Blocos atualizam características do Carnaval de Rua - Cidade - Diário do Nordeste

FESTA POPULAR

Blocos atualizam características do Carnaval de Rua

31.01.2009

O desfile dos blocos de pré-Carnaval mostra como a festa é atualizada a partir do encontro do antigo com o novo

“Ô Abre Alas, que eu quero passar. Eu sou da Lira, não posso negar. Ô Abre Alas, que eu quero passar”. A música de Chiquinha Gonzaga permanece como um dos símbolos do Carnaval brasileiro e traz à mente lembranças seculares da folia momina. Mas, como o tempo não pára, vieram o axé, a percussão e até mesmo o forró. a festa ganhou novos sons, mas não perdeu suas raízes.

O desfile dos blocos de pré-Carnaval em Fortaleza é uma demonstração de como a festa pode ser atualizada a partir do encontro do antigo com o novo, da saudade com a folia, da cultura com o turismo, da comunidade com o poder público.

O evento ganhou vida própria e características bem particulares, mas é devedor das origens carnavalescas. Os blocos de hoje carregam consigo traços das primeiras brincadeiras de rua. Dos blocos dos sujos herdaram muitos costumes, como as fantasias improvisadas ou mesmo com roupa comum. Além dos instrumentos de improviso e dos sambas e marchinhas cantados em cortejo pelas ruas de Fortaleza.

Os blocos de pré-Carnaval guardam como característica mais marcante a participação popular. “As pessoas tomam a festa para si, participando diretamente da folia, realizando a própria folia. O espaço público da cidade também é ocupado de modo mais intenso e descentralizado, as sociabilidades comunitárias tornam-se visíveis”, avalia Márcio Caetano, secretário executivo da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor).

Para o professor universitário Christian de Oliveira, o pré-Carnaval de Rua de Fortaleza tem muitos pontos positivos. “Esse evento nos faz entrar no clima tanto social como administrativamente”, afirma. Contudo, o autor do livro “Geografia do turismo na cultura carnavalesca: o sambódromo do Anhembi”, destaca que Fortaleza não tem a festa carnavalesca que merece. “Do Carnaval sim eu percebo um ponto positivo na resistência mas um negativo na ´pequenez´ que não produz uma festa como Fortaleza mereceria e as demandas contemporâneas exigem”.

O pesquisador ressalta que se o poder público investisse em uma discussão política e técnica permanente, o Carnaval de Fortaleza teria tudo para se tornar um grande evento, atrativo para turistas e fortalezenses. “Mas, infelizmente, passamos a maior parte do ano sem falar no assunto. Como divulgar, turisticamente, em julho um Carnaval que só vai ser pensado em janeiro?”, questiona Christina de Oliveira.

A intenção da Prefeitura de Fortaleza é descentralizar o Carnaval e não deixá-lo restrito somente ao desfile na Avenida Domingos Olímpio. Desde o ano passado foi iniciada esta tentativa. Márcio Caetano ressalta que o pré-Carnaval se diferencia do Carnaval de Rua, mais precisamente do desfile na Av. Domingos Olímpio, porque este requer mais empenho do que o investido na formação dos blocos de pré-Carnaval.

“A organização de uma escola de samba ou de um maracatu é mais complexa, exige tempo e trabalho por parte da comunidade envolvida. E o desfile carnavalesco ainda possui a marca da competição. Além disso, vemos que o desfile incita mais a contemplação do que a participação direta dos brincantes, ou seja, as pessoas vão para assistir as agremiações desfilarem e não para brincar ou dançar juntos”, afirma.

Para o professor universitário o que há de mais promissor no Carnaval de Rua de Fortaleza é “a força sacro-profana dos Maracatus e espontaneidade de alguns blocos e bandas que, mesmo com o fim do pré -Carnaval, fazem o Carnaval na época! Isso me parece uma centelha de esperança futura!”.

ORIGEM PAGÃ
Folia foi absorvida pela cultura cristã

O Carnaval é uma festa secular e suas origens são pagãs, remetendo às festas greco-romanas de celebração das colheitas. Depois, a prática se adaptou à urbanização e foi absorvida pela cultura cristã, passando a designar as solenidades litúrgicas da Quaresma.

O gosto pelo festejo, herdamos dos portugueses, que para o Brasil trouxeram o entrudo. O famoso “mela-mela”, praticado nas praias do litoral cearense deriva das primeiras brincadeiras carnavalescas, quando nos séculos XVIII e XIX, os escravos festejavam o Carnaval jogando farinha de trigo ou espirrando água uns nos outros.

A brincadeira fez com que muitas pessoas evitassem sair às ruas durante o entrudo, o que motivou a realização dos bailes de máscaras pela elite do Império, e a partir de 1840 para a classe média. Até então, não havia um Carnaval de rua. Somente com o passar do tempo e a organização da festa, os desfiles e cortejos vão para as ruas das cidades.

Enquanto os mais abastados se restringiam aos salões e festas luxuosas com desfiles de carros alegóricos, o povo organizou o maracatu, cordões, blocos, ranchos, frevos e posteriormente as escolas de samba.

A dualidade festa dos ricos versus festa dos pobres ainda permanece, mas há momentos em que as classes se misturam e o Carnaval ganha uma feição verdadeiramente democrática. A folia de rua é propícia a esse encontro. Mesmo alguns blocos ficando restritos aos bairros onde são criados, o pré-Carnaval de Rua de Fortaleza consegue abarcar um público amplo e diverso da Capital.

Na contagem oficial, em torno de 200 mil pessoas acompanham os blocos carnavalescos nos dias do evento. Em cinco anos, a proliferação de blocos na periferia da cidade se acentuou e hoje já chega a 80 o número de grupos.

Muitos deles se concentram na região da orla marítima, com destaque para os blocos da Praia de Iracema, famosos em toda a cidade e que também agregam os visitantes em férias na Capital cearense.

Naiana Rodrigues
Repórter

ENTREVISTA
Carnaval ajudou o brasileiro a construir uma identidade regional

CHRISTIAN D. M. DE OLIVEIRA
Coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado em Geografia da UFC

O Carnaval é tido como a maior festa popular brasileira. O que o fez ter esse título?

Basicamente uma junção de fatores internos e externos. Internamente, desde o século XIX, com a adaptação do Entrudo português a outras festas, cortejos e tradições, aperfeiçoamos o Carnaval em criatividade, diversidade e ousadia. Externamente, o Carnaval nos ajudou a construir uma identidade regional, na escala mundo somos “brasileiros” porque carnavalizamos a existência. E carnavalizar pode sim significar uma experiência de conviver bem com os absurdos e contradições: a desigualdade social, a fome, violência urbana e rural.

Ao longo da história do Carnaval, elites e camadas mais populares tiveram formas diferentes de festejar. Hoje, o Carnaval se democratizou?

Divisões e misturas simultâneas são um complicador característico do desenvolvimento e das formas de brincar a festa carnavalesca. Em parte, o Carnaval reproduz de maneira fantasiosa ou disfarçada as clivagens sociais. Mas em muitos momentos reina uma experiência democrática. A “desordem” dele é um ritual; não é uma condição absoluta. Todo ritual para existir precisa ordenar-se. O problema é a medida desse ordenamento e a dúvida é saber: será que eu democratizo mais ordenando mais?

Enquanto no Rio de Janeiro, tem-se o brilho dos desfiles das escolas de samba, em estados como Bahia e Pernambuco, o Carnaval é nas ruas. A que devemos estas diferenças?

Esta caracterização de destaque só serve para obstruir, barrar nosso conhecimento e nossa curtição da festa. Eu posso participar de um Carnaval no Rio, sem brilho algum, nas muitas ruas do Centro ou dos bairros, brincando a espontaneidade da mistura. Ou posso viajar a Recife e Salvador e ficar empacotado nas cabines e camarotes. É interessante que a midiatização conservadora da festa tenha congelado características tão restritivas para uma festa tão ampla. Ninguém fala do Carnaval de Florianópolis, de Belo Horizonte ou das Escolas de Samba de São Luiz. Por que? Porque o Carnaval continua sendo tratado com pouco estudo e muito preconceito.

Quais as características do Carnaval cearense na atualidade?

Muito marcado pelas formas de comemoração das cidades pólo no interior: São Benedito, Guaramiranga, Aracati, entre tantas, fazem da festa uma de suas marcas de evento anual. O que podemos lamentar é Fortaleza ter a festa, mas insistir em reduzi-la a uma dimensão bem menor do que o tamanho dessa Metrópole.




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