Reportagem Equipamentos públicos

Bibliotecas são improvisadas e com verba restrita para investimento

Parte do acervo se encontra em galpões da antiga Rffsa, na Praça Castro Carreiro
00:00 · 17.06.2017 por Marcus Peixoto - Repórter

Como se não bastassem as carências de recursos humanos e financeiros, a concorrência com novas ferramentas de buscas, particularmente disponíveis pela internet, explica a frequência cada vez menor nas bibliotecas públicas, especialmente a Menezes Pimentel, mantida pelo Estado, e a Dolor Barreira, vinculada à Prefeitura de Fortaleza.

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.Dolor Barreira é afetada por baixo número de servidores

Para completar o rosário de dificuldades, reformas recentes de prédios e restauros de obras antigas e raras dificultam a consulta para um grupo seleto de estudiosos. No entanto, a magia do livro mantém-se viva e, a despeito da quantidade, continuar a atrair aqueles pela qualidade para quem a literatura, pesquisa e leitura são indispensáveis para o desenvolvimento intelectual.

As principais bibliotecas públicas do Estado e do Município dão demonstrações de debilidade. A Menezes Pimentel passa há mais de dois anos por serviços de reformas nas suas instalações, inclusive com a construção de um serviço de integração com o Centro Dragão do Mar, que embora sejam edificações vizinhas não possuem uma interligação para os usuários.

Precariedade

Apesar do interesse ser mantido, o fato é que, pelo menos parte do acervo da Biblioteca Menezes Pimentel encontra-se em instalações improvisadas, numa área vulnerável em decorrência da convivência com os moradores de ruas e, para piorar, reparte seus espaços com o material do Arquivo Público do Estado, que também foi deslocado para os antigos galpões da Rede Ferroviária, na Praça Castro Carreiro.

A coordenadora de Políticas de Livros, Leitura, Literatura e Biblioteca, da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), Mileide Flores, diz que há de fato uma redução no número de leitores de biblioteca em todo o País, conforme se verificou nas últimas pesquisas. Daí, como salienta, aumentam os desafios para uma mudança conceitual.

Mesmo com a reforma física do prédio e aquisição de novo mobiliário, outro problema é a carência de pessoal. Desde a existência da Menezes Pimentel, nunca houve concurso público. Agora, Mileide disse que há uma promessa do governador Camilo Santana para ampliar os quadros de servidores até 2018.

O bibliotecário Valdenir Braga reconhece a dificuldade de acomodar todos os livros e documentos do prédio original da biblioteca, localizado na Avenida Castelo Branco. "Ali, são cinco pavimentos dentro de uma área de 2.500 metros quadrados", explica. Conforme salienta vieram para os galpões da Rffsa apenas 50.800 livros do total de 127 mil títulos.

Redes sociais

Valdenir estima que há uma média de 500 visitantes mensais, desde abril passado, quando parte do acervo chegou àquele local, que é uma das edificações integrantes da Estação Ferroviária Engenheiro João Felipe.

"Houve muita divulgação, inclusive nas redes sociais, mas é impressionante o número de pessoas que ainda desconhece nosso serviço", salienta o bibliotecário. Ao mesmo tempo, chama a atenção para a manutenção da qualidade dos frequentadores, que buscam livros de modo a constar em bibliografias válidas em trabalhos científicos ou acadêmicos, referências de pesquisas que não são mais encontradas em livros em circulação ou mesmo em sebo e, por fim, de uma coleção de títulos que remontam até dois séculos.

O que tem garantido não apenas a sobrevivência mas também uma fidelidade de público é, na opinião da restauradora Maria de Jesus Gomes, a oferta inusitada de documentos, somente encontrada na Menezes Pimentel. Lembra que são diversos os grupos de estudantes que buscam material histórico, sobretudo alunos de graduação e pós-graduação até doutorados.

Esse é o caso da estudante de História Elisa Mirna, que está centrando sua pesquisa no acompanhamento da imprensa sobre o bando de Lampião, notório cangaceiro da década de 1930. Ela e colegas que integram o grupo de trabalho da faculdade buscam elementos que possam inspirar estudos da violência nos dias de hoje, além de considerar que é uma figura marcadamente emblemática dos conflitos e da cultura nordestina.

Restrições

Elisa lembra que os elementos da pesquisa não puderam ser encontrados na hemeroteca da Universidade. No entanto, criticou a precariedade no atendimento aos usuários, como a falta de luvas e máscaras para o manuseio dos jornais antigos preservados na Menezes Pimentel. Do mesmo modo, o doutorando Renato Mesquita buscou a biblioteca estadual para embasar sua pesquisa em torno dos movimentos culturais na década de 1940 por meio dos jornais da época. Naquele período, surgiu O Grupo Clã fundado em 1943 e reuniu, no Ceará, com os escritores da chamada Geração de 45 do Modernismo, sendo seus principais expoentes Raimundo Girão, Antônio Girão Barroso e Martins Filho.

"O que observamos é que a cultura nunca foi uma prioridade de estado. Mesmo assim, é errado considerar o Ceará como um estado periférico. A produção intelectual daquela época tem seu valor, porque se manifestava com talentos e sem a influência de mecenas", observa.

Para Renato, houve grandes avanços na Menezes Pimentel. Lembra dos tempos que não havia ar condicionado e nem água. Contudo, ressalta que a cultura não foi preterida apenas no Ceará. Para ele, é um fenômeno comum em todo o País.

Investimento

"O setor de braile é ainda muito precário, porque existe um investimento maior para atender os deficientes visuais"

idalicia

Idalícia Estrela - Psicóloga

"Biblioteca é cultura e por isso tem sido preterida pelos governos, algo que ocorre não só no Ceará, mas em todo o Brasil"

renato

Renato Mesquita - Historiador

Biblioteca Menezes Pimentel

Telefone: 3101.6799

Biblioteca Dolor Barreira

Telefone: 3105.1299

Entrevista Hamilton Rodrigues Tabosa - Coordenador do curso de Biblioteconomia da UFC

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Dificuldade financeira sinaliza para pessimismo

Quais os desafios atuais para as bibliotecas públicas?

Sem concursos, não há renovação dos recursos humanos. Pior ainda é a dificuldade financeira, que desponta para um cenário pessimista

Estamos marchando para o fim do livro impresso?

Não creio nisso nem no curto ou médio prazo. As pessoas, por meio de novas tecnologias, até leem mais, porque está acessível na palma da mão. O problema é que as bibliotecas não têm atrativos para seus usuários e tendem a se transformar em museus.

Os acervos deixaram de ser interessantes para ampliar o interesse pela consulta?

Há uma necessidade das bibliotecas públicas avaliarem seus acervos, tanto para o descarte do que não interessa quanto para a aquisição de obras.

Novas tecnologias podem ser implementadas nesse equipamento?

Essa é uma saída para a revitalização. O curso de Biblioteconomia revisa a grade curricular a cada cinco anos, motivando os alunos a se apropriarem das tecnologias.

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