Cearense cria mapa em Libras - Cidade - Diário do Nordeste

DICIONÁRIO GEOGRÁFICO

Cearense cria mapa em Libras

13.08.2007

Rodrigo Machado: surdo de nascença começou a perceber cedo que não havia padronização de sinais para os mapas geográficos
Rodrigo Machado: surdo de nascença começou a perceber cedo que não havia padronização de sinais para os mapas geográficos
Fábio Lima
Rodrigo Machado será único sul-americano em evento internacional que discutirá questões ligadas à surdez

Ninguém é igual a outro. Todos são diferentes, mas com algumas características comuns. Cada indivíduo aprende de uma forma própria dependendo de seus estímulos. O surdo enfrenta dificuldades a mais em seu aprendizado por não existir condições adequadas dentro da escola e comunidade para o seu desenvolvimento intelectual.

Movido pelo desejo de universalizar e facilitar conhecimentos para surdos, Rodrigo Nogueira Machado, de 23 anos, elaborou dicionário geográfico na Língua Brasileira de Sinais (Libras) sobre mapas cartográficos. O seu trabalho foi tema de monografia para o Curso de Geografia na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), em Canoas, Rio Grande do Sul.

Surdo de nascença, para melhorar seus conhecimentos, principalmente em Português, teve que sair de Fortaleza, onde não existe escola especializada e as escolas da rede normal de ensino ainda não oferecem condições ideais para deficientes auditivos ou visuais. Foi para Porto Alegre, onde estudou no Colégio Concórdia e, em seguida, na Ulbra. Antes da pesquisa já demonstrava preocupação em difundir aprendizagem e elaborou uma trilha ecológica para alunos surdos de escolas públicas, no Parque da Redenção, na capital gaúcha.

Nesta segunda-feira, Rodrigo embarca rumo à Dinamarca, onde participa do curso de formação de lideranças internacionais das comunidades surdas Frontrunners. Ele é o único sul-americano presente nesse evento.

Na casa dos pais — Antônio e Aldenora Machado — Rodrigo “mata as saudades” e descansa antes da viagem que durará cinco meses. O casal tem seis filhos na família, quatro dos quais surdos. “Rodrigo sempre teve paixão pela geografia e na Ulbra definiu bem o caminho profissional seguido”, conta a mãe.

Aldenora demonstra preocupação ao falar que Rodrigo, bacharel em Geografia, depois que voltar da Europa ainda não tem, no Ceará, oferta para o mercado de trabalho.

O jovem explica que o projeto da monografia foi motivado quando percebeu que faltavam sinais específicos sobre geografia na Libras. “O intérprete não tinha uma tradução simultânea entre a fala do professor e os conteúdos. Assim, a gente perdia muita informação”. O trabalho demorou cerca de um ano para ser concluído.

Ele teve apoio do Instituto de Pesquisa e Acessibilidade da Ulbra, que, de forma pioneira, há dez anos disponibiliza intérpretes para que os alunos possam acompanhar as aulas.

Sua principal dificuldade foi criar sinais dissociados da língua portuguesa e mais próximos da estrutura lingüística da Libras. “Comecei a pesquisar nas escolas quais e como os sinais eram utilizados. Cada escola visitada usa um sinal diferente para a mesma palavra. Minha idéia foi padronizar tudo isso”, afirma.

Além do trabalho impresso, Rodrigo se filmou reproduzindo os sinais e transformou o material em CD-Rom e com isso, escalas, meridianos e paralelos foram ganhando representatividade adequadas para facilitar a aprendizagem dos surdos. “Estou feliz e quero divulgar o trabalho para um maior número de pessoas possível”, diz.

Sua ida para a Dinamarca é resultado de seu esforço. Quando soube do curso, enviou currículo e com as suas qualificações foi um dos 16 escolhidos no mundo para participar das aulas que incluem temas como história, línguas de sinais, questões profissionais e formação de surdos líderes. Além do Brasil, o encontro terá jovens surdos da Noruega, Alemanha, Inglaterra, França, Bélgica, Tanzânia, Mongólia, Granada, Grécia, Eslóvaquia, Itália e Estados Unidos.

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