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Bom Jardim: moradores fazem ato pedindo paz

A violência que marca a região do Grande Bom Jardim afeta, principalmente, a população jovem

01:00 · 31.05.2018
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O ato contou com a participação em peso do público jovem, que seguiu até a Praça Santa Cecília, no bairro Granja Lisboa FOTO: HELENE SANTOS

O rufar dos tambores tocados por jovens do bairro Bom Jardim ecoou pela Praça do Santo Amaro durante a tarde de ontem (30). A quinta edição da Caminhada pela Paz do Grande Bom Jardim (GBJ) denunciou o alto índice de homicídios de adolescentes e jovens na região, reunindo a população que clamava por direitos: à cidade, à educação, à assistência social, cultura, ocupação dos espaços públicos e ao meio ambiente saudável.

No ano de 2017, o GBJ contabilizou um total de 245 homicídios de moradores. Destes, 70 eram adolescentes. Os casos no local são caracterizados pela violência, com duas chacinas, três triplos homicídios e mais de doze duplos homicídios em apenas um ano. Sob uma perspectiva mais ampla, durante os dez anos compreendidos entre 2007 e o ano passado, estima-se que a região tenha registrado mais de 1.800 mortes.

"Nós reunimos a sociedade que temos para lutar pela sociedade que queremos. São muitas denúncias de crimes, é uma situação de barbárie. Queremos desnaturalizar essa violência e exigir políticas públicas que garantam o direito à vida", afirma Marileide Luz, organizadora da Caminhada e membro do Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS).

Discriminação

O ato contou com a participação em peso do público jovem, que seguiu até a Praça Santa Cecília, no bairro Granja Lisboa. A região do Grande Bom Jardim, que também compreende os bairros Canindezinho, Granja Portugal, Granja Lisboa e Siqueira, já recebeu ações de três políticas públicas: Ronda do Quarteirão, Pronasci - Território de Paz e Ceará Pacífico. "Em sua totalidade, essas políticas não funcionam", relata Graça Castro e Silva, membro da Rede de Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede DLIS).

"O morador daqui já tem que lidar com duas estigmatizações: o fato de viver em um lugar violento, e a discriminação por viver em um lugar violento. Isso marca a formação dessas pessoas, e eles carregam isso para a vida", explica o sociólogo Luiz Fábio Paiva, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Laboratório de Estudos da Violência (LEV-UFC).

A situação de "rivalidades internas entre gangues" no bairro tornou-se um ciclo vicioso há pelo menos 20 anos, segundo o professor, e apresenta tendência a se agravar com o tempo.

Vítimas

Segundo os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Censo de 2010, 59% da população do GBJ era composta por jovens entre 0 e 29 anos. Estes tendem a ser, também, as principais vítimas da violência na região.

A estudante Caroline Ximenes, de 17 anos, é moradora do bairro há dez anos e lamenta a situação "agravante" no local. "Só piorou com o tempo. Nós sentimos medo. Nem nos reggaes, que são o nosso lazer, a gente se sente seguro. Falta um enriquecimento cultural, que seria bom para os jovens", diz. (Colaborou Barbara Câmara)

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