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Bordados resgatam tradição e delicadeza

Encontros de gerações, os cursos que ensinam a bordar reúnem mulheres que transformam essa arte em um instrumento de luta e autoconhecimento

00:00 · 06.12.2015 por Karine Zaranza - Repórter
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Adriana Souto, Juliana Farias, Iderilse Peixoto e a professora Lúcia Ferreira exibem o painel em homenagem a Claudionor, discípulo de Chico da Silva ( Fotos: Cid Barbosa )

O tempo virou moeda. Nesse ritmo de urgências atropeladas pelas tecnologias, uma corrente vem pregando o pé no freio, a mão no bastidor e a linha desenhando uma trégua nessa pressa toda. O ato de bordar é quase um exercício de saber esperar e, nessa espera, além de tempo, se ganha encontros. É outra moeda, outro valor.

>Nova geração aposta na liberdade

Lúcia Ferreira, 62 anos, sabe que o tempo é relativo. Aprendeu menina, em Itapajé, a fazer seus pontos. Aos 12 anos fez seu primeiro curso de bordado, mas só veio assumir-se bordadeira quando se aposentou, em 2004. Fez curso com Martha Dumont e passou a ensinar outras pessoas o ofício da mãe.

Paciente com as linhas e com a vida, esperou quase 40 anos para se dedicar a sua paixão. Mas ela é firme ao dizer que sabia que o bordado ganharia mais espaço. "Sempre pensei que ele poderia ter um lugar de mais destaque. Há uns três anos, a gente nota uma procura maior pelos cursos. Viram que é uma produção mais artística, de lazer e também de relaxamento. Não é só de pano de prato e toalhinha. É uma produção autoral", comemora a professora.

Em suas aulas chegam mulheres de todas as idades e com motivações variadas. "Tem as meninas do curso de moda e arquitetura. Tem artesãs que querem aprimorar o trabalho com outra técnica. E tem professoras universitárias e médicas que querem desacelerar", conta ela, que lembra só de um homem matriculado em seus cursos. "Foi por engano, mas ficou até o fim".

A aposentada Iderilse Peixoto, 64, é uma das alunas do curso de bordado da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho. Depois de aprender crochê, origami e outra técnicas manuais, foi a vez de se dedicar ao bastidor e linha. A senhora que gosta de desenhar flores e paisagens é daquelas que não se entrega. Com Parkinson, ela faz de suas produções um exercício.

"Bordar é uma vitória. É uma forma também de evitar que a doença me pare. E eu gosto de aprender para passar para outras pessoas e para presentear com um pouquinho de mim", diz orgulhosa de cada um de seus desenhos caprichados.

Colega de turma de Iderilse, Adriana Souto, 44, trabalha com gastronomia e agregou o novo conhecimento em suas bonecas artesanais. "Pra mim é uma terapia, um resgate do que minha mãe fazia. Estou muito apaixonada", declara ela.

Renovação

O resgate das tradições vem forte nesse retorno das artes manuais no cotidiano das pessoas. Para a doutora em Educação e pesquisadora em artesanato Emanuelle Kelly, essa expansão que o bordado e outras técnicas tradicionais tiveram nos últimos anos refletem o espírito do tempo. "Hoje, existe um movimento muito grande do faça você mesmo. As pessoas querem procurar seu estilo, querem ser autorais. Não passamos só por uma crise econômica, é social também. E isso vem preencher esse vazio", defende a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Ela aponta ainda que esse resgate das tradições nãos se configura como uma fuga ao tecnológico. A palavra é conciliação. "Esse tempo da tecnologia é muito rápido. Tudo é muito descartável e as pessoas sentem falta de referências. Aí acontece essa procura no que há de mais próprio. Não é uma substituição, é uma conciliação. Uma releitura", avalia a mestre em Sociologia.

Essa reatualização do bordado não aparece somente na estética contemporânea, que se apropria de formas mais orgânicas e de uma liberdade estética. Sai do ambiente doméstico e ganha status de arte e de libertação. As bordadeiras utilizam suas agulhas e linhas como forma de emancipação, financeira e também social. Expressam o que sentem de um mundo, de uma forma cheia de delicadeza.

Foi assim com a estudante de Psicologia Laura Moreira Rodrigues, 23 anos. A jovem se matriculou em um curso como uma tentativa de se religar às atividades que lhe proporcionassem prazer. O lazer ganhou outras possibilidades: de expressão artística e de trabalho.

Laura criou a Lau, uma grife que trabalha o bordado livre como arte contemporânea. "A ideia da marca é repensar o bordado livre de uma forma que os bastidores de madeira sejam a própria moldura e assim os bordados sejam apresentados como um quadrinho". Com a Lau, Laura mescla tecnologia e o tradicional. E isso é o ponto especial do seu trabalho. "Apesar de fazer bordado livre com técnicas tradicionais, eu divulgo a marca através do Instagram, que é uma rede social que fala diretamente com o meu publico".

Saiba mais

Começou no exterior e ganhou o nome de " riot embroidery" o movimento que quer fortalecer a luta feminina através de bordados. Os desenhos mostram corpos de mulheres e outros 'tabus' pra fortalecer o feminismo e reivindicar mudanças em todos os níveis da sociedade. Na verdade, isso já aconteceu em outro momentos da História. Na ditadura chilena (1973 - 1990), as mulheres dos subúrbios de Santiago utilizaram o bordado como uma das principais formas de denúncia da repressão sofrida durante o regime comandado pelo general Augusto Pinochet. As lutas são outras, as ferramentas as mesmas.

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