Suicídios

Capital carece de equipamentos preventivos

O Ministério da Saúde lançou agenda para atingir meta da OMS de reduzir 10% das mortes por suicídio até 2020

01:00 · 16.08.2018 / atualizado às 18:37
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Solidão, sentimento de 'não pertencimento', depressão, ansiedade são os maiores sofrimentos que passam as pessoas que ligam para o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço que funciona 24 horas por dia, há 31 anos no Ceará

A dor, a angústia e o sofrimento que antecedem a ideia de tirar a própria vida não têm uma única causa. Menos ainda saídas bem definidas. Dessa forma, 62.804 pessoas se suicidaram entre 2011 e 2016, segundo o primeiro boletim da prática no País, divulgado em 2017, pelo Ministério da Saúde (MS). A Pasta considera que, para cada suicídio cometido, existiram até 20 tentativas anteriores. De cada 100 pessoas na iminência do ato, só uma chega a ser atendida em um pronto-socorro. Com base nisso, serviços específicos de prevenção são um diferencial.

No Ceará, o único a trabalhar neste sentido, de forma exclusiva na prevenção do suicídio, é o Programa de Apoio à Vida (Pravida), da Universidade Federal do Ceará (UFC), que funciona no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). Outras alternativas são atendimentos pontuais, ou seja, sem uma continuidade no tratamento, ou em clínicas particulares.

"Seria ótimo se o Poder Público se comprometesse em criar um serviço parecido, mas, infelizmente, Fortaleza está atrasada nesse sentido", relata o coordenador do Pravida, Fábio Gomes de Matos. A gerente da Célula de Saúde Mental da Secretaria da Saúde de Fortaleza (SMS), Aline Gouveia, enfatiza que esse cuidado existe de fato. "Não é que não tratamos dessas pessoas, mas reforçamos a orientação e a sensibilidade de nossos agentes comunitários de saúde, que fazem uma busca ativa dentro das casas, detectando se há esse risco", afirma.

O Pravida tem 35 profissionais em seu quadro, entre psicólogos, assistentes sociais, médicos e enfermeiros, atendendo a 24 pacientes atualmente. O objetivo é reduzir o risco de iminência de suicídio entre os participantes, que chegam por meio de uma busca ativa dos profissionais em outras unidades de saúde, como o Instituto Doutor José Frota (IJF). O atendimento é considerado terciário, feito após o primário ou secundário - em postos de saúde e Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS).

Entre 2000 e 2016, a prática teve um salto no Brasil: foi de 6.780 para 11.736, uma alta de 73%. As maiores taxas de crescimento foram registradas entre jovens e idosos, segundo o MS. "É solidão demais, sentimento de 'não pertencimento', depressão, ansiedade. Em geral, esses são os maiores sofrimentos que passam as pessoas que ligam", destaca a coordenadora do Centro de Valorização da Vida (CVV) no Ceará, Rejane Felipe.

O CVV funciona 24 horas por dia e tem unidades em 23 estados brasileiros, sendo a mais antiga em São Paulo, com 56 anos. No Ceará, o posto tem 31 anos e, deles, Rejane foi voluntária durante 21. A coordenadora é auditora fiscal da Secretaria da Fazenda e, hoje, além de lidar com números, atua também com a escuta. "Ao ouvir o outro, que procura ajuda, os deixamos serem eles mesmos, sem julgamentos", relata.

Não há um acompanhamento ao paciente, por parte do CVV. Cada ligação é uma nova situação. "Às vezes, antes do fim da mesma ligação você já percebe a melhoria, quando o paciente já se sente melhor, mais aliviado", analisa. Segundo ela, são cerca de 6 mil atendimentos por chat, no número 188, gratuitamente.

Por meio presencial, "talvez uns três ao mês". Rejane atribui a baixa aderência à falta de conhecimento do projeto. São 48 voluntários. O único pré-requisito é ter mais de 18 anos, disponibilidade e calor humano, empatia no tratamento com usuários do serviço. Interessados podem se inscrever no site do CVV até 15 de setembro e passar por um curso de dois meses, em média.

O Ministério da Saúde lançou agenda para atingir meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de reduzir 10% das mortes por suicídio até 2020. As estratégias incluem capacitação profissional, orientação, expansão da rede de assistência, monitoramento dos casos e criação de um Plano Nacional de Prevenção do Suicídio.

Quem procura ajuda pode ainda ser amparado pelo Instituto Bia Dote, que funciona de segunda a sexta, de 8h às 17h, gratuitamente. O local conta com 10 psicólogos, que ofertam 70 horários semanais, além de atendimento psicoterapêutico em grupo para jovens e também acolhimento as famílias enlutadas por suicídio. Há também o plantão psicológico de Fortaleza, o atendimento em universidades, e nos CAPS.

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