Bolsa Família: incentivo social ou estímulo à vida de acomodações? - Cidade - Diário do Nordeste

Assistencialismo

Bolsa Família: incentivo social ou estímulo à vida de acomodações?

25.04.2013

130.465 famílias que possuem jovens de 15 a 29 anos são cadastradas no Bolsa Família. Destas, 93.973 estão ativas

Ter o que comer no café da manhã, mas não ter o que jantar. Morar em uma cidade litorânea e nunca ter ido à praia. Cinema, museus, pontos turísticos e restaurantes? Eles não frequentam esses lugares. Milhares de jovens pertencentes a grupos classificados como pobres ou extremamente pobres, que moram em Fortaleza, estão inseridos nesse cenário. Sem qualificação profissional, oportunidades e com baixa escolaridade, o que resta para eles é "sobreviver" com ajuda do benefício social Bolsa Família.

Mesmo enfrentando a violência, pobreza e a falta de investimento, Patrícia de Paula, 21, moradora do Conjunto Palmeiras, nunca desistiu dos sonhos e montou uma loja de cosméticos dentro de casa fotos: Fabiane de paula

Em Fortaleza, segundo dados da Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome (STDS), 130. 465 famílias que possuem jovens de 15 a 29 anos são cadastradas no Bolsa Família. Destas, 36.492 não revalidaram o cadastro neste ano, portanto, 93.973 famílias estão ativas e são beneficiadas.

A Secretaria Executiva Regional (SER) V, onde estão localizados bairros como Bom Jardim, Granja Lisboa e Granja Portugal, e a SER VI, composta por bairros como Conjunto Palmeiras e Jangurussu, são as regiões com maior concentração de famílias beneficiadas, 30.223 e 23.617, respectivamente.

Pobreza

Coincidência ou não, nestas localidades, é possível encontrar também o maior número de jovens pobres e extremamente pobres da Capital. Conforme dados do Cadastro Único, somente nos bairros que compõem a SER V, são 37.465 pessoas entre 15 e 29 anos vivendo em situação de miséria, ou extrema pobreza. Na SERVI, os jovens neste perfil são 23.617. O mesmo cenário se repete em relação à população pobre com esta faixa etária. Existem 14.419 jovens na SER V e outros 11.716 que vivem nestas condições morando na SER VI.

Um cenário que a estudante Renata Holanda, 16, moradora do bairro Granja Lisboa, na Regional V, conhece de perto. Filha de um ajudante de padeiro e uma dona de casa, a menina tem quatro irmãos, sendo dois mais novos e dois mais velhos. Na casa moram sete pessoas, mas todos estão desempregados. O resultado dessa situação, segundo Renata, é a sobrevivência por meio do Bolsa Família. O benefício totaliza R$ 270.

"Nós vivemos com a graça de Deus. A sorte é que, como participamos da igreja, a comunidade nos ajuda muito. Às vezes, eles doam leite, arroz, feijão, e a gente vai se virando. Meu pai faz uns bicos e consegue levar um trocado para casa. Eu também faço o que posso e vendo algumas coisinhas, como brincos ou roupas", explica Renata.

Ela conta que é difícil morar em um bairro perigoso e vulnerável, não apenas pelo fato da violência do local, mas pelo preconceito social que sofre. "Eu já tentei conseguir emprego várias vezes e não deu certo. O primeiro empecilho é a minha idade, pois as pessoas dizem que sou muito nova, e a segunda barreira é o bairro onde moro, pois quando falo que minha casa fica na Granja Lisboa noto, claramente, o preconceito. Foi assim na última entrevista de emprego que fiz", diz.

Sonho

Mesmo diante das dificuldades Renata afirma que não vai desistir, pois tem um sonho para concretizar: passar em um concurso e ser policial. "Sempre achei bonito uma mulher policial, acho que é uma profissão de honra. É uma oportunidade de ser alguém na vida. Além de estar trabalhando, poderia tirar as drogas de circulação e manter a ordem social", vislumbra.

Renata é um exemplo entre milhares de jovens que se mantêm com programas de assistência social, consequências da carência de apoio de políticas públicas na vida econômica ou estímulo de projetos sociais na própria comunidade.

Este cenário passou a mudar no Conjunto Palmeiras, após o surgimento de um projeto coordenado pelo Banco Palmas, voltado para mulheres que, como Renata, são beneficiadas com o Bolsa Família. O Projeto Elas estimula 3.600 pessoas a irem em busca de seus sonhos e a resgatarem a autoestima, saindo do comodismo do lar para construírem uma carreira.

Joaquim de Melo, coordenador do Banco Palmas, explica que o Projeto Elas nasceu da vontade de incluir de forma produtiva, social e financeira mulheres beneficiadas com o Bolsa Família. Para ele, o estímulo é fundamental na tentativa de evitar a acomodação. "A miséria coloca uma algema na cabeça das pessoas a ponto de elas não conseguirem fazer nada mais do que comer, dormir e cuidar dos filhos e do marido. A primeira coisa que fazemos é aumentar a autoestima dessas pessoas e, depois, começamos um lento processo de inclusão socioprodutiva", destaca.

De acordo com Joaquim Melo, cerca de 70% das mulheres acompanhadas pelo projeto sequer tinham visto o mar, frequentado o cinema ou o teatro. Diante desta situação, segundo o coordenador, a iniciativa promove visitas a esses lugares. "Levamos os grupos para o Dragão do Mar, museus e pontos turísticos. A ideia é estimular essa mulheres para a vida", afirma.

Além disso, elas participam de um curso de educação financeira, que aborda o orçamento familiar, estimulando e capacitando-as para o mercado de trabalho. "O Bolsa Família não tira ninguém da pobreza. Ela continua sendo uma pobre que, temporariamente, tem renda porque o governo está oferecendo, mas as suas condições de empregabilidade estão destruídas", analisa Joaquim de Melo.

Porém, ele destaca que não é contra o benefício, pelo contrário, acredita que é uma ajuda importante, mas sem apoio de consultores e técnicos que acompanhem a vida social e financeira dos beneficiados, não há como sair do comodismo. "Ninguém sai da pobreza sozinho. A pessoa precisa desejar não ser pobre. Para superar essa miséria, é necessário um conjunto de ações integradas, redefinidas e adaptadas à realidade. O Projeto Elas é adaptado ao mundo dos jovens do Conjunto Palmeiras".

E foi a força de vontade de Patrícia de Paula, 21, e o apoio do Banco Palmas que a fizeram persistir em suas ideias para o futuro. A jovem engravidou precocemente aos 15 anos. Na época, precisou parar de estudar, mas, com ajuda da mãe e do marido, ela não se acomodou apenas com o benefício do Bolsa Família.

Logo depois do nascimento da filha, voltou a estudar, concluiu o Ensino Médio e começou a trabalhar em uma empresa como jovem aprendiz. No entanto, ao 19 anos, Paula engravidou novamente e, após o nascimento do filho, decidiu pedir demissão e colocar uma loja de cosméticos dentro da casa onde mora, no Conjunto Palmeiras.

Patrícia conta que, em uma das visitas ao Banco Palmas para receber o benefício, viu cartaz do Projeto Elas e decidiu se inscrever. A partir daí, a sua paixão pela vida e a vontade de crescer só aumentaram. "O projeto me despertou para o meu futuro. É um grande estímulo, pois muitas meninas da minha idade apenas cuidam da casa dos filhos e entram na filosofia que mulher só serve para pilotar fogão. O projeto mostra que existe um mundo bem maior lá fora".

A jovem é um exemplo de superação, pois não se acomodou em apenas receber o benefício do governo, mas como a mesma citou, muitas colegas do bairro não têm essa mesma ação. E, diante deste cenário, o titular da 1ª Vara das Execuções Penais, Luiz Bessa Neto, acredita que as políticas assistencialistas, a exemplo do Bolsa Família, sejam ações "irresponsáveis" e "defeituosas". Isso porque são programas que acabam "estimulando a formação de um grande cinturão da marginalidade no País", de acordo com ele. "Os jovens ficam no ócio aguardando os benefícios e acabam se consorciando com grupos de violência", avalia.

Entretanto, para o titular da Coordenadoria Especial de Políticas Publicas de Juventude, Élcio Batista, o Bolsa Família é uma política pública importante, pois sem ela o universo da pobreza no Brasil seria muito maior. Segundo ele, o benefício contribui para que esses jovens não se marginalizem e, talvez, com algum esforço encontrem o caminho da profissionalização.

Porém, Élcio reconhece que somente o benefício não resolve. Para apoiar essa juventude, a Coordenadoria, com ajuda da STDS, está mapeando onde há uma maior concentração de jovens beneficiados. "Queremos agir em parceria com outras secretarias de forma intersetorial, oferecendo oportunidades. Não adianta acreditar que eles estão felizes, somente com esse benefício. É preciso aproximá-los da cultura, educação e lazer", diz.

Mais informações

Banco Palmas (Projeto Elas)
Endereço: Rua Valparaíso, 698- Conjunto Palmeiras
Telefone: (85) 3459-4848
Site: http://www.bancopalmas.com.br/

´Acordar para o mundo´ após dez anos de afastamento

"Eu me envolvi com um rapaz aos 14 anos e engravidei, a partir daí minha vida mudou completamente. Assumi meu filho sozinha, apenas com ajuda da minha mãe, parei de estudar e não me capacitei. Quatro anos depois, engravidei novamente e a situação só piorou. Passei dez anos da minha vida vivendo com o benefício do Bolsa Família no valor de R$164 para sustentar meu dois filhos. Para sobreviver, contava com uma pequena ajuda dos meus familiares", relata Iana Kelly Batista, 27.

Iana Batista, 27, mudou de vida após ser incluída em projeto social, no Conjunto Palmeiras

A jovem moradora do Conjunto Palmeiras nasceu em uma família humilde e tinha que dividir tudo com os quatro irmãos. Filha de uma dona de casa e de um mestre de obras, nunca teve grandes sonhos, ou projetos, já que, no início da juventude, precisou assumir o compromisso de ser mãe solteira.

Quando os pais regressaram para a cidade de origem, Morada Nova, a jovem decidiu ficar em Fortaleza. No entanto, sem estudo, ou qualquer capacitação, Iana não conseguia encontrar emprego formal, o máximo que fazia era algumas faxinas, pois precisava voltar correndo para casa, já que não tinha quem cuidasse dos filhos.

"Nesta época, a vida era muito difícil. Tinha dias que dava para merendar de manhã, mas à tarde, não. Sem ter o que comer, eu precisava pedir na casa da minha irmã. Sair de casa para me divertir, nem pensar. Passei minha adolescência afastada do mundo, não tinha outra opção a não ser o Bolsa Família", diz.

Despertar

Após anos de privações, um cartaz pregado na parede do Banco Palmas fez a jovem Iana "acordar" para a vida. Ela conta que foi receber o benefício do Bolsa Família e viu o informe que convocava mulheres a participarem de um projeto chamado "Elas". Mesmo sem certeza da aprovação diante de centenas de candidatas, Iana se inscreveu e pediu a Deus para passar.

"Quando eu vi aquele cartaz, senti que aquele projeto de alguma maneira poderia mudar a minha vida. Lá, eles ofereciam cursos de capacitação em costura, culinária e eu poderia aprender e conseguir um emprego. Não achei que seria chamada logo da primeira vez, mas tudo deu certo e, desde outubro de 2012, eu faço parte do projeto", conta.

A jovem moradora do Conjunto Palmeiras que nunca tinha ido a um cinema, museu ou qualquer ponto turístico da Cidade, começou a ver o mundo com outros olhos. E esta visão fez com que Iana voltasse a estudar e, há um mês, conseguiu o seu primeiro emprego com carteira de trabalho assinada em uma padaria do bairro.

"Eu aprendi coisas no Projeto Elas que nunca passaram na minha cabeça, como o direito da mulher e lidar com as finanças do lar. Conheci lugares em Fortaleza que eu jamais pensei em conhecer, o Dragão do Mar, museus. Antes não tinha oportunidade. O projeto foi ótimo, pois abriu os meus olhos e de várias mulheres", conclui.

Para o professor João Mário de França, coordenador executivo do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP) da Universidade Federal do Ceará (UFC), a história de Iana e de outras jovens beneficiadas do Bolsa Família e pertencente à parcela pobre ou extremamente pobre da população são explicadas dentro de um contexto histórico do País. "Fatores históricos levaram o Brasil a concentrar os recursos nos estratos mais altos da pirâmide social. Desta forma, optou-se por excluir uma parcela da população dos frutos do desenvolvimento econômico", ressalta.

Dependência

Ele afirma que esses indivíduos excluídos, por não desenvolverem plenamente suas habilidades, apresentam forte escassez de renda salarial, e passam a depender de outras fontes de renda. Nessa ótica, o Bolsa Família é um caminho importante, possuindo vantagens como o custo fiscal, as contrapartidas e o envio direto aos beneficiados.

Contudo, segundo João Mário, o desenho de ações para a superação da pobreza deve estar centrado em políticas baseadas na melhoria das características das pessoas, e deve ter como bases, além da transferência direta de renda, a geração de empregos, o retorno de ativos para os pobres e, especialmente, o fornecimento de bens públicos essenciais como água, saneamento, saúde, e educação.

Portanto, para o professor, o Bolsa Família é uma ação necessária, dado o alto nível de escassez de renda de parte da população, mas não deve ser visto como solução única para o problema de superação da pobreza no País, uma vez que esta só será possível a partir de um conjunto de ações voltadas para o engrandecimento do ser humano.

"Ao promover políticas que melhorem as características de indivíduos mais pobres, os governos contribuem para a redução da desigualdade, favorecendo, por conseguinte, o crescimento econômico, principalmente, pelo aumento do mercado interno e pela redução das atividades ilícitas, dos gastos improdutivos e das restrições de crédito. Ou seja, a superação da pobreza gera ganhos econômicos e de bem-estar para o conjunto da sociedade", afirma.

KARLA CAMILA
REPÓRTER

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