Reportagem Solidariedade

Com menos negativas, doação de órgãos pediátrica cresce no CE

Após perder o filho Rômulo, de 2 anos, Michelle autorizou a doação dos órgãos do criança
01:00 · 07.08.2017 por Vanessa Madeira - Repórter

Era julho de 2015 e Michelle havia acabado de receber a notícia. Vítima de um choque elétrico dentro de casa, o filho, Rômulo, de apenas 2 anos e 8 meses, estava em coma induzido no Instituto Dr. José Frota, na Capital. Após uma semana de internação, e a esperança se esvaindo a cada dia, o pequeno teve a morte encefálica confirmada. Nada mais restava agora, a não ser a possibilidade de transformar o fim da vida de Rômulo em reinício para a de alguma outra criança, um menino ou menina na fila por um transplante de órgãos. O "sim" de Michelle permitiu que isso acontecesse.

Rômulo teve córneas e rins doados para crianças na lista de espera, um gesto que não traria consolo, mas ajudaria a mãe a minimizar a dor da perda até hoje. "Eu sabia que daria uma chance a outra família. Já que meu filho não estava mais aqui, por que não doar? Poderia fazer a alegria de outra criança, mesmo não sabendo quem é", diz.

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Assim fez Michelle e fizeram muitos outros pais e mães que, mesmo vivenciando a partida precoce dos filhos, disseram "sim" à doação de órgãos. No Estado, o "não" das famílias à doação é mais raro quando, do outro lado, está a chance de ajudar outra criança ou adolescente. De acordo com dados da Central de Transplantes do Ceará, em 2016, a recusa familiar em casos de doadores pediátricos (abaixo de 18 anos) totalizou 34%, ficando abaixo da taxa global de negativas observada no Estado (40%). No primeiro semestre deste ano, o cenário se repetiu. Entre os doadores pediátricos, a recusa ficou em torno de 37,5%, enquanto a taxa global foi de 41%.

Sensibilização

No IJF, unidade responsável por 70% das captações de órgãos no Ceará, apenas 25% dos pais negam a doação de órgãos de pacientes pediátricos. Lisiane Paiva, coordenadora da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos para Transplantes (CIHDOT) do hospital, destaca que as famílias têm se mostrado mais sensíveis.

"A doação em si é um processo muito doloroso. Quando se trata de uma criança, todos entram em um alto nível de desgate. Nesses momentos, vemos que os pais são sensíveis ao sofrimento de outras crianças. Mesmo que seja difícil, que seja a morte do único filho, que tinha toda a expectativa de vida pela frente", reflete a coordenadora.

Em situações do tipo, o trabalho de acolhimento das famílias de possíveis doadores precisa lidar, não só com a tristeza da famílias, mas também com o sentimento de culpa que invade os pais. "Geralmente, as crianças que se tornam doadoras de órgãos morrem em um acidente, algo que poderia ser prevenido. Por isso, a questão da culpa permeia muito o luto da família, aumenta ainda mais a dor. Isso, de alguma forma, acaba sensibilizando os pais, fazendo com que eles queiram amenizar toda a carga de sofrimento", acrescenta Lisiane Paiva.

Fila de espera

A solidariedade dos pais é essencial diante da difícil realidade de crianças à espera de transplantes. Entre elas, a espera é maior, em virtude da baixa disponibilidade de possíveis doadores, e mais dolorosa. Em geral, são meninos e meninas com problemas de saúde congênitos e, por consequência, baixa expectativa de vida. Segundo estatísticas da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), entre janeiro e março deste ano, 17 meninos e meninas estavam na fila de espera no Ceará. Destes, nove aguardavam um transplante de fígado e oito um transplante de coração.

Algumas listas, conforme explica Eliana Barbosa, coordenadora da Central de Transplantes do Ceará, são agilizadas para pacientes menores de 18 anos. "No regulamento dos transplantes, as crianças em lista para transplante renal e hepático terão preferência na alocação quando o doador for menor de 18 anos", afirma.

No entanto, por conta da pouca idade, muitas precisam esperar indefinidamente até o surgimento de um possível doador. Foi o caso da pequena Ariely Vitória, hoje com um ano. Dias depois de nascida, a menina revelou problemas cardíacos que só poderiam ser solucionados com um transplante. Mas, em sua idade, o surgimento de um possível doador era considerado pelos médicos quase impossível.

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Ariely recebeu um transplante de coração com poucos meses de idade, após a doação de uma família (Foto: Fabiane de Paula)

"Assim que colocaram o nome dela na fila de espera, disseram que nunca tinha aparecido um coração para um bebê tão pequeno", lembra a irmã mais velha de Ariely, Késia, que divide os cuidados da pequena com a madrasta, Miriam.

Por sorte - ou "milagre", como diz a irmã - surgiram dois potenciais doadores poucas semanas depois. Pela negativa da família, a primeira doação não se concretizou. A segunda, no entanto, teve o aval dos pais. "Passamos três dias esperando a resposta, aí eles autorizaram doar", conta Késia. A cirurgia completou, no último sábado (22), seis meses. E Ariely pode comemorar, também neste mês, um ano de idade, com um coração novo e em pleno funcionamento.

"É um ato de amor ao próximo muito verdadeiro, mesmo no sofrimento, uma pessoa pensar em evitar a dor de outra. Nossa vontade era de saber quem são esses pais e agradecer, porque, se não fosse por eles, a Ariely não teria sobrevivido", diz a irmã.

O Diário do Nordeste apoia a campanha "Doe de Coração", promovida pela Fundação Edson Queiroz para incentivar a doação de órgãos no Estado. A mobilização existe desde 2003 e já recebeu o reconhecimento da ABTO pelas ações.

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