transmissão por mosquitos

Bienal da Academia de Medicina discute viroses

No fim do evento, a Academia encaminhará documentos técnicos a várias entidades da área de Saúde

Mais de 80% dos focos do Aedes aegypti estão nas casas das pessoas; por isso, o papel do poder público é o de conscientização da população ( Foto: Cid Barbosa )
00:00 · 19.05.2017 / atualizado às 00:22 por Renato Bezerra - Repórter

Buscando abranger temas de grande repercussão social e de interesse na área de saúde pública, a XVII Bienal da Academia Cearense de Medicina (ACM) deu início, ontem pela manhã, aos encontros de discussão tendo como foco o tema "Viroses transmitidas por mosquitos - Dengue, Zika e Chikungunya". O evento ocorre até hoje no hotel Sonata de Iracema, em Fortaleza, reunindo especialistas e pesquisadores de todo o País.

Questões diversas estiveram na pauta do primeiro dia, como aspectos históricos e epidemiológicos dos vírus, situação atual das arboviroses no Estado e no Brasil, diretrizes clínicas, perspectivas de controle do Aedes aegypti, entre outras. No fim do evento, a Academia deve encaminhar documentos técnicos ao Ministério da Saúde, à Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) e para a Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza (SMS).

"Sairão daqui recomendações que deverão ser seguidas para que se diminua a incidência dessas doenças. A quantidade de pessoas acometidas pelas arboviroses é incrível e as estatísticas podem estar subestimadas. O número deve ser ainda maior", conta o médico coordenador da Bienal, Vladimir Távora Fontoura Cruz.

Para o infectologista Anastácio Queiroz, não há outra alternativa dentro do cenário atual que não envolva os trabalhos de prevenção. Apesar da maior incidência para a chikungunya neste momento, o médico afirma que o alerta deve continuar para as três doenças causadas pelo mosquito transmissor.

Importante

"Dentro da avaliação que se pode fazer, temos muitos casos de chikungunya, um pouco menos de dengue e um pouco menos ainda de zika, mas é importante enfatizar que, mesmo que as doenças caiam nesse período, nós continuaremos ao longo de todo o ano tendo casos. Não podemos baixar a vigilância.

Segundo ressalta o infectologista, mais de 80% dos focos do Aedes aegypti estão nas casas das pessoas e por isso o papel mais importante por parte do poder público é o de conscientização da população quanto às formas de prevenção.

"Talvez nós todos não fomos capazes de passar uma mensagem para as famílias como isso tem que ser feito, porque as pessoas não são irresponsáveis, elas também querem ter saúde, não querem adoecer. Acho importante que nós tivéssemos um check-list que a Prefeitura entregasse às famílias para verificarem os diferentes tipos de focos dentro de casa. Se nós convencêssemos as pessoas de que elas são fundamentais nesse processo talvez nós teríamos mais sucesso, esse é o desafio, porque o nosso insucesso tem sido muito grande", aposta Anastácio Queiroz.

Tendo como base o controle do vetor, as perspectivas ainda não são positivas, conforme avalia o médico Luciano Pamplona, biólogo e especialista em vigilância epidemiológica. Segundo aponta, cada medida e estratégia de combate deve ser articulada conforme as características de cada região, uma vez que o mosquito se adequa a essas condições. "Talvez um dos grandes pecados seja acreditar ainda que o poder público é capaz de resolver isso. Na verdade, é impossível. Não tem nenhuma ferramenta disponível no mundo que um governo, seja ele qual for, seja capaz de pegar essa ferramenta, intervir e controlar o Aedes aegypti. Enquanto não existir uma conscientização definitiva da população, esse controle é absolutamente impossível".

Ainda de acordo com o especialista, as novas ferramentas de combate em estudo, como a infecção do mosquito com bactérias que diminuem seu tempo de vida ou a esterilização dos mosquitos por irradiação, por exemplo, se mostram muito limitadas para o País.

Distante

"Essas grandes tecnologias me parecem muito distantes da realidade. A realidade para mim é aquela em que eu tenho um município no Sertão Central que precisa de uma ferramenta específica para utilizar. Para os 5 mil municípios que o País têm, não há ferramentas disponíveis para que um laboratório infecte um mosquito com bactéria ou, para tornar um mosquito estéril por radiação. São tecnologias muito interessantes para bons artigos, para países desenvolvidos, mas para a maior parte dos municípios brasileiros, repito, isso fica muito distante da realidade", afirma Luciano Pamplona

Entrevista com Eurico Arruda Neto*

1. O fortalecimento das três principais arboviroses: dengue, chikungunya e zika está muito ligado ao clima mais tropical, especialmente aqui no Nordeste?

A disseminação de chikungunya, zika e dengue depende da abundância extrema que nós temos na nossa região, devido ao nosso clima, do Aedes aegypti. Esses vírus encontra um terreno propício onde existe bastante desse vetor, desse inseto para a transmissão. A piora dos casos de zika pode ser devido ao fato de que nós tínhamos muito anticorpo, muita imunidade para a dengue, na mesma região. Os vírus que são da mesma família da dengue, quando eles chegam num lugar onde já existia dengue podem causar doença mais grave porque o anticorpo antidengue não protege contra esse outro, no caso zika, mas, ao contrário, pode ajudá-lo.

O que podemos atribuir ao "boom" de chikungunya?

O boom de chikungunya é um boom ambiental. O vírus chegou, não estava aqui, foi um vírus que veio trazido da Europa, da África e da Ásia até aqui, onde encontrou um ambiente muito propício, com calor, altas temperaturas e muito Aedes. E esse vírus é adaptado ao Aedes. Então esse é um vírus de Aedes. A gente pega esse vírus por acidente. A chikungunya não nos quer, ela quer o Aedes.

Qual a probabilidade de termos novas arboviroses no País e quais são elas?

A probabilidade é enorme. Eu diria que é uma certeza. É uma questão de vigiar, porque vai aparecer. Você tem uns vírus que são fortes candidatos a entrarem pesado, como o Oropouche, que vem da Amazônia e já existe em circulação no Brasil. Não é novidade. Só que ele pode se espalhar para outras regiões extra-amazônicas; o vírus do Nilo Ocidental; o vírus da encefalite equina venezuelana, que está aqui do lado na Venezuela e na Colômbia, dentro de um mesmo bioma. Só precisa que o mosquito carregue ele para cá, ou que venha alguma ave imigratória infectada que traga ele para cá. Temos muito com o que nos preocupar sim. Tem a encefalite de Saint Luis, que é um vírus que transmite doença neurológica importante. Já foi detectado no Estado de São Paulo. Ele pode chegar. Temos que nos preparar para eles porque vão vir.

*Prof. Titular de virologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto

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