conserva tanto na arquitetura, quanto na disposição dos produtos, traços de uma mercearia antiga.

Sua especialidade é a venda de queijos de coalho provenientes do município de Iracema, e carne-de-sol de Caicó (RN).

No entanto, iguarias como compotas caseiras, rapaduras, batidas e tijolinhos de leite encham os olhos dos fregueses. “Há 30 anos vendo aqui”, conta Raimundo Oliveira Araújo, conhecido como “Raimundo dos Queijos”, nascido no município de Chaval, na região Norte do Estado. Ele explica que o movimento maior é aos domingos. É que entre uma compra e outra, os fregueses aproveitam para provar alguns quitutes.

“Durante a semana só vendemos os produtos”, explica. Aliás, a socialização começa mesmo aos sábados, a partir do meio-dia. Além de uma boa comida de botequim, as pessoas são brindadas com música ao vivo. Além dos doces caseiros, é possível encontrar manteiga da terra e paçoca. O atendimento é outro atrativo da casa, onde o freguês pode experimentar os produtos antes de comprar.

Clauny Holanda conta que há dez anos é freguesa do doce de leite e do queijo. “Também aprecio muito a carne-de-sol”. Jeová da Silva, 30 anos, confessa: “Trabalho aqui perto e só compro queijo aqui”, afirma, enquanto degustava um pedaço do produto.

Na Praça do Ferreira, esquina com a Rua Floriano Peixoto, também há 30 anos, o ambulante Francisco das Chagas Rodrigues, 61, orgulha-se da freguesia “fiel que foi conquistada de boca-em-boca”. Atribui o feito à qualidade dos produtos oferecidos. “Meus clientes são mesmo locais, quase não aparece turista por aqui”, diz, afirmando dentre os produtos que comercializa a castanha é a mais procurada.

Além da castanha, ele vende também frutas da época. No momento, está na safra da ata, embora lamente as cheias terem prejudicado. A castanha do Pará é outra opção do vendedor, além de mel de abelha e romã. “As pessoas procuram os produtos”, diz o vendedor que chegou em Fortaleza há 32 anos. Sua rotina de trabalho é das 7h às 18h30, de segunda à sábado. Chega a vender, por dia, entre dez a 15 quilos de castanha, revela.

Alguns vendedores parecem compor a paisagem central de Fortaleza. Raimundo Medeiros dos Santos, 51 anos, conta que sua especialidade é a venda de abacaxi e melancia. “Vendo os pedaços cortados das frutas”, conta, afirmando que, muitas pessoas, levam também as frutas inteiras. Reclama do período chuvoso e está torcendo para que chegue logo o calor, justificando o aumento nas vendas. Há 20 anos trabalha amenizando o calor das pessoas.

Edson Alves Muniz, 40 anos, há dez vende rapaduras e batidas nas proximidades da Praça do Ferreira. “A gente precisa conquistar o freguês e o primeiro passo é oferecer mercadoria de qualidade”. Depois que ele confia, explica, ele não deixa mais de comprar. “Minha clientela é mesmo local”.

MOLHO CEARENSE

Do São Sebastião para a Europa

A comida de rua não se trata de novidade dos tempos modernos. Ainda no Brasil colonial, em especial na Bahia, era possível observar escravas libertas vendendo doces em tabuleiros, como registrou o antropólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900/1987). Hoje, com a crise e o agravamento do desemprego, o “jeitinho brasileiro” pode garantir a sobrevivência de muitas pessoas. Uma dose de talento associada à necessidade de ganhar a vida podem fazer a diferença.

Prova disso é a vendedora Filomena Rodrigues Aquino, 76 anos, que prefere ser chamada de Dona Leó. Ela está usando um pouco de criatividade e, aos poucos, foi trocando as verduras e os legumes para comercializar molhos de pimenta. “Meus molhos ganharam o mundo e estão até na Internet”, ri. Sem fazer segredo da receita dos seus temperos, o condimento já cruzou fronteiras.

Tipo exportação

“Faço garrafinhas para presente que já foram levadas para a Suíça, Argentina e França”, conta dona Leó. Natural de Baturité, conta que chegou aqui ainda menina, aos 13 anos, começando a vender no Mercado São Sebastião em 1959. Hoje, ela é conhecida entre os vendedores do São Sebastião pelo sucesso dos seus molhos. Ela não tem folga, trabalhando todo dia, das 5h às 17h.

“No começo, só vendia pimenta. Depois, resolvi começar a fazer molho porque as pessoas encomendavam”. O negócio foi aumentando e, no momento, a principal ocupação de dona Leó é o preparo dos molhos. “Faço com leite e manipueira da mandioca”, revela, enquanto limpa as pimentas malaguetas consideradas ideais para o preparo de molhos. “Só trabalho com elas”.

Muitos fregueses compram apenas a pimenta, enquanto outros, preferem o molho pronto. Dona Leó adquire cerca de 50 a 60 litros de leite para o preparo dos temperos. A manipueira vem de Paraipaba. Os molhos são comercializados entre R$ 7,00 a R$ 12,00, as garrafas de um litro e dois litros, respectivamente.

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