Depressão

Carinho e atenção ajudam na cura

01:00 · 14.08.2018
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Ângela Rodrigues trabalha na manutenção da ONG e desenvolve ainda atividades com o costureira ( Foto: José Leomar )

Em 1996, Ângela Maria Rodrigues da Silva, 41, passava por "profunda depressão". Ela relembra que naquele ano, "já não havia sentido de viver". "Vivia triste e com medo de tudo. Era um pânico inexplicável. Eu tinha medo de comer e morrer. Tinha medo de ir na rua e morrer. Eu tinha medo de tudo. Meus dias eram cinzentos, eu vivia uma vida paralela", relata.

Um ano mais tarde, ela teve conhecimento, através de um amiga, sobre o Movimento Saúde Mental Comunitária (MSMC). "Lembro-me como se fosse hoje quando minha amiga me disse que um padre tinha chegado no bairro e que ele conseguia tratar pessoas com depressão. Não acreditei. Já tinha ido em diversos médicos e nenhum deles conseguiu me ajudar de fato", detalha.

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Seis meses mais tarde, ela já colecionava melhoras. "Voltei aos poucos a sair de casa. Ganhei peso e comecei a frequentar locais que antes não tinha coragem de ir". Quando questionada sobre o que ela acredita ter lhe curado, Ângela é enfática e direta. "A atenção. Eu só precisava ser ouvida, ser vista como pessoa. Quando conheci a ONG passei a ser valorizada, me senti útil novamente", diz, com os olhos marejados. "Me emociona muito lembrar de como cheguei aqui. Para mim, eu renasci. A cada ano eu fui colhendo melhorias. Fiz cursos, comecei a trabalhar e voltei a sorrir. Eu nasci novamente no ano de 1997 quando entrei aqui", comemora.

Sentido

Naquele mesmo ano, Zila Amaro Ferreira, 58, perdeu sua mãe e entrou em depressão. "Me entreguei". Ela conta que em 1996 tentou cometer suicídio por três vezes. "Era uma tristeza profunda. Eu não queria mais viver e nem sentia mais sentido na vida. Depois que minha mãe morreu, para mim, o mundo também havia acabado. Os médicos na época passavam remédios, na maioria das vezes, calmantes, mas quando o efeito passava, a tristeza voltava, muitas vezes em doses maiores", relata.

Zila foi uma das primeiras pessoas a serem atendidas pelo Movimento Saúde Mental Comunitária. Ela relembra, com detalhes, o dia em que foi convidada pelo padre Rino. "Estava deitada na minha rede. Eu passava o dia inteiro lá. Não saia para comer nem para tomar banho. Um certo dia, ele entrou no meu quarto, se apresentou e perguntou se podia me dar um abraço. Eu aceitei. Mal sabia eu que aquele 'sim' mudaria para sempre minha vida. Foi o abraço mais forte que recebi. O mais caloroso. Foi um carinho que ninguém havia conseguido me transmitir".

Um ano mais tarde, Zila estava finalizando o curso de Massoterapia oferecido pela MSMC. "Hoje eu ajudo outras pessoas que sofrem pelos mesmos problemas que eu sofria há 22 anos. Tudo que recebi naquele tempo, hoje procuro transmitir em dobro. Eu passei por tudo, então sei bem o que essas pessoas passaram. Elas só precisam de amor, de carinho e atenção". Além de ter sido "curada", Zila conta ter desenvolvido "habilidades que nem eu mesma conhecia". "Sou massoterapeuta, mas, sobretudo, sou uma pessoa alegre e disposta a ajudar o próximo".

Eficaz

"A socialização das terapias alternativas reduziu o preconceito e permitiu que muitas pessoas pudessem se abrir e falar sobre seus problemas, o que converge num tratamento mais eficaz", relata o mentor do MSMC, o psiquiatra e padre Rino Bonvini. Bonvin diz que é preciso "implementar o carinho e a atenção" nesses atendimentos, além de desenvolver uma fusão entre o social e o espiritual, com uma abordagem sistêmica e comunitária".

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